Capítulo 11
Dia a Dia
O vento que entrou fez Dawis Hinks pensar se o tormento nunca ia acabar.
Levantou-se e com passos hesitantes foi até a porta. Tocou a madeira áspera como quem pensa se ela pode protegê-lo do que há lá fora.
É claro que não pode. Por isso ele abre e se depara pela quinta vez com a selva úmida, abafada e escura selva tropical.
Pela quinta vez ele caminhou pela selva, tentando passar pelos cipós, árvores e arbustos, até chegar ao esqueleto do guerreiro tombado. Dawis arrancou a espada e limpou o musgo. Então olhou em volta e ficou procurando por algo, qualquer coisa, que o ajudasse a fazer da quinta vez a ultima.
O vento quente bateu novamente em seu rosto. Maldita planta.
Enxugou o suor da testa. Precisava de um plano. Tinha tentado dar a volta no monstro, mas estava claro que era como as Sarracenias. Devia haver alguns cipós, ou qualquer coisa que ele usava como rede para detectar onde ele estava, pois o monstro nunca era pego de costas.
Tinha tentado, nos outros Sonhos, escapar da gosma que ela cuspia, mas a criatura era rápida. E sua mira precisa.
Da vez passada pensou ter encontrado o melhor modo. Simplesmente deixara ser acertado, mas manteve o braço esticado o mais longe possível do corpo. Sua esperança era que a gosma acertasse o corpo e o braço ficasse livre.
Funcionou bem, exceto que quando estava sendo içado para a boca da fera um outro cipó tratou de arrancar a espada de sua mão.
Hoje ia tentar uma coisa diferente.
Ia manter a espada junto ao corpo, tentar cortar a gosma quando essa viesse.
Respirou fundo e começo a caminhar. Usou o constante e rítmico vento, a respiração do monstro, para rastrear sua posição. Em pouco tempo estava cara a cara com ele. Só que o monstro não tinha cara.
Da primeira vez, Dawis não tivera presença de espírito o bastante para ver como a criatura era. Ele fora pego de surpresa, caíra como um rato numa ratoeira. Mas tivera outras chances e agora via novamente.
O monstro lembrava um vaso rombudo, ou um ovo, de aspecto rugoso e tom verde musgo. Cipós brotavam por todo o corpo, entrando no chão, se estendendo pelo solo e por cima dos galhos das árvores. A área de ação do monstro devia ser, aproximadamente, uns vinte metros ou mais...
O garoto viu os cipós começando a serpentear a sua volta. Viu a boca lotada de dentes se entreabrir. Uma espécie de chifre, não mais que um calombo, inchou logo abaixo. A gosma ia vir dali.
Firmou os pés no chão, tentando ignorar os cipós que enxameavam perto dele.
A planta atirou sua gosma e Dawis a golpeou. Sentiu a gosma passar pela lâmina, sentiu-a tentando se agarrar a seus braços, e viu com uma sensação de triunfo que tinha conseguido escapar!
Mas a alegria durou pouco. A planta atirou mais vezes. Ele conseguiu cortar ao meio mais uma “bala de gosma”, com um pouco de sorte cortou outra e a ultima ele conseguiu se esquivar rolando para o lado. No ímpeto do pulo, cortou um cipó que tentava se enroscar em sua canela. Deu um grito abafado quando um caiu pesadamente em seu ombro, agarrando ele e puxando. Mas a sorte estava com o menino, pois a manga do pijama rasgou e ele escorregou para fora do abraço do cipó.
Avançou brandindo a espada. E com toda sua força golpeou o corpo da criatura.
Que parecia ser feita de aço por baixo da casca rugosa.
Bateu uma, duas, três vezes. Apenas cortes superficiais, como aqueles que um homem faria ao golpear furiosamente um carvalho centenário.
O desespero o engolfou quando percebeu que não adiantava. Falhara. De novo.
Os tentáculos/cipós caíram novamente sobre ele, dessa vez mais de cinco ao mesmo tempo. Lutou como um animal acuado, mas sua espada caiu de sua mão. Sentiu ser erguido no ar, olhou para baixo e viu a bocarra de dentes escuros. Ninguém ouviu seu berro. O que não importava, pois foi logo silenciado.
Acordou gritando. Olhou em volta e se viu no quarto na casa de Gabriel. Viu a cabeça de seu novo companheiro, Bastos, se erguer de sua almofada com um olhar preocupado.
- Esta tudo bem. – disse Dawis arfando – Está tudo... bem. - repetiu, mais para si do que para o Cérbero.
Passou o dedo por uma trilha de marcas vermelhas no seu abdômen. Provavelmente ali que o monstro o havia mordido “fatalmente”.
Três semanas haviam se passado desde o primeiro Sonho com a planta carnívora, na noite que ele chegou a Wingfield. E não descobrira ainda uma maneira de matar aquela maldita.
Levantou e afagou, distraído, a cabeça de Bastos. Ao contrário da sua mãe ele não tinha três cabeças. Sua pelagem negra era comprida e sedosa, seu focinho alongado como o de um lobo e seus olhos vermelhos como sangue. Poderia até meter medo em alguém, não fosse o fato de ter uma carinha de cachorro lambão e de mal alcançar o joelho de Dawis.
Despiu o pijama, colocou seu shortz surrado e uma camisa branca e saiu do quarto.
Encontrou com Gabriel Amaranth sentado na mesa, lendo algumas cartas e fumando um cachimbo. Parecia uma estátua de pedra de um antigo deus nórdico, com sua vasta cabeleira ruiva, barba farta mas curta, olhar feroz e feições de aço num corpo forte de mais de dois metros. Olhava com tanta intensidade para uma carta que o menino não se espantaria em vê-la correr para debaixo da pia, se encolhendo de medo.
- Bom dia. – disse com animo baixo Dawis.
- Bom. – resmungou concentrado o gigante, sem realmente escutar o menino.
Dawis lavou o rosto na pia e começou a preparar um lanche para si.
- Noite ruim de novo? – perguntou Gabriel colocando as cartas de lado e abrindo o Correio de Britohriah, o jornal local.
- É... – disse enrubescendo o menino. Ele não tinha contado a Amaranth sobre os sonhos ainda. Vinha pensando em contar nos últimos dias, pois talvez o gigante soubesse um meio de derrotar a criatura. Além disso, sentia uma afeição cada vez maior por ele, que com seu jeito rude e franco, de humor simples e áspero, havia tratado tão bem o menino.
- Tem carne de ontem na geladeira. – comentou Gabriel – Coma um pouco se quiser e de o resto ao pulguento.
O pulguento era Bastos, claro. Dawis mal podia acreditar que seu novo tutor tinha deixado-o ficar com o filhote.
Na manhã em que eles tiraram Bastos de sua mãe, o garoto perguntou:
- E agora? O que faremos com ele?
- Vamos levar ele para um outro viveiro.
- Não pode! Ele vai se sentir sozinho! – respondeu indignado o garoto, estacando no lugar.
- E o que você sabe sobre ele? – perguntou carrancudo Gabriel. Ainda estava irado com o quase desastre em que se transformou a primeira missão do menino. Dawis fora quase estraçalhado pela mãe Cérbero, por pura imprudência.
- Sei que ficar longe dos pais é a pior coisa para um filho. – disse o menino, sustentando com dificuldade o olhar do adulto.
Esse comentário pareceu amolecer o coração do gigante.
- Eu... entendo. Mas o filhote nasceu magro demais, e se não o tirássemos de perto dela ele ia morrer.
Dawis olhou para o amontoado de pelos no braço do gigante. Parecia minúsculo e indefeso.
- Infelizmente – continuou o gigante – não poderemos devolver ele para a mãe. Ele já tem nosso cheiro, e a Cérbero não vai mais aceitar ele de volta depois que se recuperar. Sinto muito.
- Mas e se ele morrer de tristeza?
- O que você quer que eu faça? – resmungou Gabriel – Ele ia morrer de qualquer jeito, eu pelo menos estou tentando salva-lo. O que mais você quer que eu faça? – perguntou – Dê o filhote para você?
O gigante viu na expressão surpresa, depois ansiosa, que aquilo era exatamente o que o menino queria.
Ele não pode conter uma gargalhada.
- Que seja! – exclamou divertido – Vou deixar ele nas suas mãos, pequeno, mas saiba que isso é uma tremenda responsabilidade!
Assim, um absurdamente feliz Dawis passou a cuidar do cérbero, a quem deu o nome de Bastos. Os primeiros dias foram difíceis, pois o filhote sentia a falta da companhia materna. Mas logo começou a se recuperar graças aos cuidados carinhosos do seu novo amigo humano.
Dawis e Bastos logo ficaram inseparáveis. Não importava aonde o menino ia, lá ia o cérbero atrás, correndo por entre suas pernas.
Bastos não era como um cão comum, apesar de ter apenas uma cabeça. As outras duas, ensinou Gabriel, iriam crescer provavelmente à medida que ele crescesse. Bastos também era muito esperto e aprendia muito rápido. Com apenas cinco dias já respondia quando chamado, com sete já sabia que não podia sujar a casa e com nove já tentava ajudar Dawis em seus afazeres diários.
Que alias eram muitos!
Todo dia de manhã ele acordava e precisava alimentar os muitos animais que viviam
Os primeiros eram as salamandras-d’areia e os cavalos do estábulo que fica no portão. Lá ele cumprimentava os guardas, que pareciam gostar muito de Dawis, e tratava os animais. Havia uma salamandra que parecia amar o menino e que dava um bocado de trabalho, tendo fugido para seguir ele duas vezes já.
Seu próximo serviço era alimentar os gatos. Devia haver pelo menos uns trezentos gatos vivendo
Ainda havia alguns cães, os misteriosos pandas-celestes, e outros animais que tinham permissão de andar livremente pelas ruas.
Depois ele ia até o que ele chamava de “granja”, e que Gabriel dizia ser a Torre dos Ventos. A Torre dos Ventos era um terraço de jardins suspensos, onde diversos viveiros guardavam as aves de Wingfield, como pombos correios, falcões, gaviões-de-luz, ratos-do-vento e outras criaturas mais estranhas.
Quando acabava ali já seria quase meio dia. Então ele voltava para a casa de Gabriel, onde um bom almoço o esperava feito pela bondosa tia Talita, uma das inúmeras cozinheiras de Wingfield.
Depois do almoço poderia descansar e brincar até as duas da tarde, quando Gabriel pegaria duas espadas de madeira, ou dois cajados, um para si e outro para o menino, e ensinaria a ele como se defender. Essas aulas sempre deixavam o menino um pouco dolorido e ofegante, mas ele gostava muito. Amaranth sempre dava boas gargalhadas durante o treino e Dawis gostava das gargalhadas dele.
Depois, ainda pingando de suor, iria tomar café da tarde e depois terminar qualquer serviço que recebesse de Gabriel.
À noite, depois da janta, o gigante ruivo pegava grossos livros e o ensinava sobre diferentes espécies de monstros. Os livros eram incríveis, com boas ilustrações e histórias incríveis, que deixavam os olhinhos do menino brilhando. Então ele ganhava um afago na cabeça e uma ordem para ir dormir.
Claro que às vezes sua rotina não era bem assim. Sempre arranjava um tempinho para explorar a cidade, vazia por causa das férias, e brincar por aí. No dia anterior tinha começa a aprender com Vladimir, o guarda loiro que sorriu para ele no primeiro dia, a como cavalgar uma salamandra e a experiência fora muito excitante!
Uma mordida fraca no seu pé o trouxe de volta ao presente. Tratou de alimentar Bastos. O filhote rapidamente devorou sua porção de carne e saiu com seu amigo humano para a rua.
O dia estava nublado, e o menino tomou isso como um mau presságio. Não gostava de chuva, nem de dias escuros. Faziam-no lembrar do Sonho, e não tinha tempo para isso.
Correu para o estábulo do portão, sendo seguido por um animado e brincalhão Bastos, latindo esganiçado e alegre. A corrida demorava como sempre quase vinte minutos, tempo o bastante para chegar lá a pé e ainda comer algumas maçãs de uma macieira na beira da estrada. Chegando, foi cumprimentar os guardas como sempre.
Estes não estavam em suas guaritas, mas sim recepcionando um senhor de meia idade, calvo e de cabelos muito brancos que entrava no portão...
2 comentários:
algo me diz que esse sonho nao passa de uma preparação pra qnd ele se tornar real :P
Ter um filhote de uma Cerbero deve ser ótimo, mas o que eu gostei mesmo foi dos 300 gatos! que máximo
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