Capítulo 22
A hora da Bruxa
O garoto ofegava em um beco imundo. Suas roupas estavam cheias do sangue de Jonathan Limmie. Laslos nunca tinha lutado contra alguém tão grande; jamais podia imaginar que fosse tão difícil tirar a vida de um homem assim. Para sua sorte, o homem não conseguira falar uma palavra.
“Preciso me lembrar disso da próxima vez...” pensou ele. O menino não tinha qualquer ilusão: sabia que haveria outras mortes em seu caminho. Jonathan Limmie ainda respirava quando Laslos fugiu dos guardas, mas ele sabia que o homem gordo não ia sobreviver por muito mais tempo. Laslos se atrapalhou com toda aquela carne, mas muitos dos ferimentos deviam ser fatais.
Por isso se concentrou no que iria fazer. Examinou seu pé e viu que estava sujo de sangue, o que significava que devia haver pegadas suas no quarto. Somando esse fato a importância da vítima, ele podia adivinhar que dentro de instantes haveria muita gente nas ruas caçando-o.
Enquanto tirava sua camisa, o jovem assassino ponderou sobre suas escolhas: podia tentar desaparecer por uns dias e voltar depois para matar Susan Snake e Joshua Storm. Sabia onde os dois moravam, mas não sabia se continuariam lá depois de saberem sobre o ataque de hoje.
“Além disso” pensou ele enquanto limpava o sangue dos pés com a camisa “Eles vão estar me caçando. São do submundo, conhecem cada buraco dessa cidade. É quase impossível se esconder.”
Jogou a camisa numa lixeira e começou a caminhar apressado. Se esconder não era uma boa opção, então ele iria atacar.
A noite avançava em seu ritmo habitual. Laslos Hinks observava com frio interesse a casa de Susan Snake.
Era apenas um velho casebre caindo aos pedaços, com telhado de palha e coberto por uma espécie de musgo, ou seja lá o que fosse aquilo. Tinha apenas um andar. A coisa toda destoava terrivelmente do resto da cidade que era relativamente limpa. Destoava da mesma maneira maligna que um tumor iria destoar na testa de um bebê rechonchudo.
Velas ardiam na casa, fazendo as sombras dançarem. Não dava para saber o que a velha bruxa estava fazendo ou mesmo se estava fazendo alguma coisa, mas Laslos sentia que devia tomar muito cuidado.
Depois de quase uma hora observando e rondando a casa, ele se aproximou com passos desinteressados, chutando pedras como um menino normal faria. A rua estava vazia, o que era muito conveniente, mas era bom não descuidar.
Uma janela aberta serviu de entrada para o menino, que segurava uma machadinha na mão, e trazia a adaga na outra. O plano era muito simples: iria encontrar a velha dentro da cabana, então iria atirar a machadinha contra sua cabeça. Se ela não morresse na hora ou se conseguisse esquivar-se, Laslos terminaria o serviço com a adaga.
Simples. Então porque quando Laslos entrou na cabana sentiu-se em perigo mortal?
O ambiente era caótico. Ele estava em uma grande sala com uma mesa enorme de madeira velha, mas de aparência sólida, e uma única cadeira. Estantes atulhavam as paredes e nelas frascos de vidros de todos os tamanhos e aparências. Havia velas por todos os lados, lançando sua luz avermelhada pelo cômodo. Depois da sala Laslos divisou o que deveria ser uma cozinha, onde um caldeirão fumegava e onde armários grandes escondiam boa parte das paredes. Uma porta levava para outro aposento. Nenhum sinal da bruxa
A vela mais próxima a ele se iluminou com mais força, como se não fosse uma vela, mas sim uma tocha. Imediatamente as outras se apagaram e a sensação de perigo se intensificou.
Ele não via mais a cozinha. Mal conseguia ver toda a sala. Aquela vela devia iluminar todo o cômodo com aquela luz absurda, mas iluminava apenas o local onde Laslos estava.
“Magia.” xingou mentalmente.
Uma tábua estalou em algum lugar da cozinha e Laslos, agindo agora puramente pelos seus instintos, pulou fora do círculo de luz. Foi bem a tempo, pois um vulto negro atingiu o lugar onde ele estava antes.
No escuro, Laslos correu em volta da mesa. Ele não enxergava coisa alguma, mas tinha boa memória (algo que já o salvara diversas vezes) e lembrava bem a disposição dos objetos.
- Eu posso ver você correndo, Sobrevivente. Posso ver seu corpo magro e cheio de vida fugindo de mim...
A voz hedionda era obviamente da velha Susan Snake. Do que ela o chamara? Sobrevivente? Isso era algo para pensar mais tarde.
Um deslocamento de ar na sua frente indicou que a velha errara mais um daqueles vultos. Laslos calculou rapidamente a trajetória do primeiro e comparou com a direção de onde o último partira.
Sem hesitar, ele atirou sua machadinha.
- Arghs! – gemeu a bruxa quando a machadinha atingiu seu braço. Ela viu (pois enxergava terrivelmente bem nas trevas) seu braço esquelético cair decepado no chão e soltou um uivo de raiva e dor – Se acha esperto, filho de uma puta? Você se acha valente? A velha Susan viveu mais de quintos anos e vai viver outros quinhentos antes de um menino me matar! Não me importa se você for o Sobrevivente ou não!
As trevas se intensificaram ao redor de Laslos. Ele não sabia como isso era possível, mas estava acontecendo. Sentiu seu corpo ser pressionado, sentiu o ar lhe faltar.
A velha ria malignamente enquanto a escuridão espremia o menino.
- Agora você desmaia meu pequeno! Não vou matar você, pois seu corpo vai me servir muito bem pelos próximos setenta ou oitenta anos!
Laslos sentiu as trevas entrarem em sua mente. Sua mente foi ficando embotada, lenta. Doía para pensar. Sentiu-se deslizando rapidamente para a inconsciência.
- Isso não acaba assim. – disse ele com grande dificuldade. Laslos Hinks empunhou sua adaga e cravou-a fundo. Em sua mão esquerda.
A dor intensa o fez ofegar. Sua mão parecia pegar fogo. Mas sua mente clareou um pouco mais. Ele torceu a adaga e a dor explodiu na forma de um gemido abafado.
Aproveitando que a dor o despertara completamente, ele largou a adaga na própria mão e tateou em volta com a outra. Sentiu o encosto da cadeira atrás de si.
Com um grito de guerra, Laslos a ergueu do chão e com todas suas forças golpeou o crânio da velha bruxa. A escuridão abandonou a cabana à medida que o sangue fluía da massa disforme que fora a frágil cabeça de Susan Snake e que antes disso fora a cabeça de uma jovem menina.
Antes de a velha perder a consciência, ela viu a dama de preto se ajoelhar ao seu lado com um sorriso doce. Ela acariciou a cabeça dela sem nojo de todo o sangue, sem se importar com os ferimentos ou a sujeira daquele corpo maligno.
- Já está na hora, Susan Snake. – sua voz repleta de carinho era um bálsamo para a alma torturada e torturante de Susan Snake – Parece que dessa vez você vem comigo, minha querida.
- Sim... - murmurou pela útima vez a velha bruxa.
2 comentários:
não gostaria que a dama de preto me perseguisse quando minha hora chegasse. que agonia (y)
Wow!!!
Li do capítulo 13 até esse aqui.
Esse irmão misterioso de nosso herói é um detalhe que eu não esperava na trama.
Agora, vou relaxar um pouco para depois ler até os último capítulo postado.
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