quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Capítulo 9

Capítulo 9

Sarracenias

O bosque onde eles entraram era um lugar abafado e úmido, que lembrou imediatamente a Dawis a selva do Sonho, e sua planta carnívora gigante. O menino ficou petrificado no lugar, atento a qualquer rajada de vento anormal.

- O que foi moleque? Não temos o dia todo. – reclamou Gabriel, abrindo um pouco sua grossa jaqueta.

Estava ficando paranóico, é claro. Os Sonhos podiam ser bem realistas, mas não eram reais (bom, exceto por uns arranhões, um pouco de gosma e uma ou outra coisinha que ele trazia sem querer...). Mas a selva nem era tão parecida com o bosque em que estavam. Faltava aqui a camada de folhas mortas. Não era uma mata tão fechada, não havia cipós se entrelaçando por todos os lados. E mais importante, não havia o vento maldito. Sem vento sem planta-gigante-comedora-de-crianças, certo?

“Além disso, Gabriel está aqui.” Pensou para se sentir melhor. Se bem que a planta do seu Sonho poderia engolir facilmente o gigante. E tudo o que eles tinham era algumas estacas que não fariam nem cócegas...

O menino colocou esses pensamentos de lado. Gabriel ia lhe ensinar algo, e esperava atenção total do seu ajudante.

- Quando entrar neste bosque, você precisa ter em mente que os animais são selvagens, e podem ser ferozes. – advertiu o domador enquanto andavam - E precisam ser, do contrário não teriam valor algum para nós. Se bem que alguns alunos parecem achar que são simples bichinhos de estimação. – grunhiu. Tinham chegado à outra cerca. Essa tinha três portões, cada um aparentemente levando a um caminho. Gabriel fez sinal para que entrassem na da esquerda. Entraram e continuaram a andar – Queria ver eles brincarem com os monstros sem eu estar por perto, ia ser divertido... Ah, chegamos. – avisou se agachando e sussurrou – Não faça barulho.

Gabriel fez sinal para se agachar junto a ele. Depois apontou o dedo para uma área. Era um lugar à sombra de um grande flamboyant sem flores. Algumas moitas verde-escuras apareciam aqui e ali. Havia uma placa, e nela Dawis leu “Mantenha a distancia: Sarracenias”.

- Quando lidamos com sarracenias, você precisa saber algumas coisas. A primeira é que elas são cegas e surdas, mas elas têm sensores por todo seu corpo que captam a menor perturbação no ambiente. Por isso, dependendo a distância, elas podem “sentir” uma pessoa falando. Se você chegar perto o bastante, elas vão ouvir as batidas do seu coração, e acredite você não vai querer que isso aconteça. Observe. Daqui a alguns dias você é que vai alimentar elas.

Gabriel tirou de dentro de sua jaqueta uma sacola. De dentro, tirou um pedaço sangrento de carne.

- Só há um quilo de carne aqui, mas essas pilantras comem pelo vinte por semana. Essas ai já estão alimentadas há dois dias, mas elas não vão negar mais um pouco de comida...

Dawis ficou olhando nervoso em volta, a procura de alguma criatura asquerosa. Ele não via nada que pudesse ser classificado como monstro.

O gigante lançou a carne perto da placa.

As moitas tremeram como se tivessem recebido um choque. Dawis quase gritou. Mas nada aconteceu

- Elas não comem carne morta. – explicou Gabriel – Só carne viva. Mexeram pensando que era algo interessante, mas como não houve mais movimento, pensaram que era um galho ou algo assim. Antigamente trazíamos carneiros ou bodes e deixávamos andar por aqui até que elas se fartassem. Mas ai veio um professor falando que isso era desumano... – rolou os olhos para cima – Eu perguntei “E como vamos alimentar elas, senhor sabichão?” e o sacana me volta dois dias depois com um feitiço para mexer a carne crua. - bufou - Vê se pode, usar magia para alimentar essas coisas.

O garoto assistiu arregalado enquanto Gabriel fazia a magia. Nunca tinha visto uma, e prestou muita atenção. O gigante riscou o ar com seu dedo e fez uma série de caminhos com o dedo, como se desenhasse uma figura no ar. Percebeu que a figura era uma runa, pois à medida que era desenhada, uma névoa fina e branca ia aparecendo no lugar onde o dedo passava. Alguns instantes depois, Amaranth deu um “tapa” na névoa e ela se desapareceu, ao mesmo tempo que a carne crua jogada no chão começou a se contorcer como uma cobra.

A reação foi instantânea. Raízes (ou seriam cipós?) antes enterrados na terra em um circulo de dez metros ao redor das moitas se contorceram e com golpes rápidos caíram sobre a carne magicamente animada. Houve uma breve luta entre as sarracenias, mas finalmente uma conseguiu pegar para si o pedaço de carne que ainda se contorcia. As folhas de uma das moitas se abriram, revelando uma grande boca com pequenos dentes brancos e afiados.

A planta largou lá sua presa e um som enjoativo de mastigação fez-se ouvir. E depois o silencio.

As raízes-cipós voltaram para debaixo da terra.

- As raízes da sarracenia têm pequenos espinhos venenosos. – disse Gabriel – O veneno é forte, e pode derrubar um cavalo enquanto elas o estrangulam. Mais de um caçador já morreu ao entrar no território de uma sarracenia e não perceber até ser tarde demais.

O garoto não disse nada. Estava comparando mentalmente as sarracenias com a criatura que ele encontrou no Sonho. A principio sua mente tentava freneticamente convencê-lo que eram a mesma coisa, apenas em tamanhos diferentes. Mas ele logo pode relacionar um bom número de diferenças. A coisa da selva úmida além de muito maior não parecia um arbusto, e sim uma espécie de árvore. Não eram raízes e sim cipós. E não havia veneno, havia? Aquela gosma era algo para imobilizar a presa, mas era como uma cola e não estava nos “tentáculos”.

- C-como eu faço pra saber que estou entrando no território delas? – perguntou.

- Boa pergunta. Olhe no chão. – apontou Gabriel – Perceba que não há qualquer planta no chão, e que o solo parece revirado. Se você encontrar uma clareira, uma área sem mato, mas com uma ou mais “moitas” no meio, é bem provável que sejam sarracenias. Elas matam as outras plantas para não atrapalhar na hora de matar. E elas se disfarçam de arbustos para atrair animais. Por sorte elas não conseguem sair do lugar... Vamos, vou te mostrar o resto do bosque.

Estavam se levantando quando Dawis perguntou.

- O senhor vai querer que eu alimente essas Sarracenias na próxima semana?

- Se você estiver pronto, sim.

- Mas... eu não sei fazer magia!

- Ah isso você vai aprender. É uma das matérias. – Gabriel coçou a juba ruiva - Na verdade você só iria aprender quando as aulas começassem, mas por sorte o professor de Artes Mágicas resolveu passar as férias aqui em Wingfield. Tenho certeza que ele não vai se importar de te dar umas aulinhas...

Eles voltaram até os três portões.

- Bom você já sabe que o portão da esquerda leva às sarracenias. O portão do meio leva até os monstros reprodutores, como os chamamos. Lá estão os maiores de todos os monstros, muito bem trancados com magia e a mais alta tecnologia. Inclusive temos uma Sarracenia Real, uma coisa que você não vai querer conhecer. Há outros monstros lá dentro, mas acho que essa é a mais perigosa. Felizmente só eu tenho permissão para entrar ali. – piscou o gigante ruivo – Você vai poder dar uma olhada quando estiver maiorzinho e se for digno de confiança. E não tente entrar sem permissão, há uma magia ali que repele qualquer invasor.

Dawis olhou por um tempo o portão com um misto de fascínio e medo. Ele disse:

- E o que tem no outro portão?

- Ele leva para os outros “viveiros” de criaturas.

- E porque as sarracenias têm um portão só para elas? – perguntou curioso.

- Na verdade o viveiro delas foi construído depois. – Amaranth tirou um cachimbo do bolso e começou a encher de fumo – E por que elas não são muito sociáveis. Nos outros, há sempre mais do que um animal vivendo, lembre disso. Algumas espécies até se unem para atacar os alunos, muito divertido. – deu uma risada curta e sarcástica

- São quantos viveiros? – quis saber o garoto.

Gabriel deu uma baforada – Dezessete. Este ano estamos querendo ampliar para vinte.

- Tudo isso? Mas é impossível! Sei que o bosque é grande, mas seria preciso uma floresta inteira para ter isso tudo.

- Você diz isso por que viu o bosque só por fora. Quem o olha assim imagina que tenha o tamanho de dois ou três estádios, mas na verdade tem o tamanho de pelo menos doze.

- Doze estádios... – murmurou sem acreditar – Mas como isso é possível?

A gargalhada de Gabriel ecoou pelo bosque – Magia garoto, magia! Você vai encontrar muitos lugares assim em Wingfield. Em verdade, apesar de ter o tamanho de uma fortaleza de grande porte, Wingfield deve ser do tamanho de uma cidade...

Os dois passaram pelo portão da direita e caminharam por um corredor parecido com o da entrada. Havia muitos caminhos que partiam deste, todos com placas com nomes de criaturas que Dawis nunca ouvira na vida. “Serpentes de Ferro”, “Khezu”, “Balroa”, “Grifo-das-Montanhas” e muitos outros.

Pararam em frente a um portão que dizia “Cérbero”.

- Você ainda não pode usar magia, não sabe lutar e mal tem carne nesses braços finos... – falou Gabriel, e fumaça saiu de sua boca – Mas tenho aqui algo que você pode fazer. Pegue uma estaca e se prepare garoto, a sua primeira missão começa agora.

Um comentário:

Suellen disse...

"cuidado aonde pisa"
boa colocação mesmo oO
:D