quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Capítulo 28

Capítulo 28

Acampamento II

Os cabelos negros de Cinthia ondularam sob a luz da alvorada, fazendo o coração de Dawis se encolher, não pela primeira vez. Ela tinha a mesma idade dele, e quase a mesma altura, sendo apenas um palmo mais baixa (coisa que a deixava muito desgostosa). Trajava uma armadura leve, feita de couro, que escondia seu corpo esguio e atraente.

Ela deu um largo sorriso quando o viu, caminhando lado a lado com Bastos, e bateu uma continência espalhafatosa e pomposa. A maneira como ela ergueu ligeiramente o queixo para cima e comprimiu os lábios deixou tudo mais cômico ainda, fazendo o jovem Hinks rir com vontade.

- Como um sargento pode rir assim quando um soldado lhe bate continência? – perguntou ela tentando parecer aborrecida, sem sucesso.

- Não ensinaram que devemos bater continência com humildade? – disse Dawis entre os risos.

- Mas também nos ensinaram a fazê-lo com vigor! – rebateu ela, mostrando a língua. Dawis explodiu em uma gargalhada, e logo foi acompanhada pelos risos sonoros da menina.

Quando as risadas dos dois arrefeceram, eles ficaram se olhando e sorrindo. Isso até perceberem o que estavam fazendo e ficarem com as faces rubras, é claro.

Bastos olhou de Dawis para Cinthia, e então de Cinthia para Dawis. Qualquer um que o observasse juraria de pés junto que ele rolou os olhos para cima, como quem diz “Humanos, humf”.

O momento foi interrompido por Alex, que saiu da tenta coçando o cabelo, os olhos sonolentos praticamente fechados, espreitando a luz do novo dia com franco aborrecimento.

- Dia... – resmungou ele, arrastando os pés.

Cinthia deu um cutucão na barriga do garoto. – É bom dia, senhor. Você precisa fazer uma continência para Dawis, lembra?

Alex se empertigou e bateu uma vigorosa continência, que teria sido exemplar, tirando a parte do rosto sonolento e das roupas amarrotadas. Dawis riu e olhou para Cinthia e essa também não agüentou a risada.

- Ah me deixem em paz... – suspirou divertido Alex, se dirigindo para o rio.

- Vou lavar o rosto também, devo estar com uma cara horrível! – disse Cinthia se espreguiçando. Dawis teve vontade de dizer que ela estava linda, mas se conteve.

Enquanto os dois se afastavam, o jovem sargento entrou na tenda e ficou observando o terceiro companheiro de acampamento. Era um rapaz loiro, de cabelos mais claros que o dele, e muito pálido. Flint não era um bom soldado, era apenas um menino que tivera o azar de nascer em uma família guerreira. Tinha uma inclinação para a magia, mas seu pai não via a magia com bons olhos. A maioria dos guerreiros ignorantes teme a magia como uma força maligna, e não havia nada que se pudesse fazer para convencê-los do contrário.

Mas Dawis não podia pegar leve com ele, não quando todos os outros soldados do acampamento também precisavam acordar na mesma hora.

- Acorde Flint.

- Hmmm... – fez Flint.

- Acorde soldado, já é hora de levantar.

- Que droga... – xingou Flint se esforçando para acordar – Pô Sargento, o sol nem nasceu ainda.

Dawis fez um muxoxo. – Não importa, são cinco e meia da manhã, hora de acordar. Levante e vá lavar o rosto no rio, temos muito que fazer hoje.

Enquanto o garoto saía resmungando, Dawis pegou sua armadura e começou a vesti-la.

A armadura era muito boa, considerando o salário de fome que Dawis recebia por ser um sargento. Era de cobre e aço, muito pesada, mas muito resistente. Uma armadura assim só era usada por cavaleiros, que geralmente não precisavam andar muito, apenas ficar em cima de um cavalo que carregaria todo o peso.

Mas aquela não estava completa. As únicas partes das quais Dawis se utilizava era o peitoral, uma ombreira (a do braço esquerdo, onde o menino usava seu escudo) e uma manopla (pedaço da armadura que protegia das mãos até o bíceps) que ele utilizava no braço direito (o braço da lança).

Ele também usava duas botas de batalha, coturnos grossos de couro, reforçados com placas de metal, que alcançavam até os joelhos.

Um sorriso brotou nos lábios do jovem sargento no primeiro dia em que ele envergou sua armadura há quase um ano.

Foi em uma batalha na Fronteira leste de Southice, um lugar perdido chamado Fosso-da-Tartaruga. O exército de Northfire estava lá em peso, procurando entrar fundo no reino inimigo, e o regimento de Dawis foi mandado para ajudar o exército a combatê-los.

Quando saiu de sua tenda, naquele dia, trajando sua armadura “nova”, foi recebido com olhares de deboche e risadinhas. Alguns oficiais mais graduados riram descaradamente dele. E ele descobriu que não podia culpá-los.

Imagine um garoto de doze anos, loiro, de um metro e cinqüenta e sete de altura, empertigado em uma armadura que seria usada apenas por um homem maior, dali a muitos anos. Imagine este mesmo garoto andando pesadamente, trazendo nas costas uma lança robusta e muito comprida (“uma lança de cavalaria!” gargalhou alguém) e um escudo grande e triangular.

Muitos apostaram que ele não ia durar dois minutos no campo de batalha.

Os mais otimistas apostaram que ele sobreviveria uns dez.

Mas ele não só sobreviveu, como lutou furiosamente, vencendo um inimigo atrás do outro.

Seu estilo de luta era totalmente novo, e ninguém sabia como enfrenta-lo. Ele escorara o escudo na perna esquerda, parcialmente dobrada a frente, enquanto a perna direita ficara mais atrás, pronta para agüentar qualquer empurrão que viesse. E viria, é claro, pois a guerra nada mais é que o embate entre fileiras, a temida parede de escudos, o paredão da morte. Onde homens morrem como cães e cães comem como reis.

A lança era uma haste de ferro arredondada e afiada, com dois metros e meio de comprimento, que se abria como uma tulipa para proteger a empunhadura, e assim, também a mão do guerreiro.

Quando a primeira fileira inimiga despontou no horizonte, Dawis se posicionou na frente, ladeado por Alex e um soldado chamado Carter. Encravou a lança no chão logo à sua frente e sacou seu revólver (um presente de Gabriel).

As armas de fogo eram conhecidas por todos os exércitos, mas pouco utilizadas. Eram dispendiosas, atiravam uma vez e precisavam ser recarregadas, processo que demorava vários minutos (tempo que não se tem em uma batalha) e uma bala não vencia a proteção de um escudo de aço pesado.

Por isso houve muitos murmúrios de desaprovação quando ele sacou seu revólver.

Mas assim que as fileiras inimigas se aproximaram a uma distancia de dez metros, Dawis atirou. A bala de metal varou o ar, cortando a distância com uma facilidade terrível. O soldado para o qual ela estava direcionada mal teve tempo de pensar “ainda bem que tenho escudo” quando ela atingiu a fileira com força.

Uma bala normal teria se encravado no metal e seria o fim de sua curta trajetória.

Aquela soltou um clarão vermelho intenso e varou facilmente o metal, a carne e os ossos, matando o primeiro soldado e ferindo gravemente o homem logo atrás.

Dawis guardou sua arma no coldre e empunhou novamente a lança. Levou para isso o mesmo tempo que você para respirar duas vezes enquanto lia a última frase.

- Ataquem a brecha na parede de escudos! – berrou ele para os soldados, e correu com a lança em riste, os guerreiros aliados seguindo-o logo atrás.

A lança perfurou fundo as fileiras inimigas, alargando ainda mais a brecha na parede de escudos. Labaredas de fogo crepitavam por toda sua extensão, denunciando que Dawis estava usando magia em cada golpe, o que encheu os inimigos de temor. Magos ficam atrás das fileiras, em seus mantos sombrios, usando magias complexas e morrendo como moscas quando alcançados pelo inimigo. Não lutavam na linha de frente. Não empunhavam lanças. Não gritavam em fúria, ceifando vidas com tamanha habilidade. E não tinha tão pouca idade.

Numa parede de escudos vence aquele que conseguir quebrar a linha de escudos e penetrar dentro da fileira inimiga. Isso porque o homem da esquerda protege com seu escudo o homem da direita e assim por diante. Se um cai e não é substituído logo, o homem ao seu lado fica indefeso e fatalmente irá morrer, gerando uma reação em cadeia até que todo o exército inimigo esteja derrotado.

E foi o que Dawis fez. As fileiras inimigas começaram a se desorganizar frente à fileira muito organizada do jovem sargento.

Ele foi decisivo naquela batalha, e ninguém mais riu de suas armas nem de sua armadura...

Quando estava pronto, Dawis saiu da tenda para encontrar seus amigos. Haveria luta naquele dia, exatamente como há um ano atrás, e ele estava pronto para ela.

4 comentários:

Anônimo disse...

O próximo capítulo vai ser um daqueles!!

Briga! Briga! Briga!
eahuaehuaeuhea

Anônimo disse...

O Dawis quer namorar, lá lá lá..

Ester Grünhagen disse...

*__*

Dawis é feroz!
xD

Anônimo disse...

que capítulo divertido. fui obrigada a rir no começo XD