quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Capítulo 23

Capítulo 23

Joshua e Jack

Naquela noite, Laslos Hinks dormiu na casa da bruxa. Não tinha lugar para ir, e imaginava que nenhum dos capangas de Limmie teria a coragem de dar uma busca naquela casa, não enquanto pensavam que Susan Snake estava viva.

Ele se sentou em um dos cantos da sala, encostando as costas na parede áspera de madeira. Daquele ponto ele podia observar qualquer um que ousasse espiar pela janela... e podia ficar de olho no corpo da velha. Ela era uma bruxa, uma das poderosas, e ele não sabia se ela estava realmente morta. Achava que sim. Mas quem sabe o que a magia podia fazer?

Crianças normais poderiam ter medo. Laslos não tinha medo. Acreditava na morte acima de tudo. Ele fitou o corpo muito sério, como um assassino olha sua vítima, procurando ter certeza que ela estava morta. Aliás, era exatamente isso que ele era.

Quando o sono finalmente se apoderou dele, ele dormiu profundamente, sem sonhos. O que não era nada incomum.

Os primeiros raios de luz entraram no casebre perfurando a escuridão abafada do lugar. O garoto sentiu o calor e acordou, sem abrir os olhos. Escutou os sons da casa e da rua, certificando-se que tudo estava onde deveria estar. Satisfeito, ele entreabriu os olhos.

Para Laslos, a poeira iluminada pelo sol que nascia tornava o lugar com um aspecto muito mais mágico do que no dia anterior.

As coisas ainda estavam no mesmo lugar, o que incluía o cadáver de Susan Snake. Devagarzinho, ele se levantou e se espreguiçou. Tinha fome, mas não comeria nada ali.

Passou rapidamente em lista o que precisava fazer. Esconder o corpo seria desnecessário. Havia uma grande chance de ninguém dar falta da bruxa, e quem desse se sentiria aliviado, e não apreensivo. Ela logo iria começar a feder, mas até isso passaria despercebido por um bom tempo, pois a casa em si fedia a coisa morta há muito tempo.

Sua primeira preocupação seria então deixar o lugar e arranjar o que comer. Depois precisaria encontrar a casa de Joshua Storm, o mago. Iria observar o lugar durante o dia e grande parte da noite, para então atacar na madrgada.

Laslos procurou perto do corpo pelas armas que atirou na velha e se preparou para sair.


- Estou lhe dizendo, meu Senhor, o assassino de Jonathan Limmie sumiu sem deixar mais rastros. – disse nervosamente Jack Cara-de-Corvo – Tenho mais de trinta homens nas ruas procurando, mas perdemos a pista dele cem metros adiante da mansão da falecido Limmie.

Joshua Storm encarou longamente Cara-de-Corvo de sua cadeira, atrás de uma mesinha atulhada de papéis. O capanga tinha um rosto que fazia jus à alcunha, com nariz comprido e fino, num rosto oval onde olhinhos negros fitavam o mundo de maneira desconfiada. O cabelo escasso estava despenteado, graças a uma noite em claro correndo pela cidade e fazendo perguntas a todo tipo de gente.

Por sua vez Jack tremeu diante aquele olhar penetrante. Joshua Storm era um homem na casa dos trinta e sete anos, de uma beleza fria e distante. Tinha cabelos louros muito claros, pele muito pálida e olhos cinzas indecifráveis. Ninguém diria que era mago. Tomar-no-iam por conde ou barão, ou mesmo um vampiro se a pessoa acredita-se em tais criaturas, mas nunca um mago.

No entanto o capanga sabia do que ele era capaz. Por isso tremia.

- Meu caro Jackson – começou o mago, com sua voz calma e suspirada. Ele era a única pessoa que chamava Jack assim, coisa que Cara-de-Corvo odiava. – creio que algum equívoco está ocorrendo. Segundo as informações que você apurou, uma criança assassinou meu caríssimo ex-patrão. E agora você afirma que não consegue encontra-lo. – Joshua fez uma pausa dramática – Como uma criança pode enganar trinta homens experientes?

- Bom, eu... –tentou se explicar o capanga.

Storm se levantou abruptamente, fazendo seu elgante manto de mago farfalhar. Essa ação foi como um tapa em Jack, que se calou. Seu chefe jamais havia levantado durante uma conversa. Considerava isso um sinal de fraqueza.

- Me de sua mão, Jackson. – ordenou o mago.

Sem opção, o capanga estendeu sua mão. O mago segurou ela entre as suas, como um padre seguraria às mãos de um fiel ao tentar consola-lo. Jack sentiu a sala girar e perder a cor sob seus pés. Uma dor abrupta em sua mão tentou joga-lo na inconsciência, mas ele mordeu o lábio e agüentou firme.

Quando Joshua tirou a mão, a dor passou imediatamente, sendo substituída por uma leve ardência. E um pulsar.

Jack olho para o lugar e sentiu o estomago embrulhar. Havia uma tatuagem de um polvo maligno onde antes havia apenas pele saudável. Os tentáculos da coisa hedionda eram tão bem desenhados que pareciam ter profundidade. Pareciam serpentear um pouco pelas costas da mão e então entrar na pele. Era uma ilusão de ótica e tanto. Mas tinha um detalhe macabro naquilo: Era como se os tentáculos estivessem entrando na pele e percorrendo as veias. Com efeito, Jack percebeu horrorizado que as veias a partir dos tentáculos estavam levemente enegrecidas e inchadas...

- Quatro dias. – sentenciou o mago calmamente enquanto voltava a se sentar – Você tem quatro dias para encontrar a criança e traze-la a mim, antes que os tentáculos da maldição que eu conjurei sobre sua mão esquerda percorram suas veias até o coração.

Jack Cara-de-Corvo olho embasbacado para o mago, não acreditando que alguém podia sentenciar outra pessoa a uma morte tão cruel como se fizesse aquilo todos os dias. De fato, o mago simplesmente não dirigiu mais o olhar para o capanga, ocupado com alguns papéis em sua mesa.

- Será feito, senhor. – murmurou Jack Cara-de-Corvo, com um aperto na garganta.

Um comentário:

Anônimo disse...

caramba! isso me lembrou o chackh'morg :O