segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Capítulo 1: As Crônicas - Dawis Hinks

As Crônicas - Dawis Hinks

-----------------------------------------------

Capítulo 1

Apostas

Os passos do Senhor do Reino dos Sonhos ecoavam pelo salão enquanto ele se dirigia ao trono. Seu palácio contrastava de forma gritante com seu senhor. As tapeçarias eram cheias de formas inusitadas, reflexos de sonhos coloridos que ali viviam. Em verdade, todo o palácio era construído tendo por matéria prima apenas sonhos. Era pavimentado pelos sonhos daqueles que falharam, sustentados pelas paredes dos anseios e ambições e adornado com os mais belos e puros desejos humanos. Bem, não só humanos.

É difícil, se não impossível, descrever aquele que rege com mão de ferro os sonhos de bilhões de seres viventes. Mas podemos tentar. Podemos dizer que sua capa era como a Noite Estrelada. Em seus cabelos, negros e rebeldes como as ondas do mar noturno, a coroa de Jóias Desejadas brilhava intensa. Seu cetro era a Prisão dos Pesadelos e em sua mão o anel das Criaturas Falantes fazia ruídos estranhos, como a conversa de mil criaturas encantadas. Seu semblante era alvo como a Neve Imortal, e seus olhos mais escuros que o mais negro dos Vórtices da Eternidade. Era alto e magro, quase esquelético. Vestia roupas simples e surradas por baixo de seus adornos. Seus lábios negros nunca sorriam. Apesar da aparência jovem e desajeitada, em seu reino era soberano absoluto.

Quando chegou a seu trono, encontrou deitada sua irmã mais velha, o Destino Final de Todos os Caminhos, aquela que A Todos Espera, da qual Ninguém Escapa. Nunca aparecia da mesma forma. Não tinha estilo definido. Podia ser hoje uma Punk, amanhã uma empresária, depois de amanhã uma camponesa... Sempre vestida de Negro.

Neste dia trajava um vestido tomara-que-caia muito sensual. Seu cabelo longo e negro descia numa trança por sobre seu ombro, dando um ar inusitado de donzela a ela. Ela era sem dúvida linda e misteriosa. Sempre foi. Desde as primeiras eras.

- O que fazes aqui, Morte, minha irmã? – Inquiriu o monarca.

Ela sorriu inocente.

- Vim buscar aqueles que sonham seus sonhos de morte. – respondeu docemente.

Os olhos negros do Rei cintilaram brevemente.

- Aqui, em meus aposentos? De que lhe interessa os sonhos dos moribundos, se no final todos morrem de qualquer forma? Acaso não podes buscá-los em seus leitos de morte?

- Sim, posso agir desta forma se me convier. – respondeu rindo a Dama do Destino Mas então eu não descobriria o porquê de tantas vidas humanas estarem demorando mais para findar. Está tentando prolongar a estadia dessas almas no mundo com seus sonhos, meu irmão?

Ele fitou a figura sorridente a sua frente.

- Estou.

A Morte deu uma gostosa gargalhada.

- Para que? Queres aumentar o sofrimento das pobres criaturas? Acaso não vês que cada qual tem sua hora? O que pretende fazendo isso, meu pobre irmão? Testar suas forças contra as minhas?

A figura alva de olhos negros começou a caminhar para outro aposento, sem responder coisa alguma.

- Falas-te certo meu irmão quando sentenciaste que todos morrem de qualquer forma. – a Morte brincou com sua trança – Nada do que faças adiantará. Teu mundo não passa de sonho e de nada vale na cruel vida real.

O Soberano dos Sonhos estacou no lugar. O salão inteiro tremeu como um lago de águas paradas perturbadas subitamente por uma pedra.

- Desconheces a força dos Sonhos minha cara. – cada palavra foi proferida com um esforço óbvio para esconder o imenso amargor e desprezo – Um único sonho pode mudar o mundo, o que dirá um reino deles.

- Pouco importa! – retorquiu divertida a Morte – Todos morrem um dia e assim cessam de sonhar. Não fique tão magoado meu irmão! Esta é a realidade, nada pode mudá-la.

- Sim, nada pode mudá-la. Mas depois de mortos os humanos deixam o mundo real. Sendo assim, mostre-me sua influência, caríssima irmã.

- COMO OUSA? – gritou Aquela da Qual não à Fuga – Os humanos pouca fazem além de pensar em mim! Quem os acolhe com doçura no momento do fim de suas existências? Quem lhes dá o merecido descanso depois de toda uma vida de sofrimentos?

Agora ela também estava de pé. O salão a sua volta foi ficando mais cinzento, frio e sem vida. Não era como se alguém tirasse a cor do ambiente, mas como se as cores nunca tivessem existido.

Ele voltou-se para ela e respondeu.

- Você, minha irmã. É você que acalenta aqueles que sofrem e aqueles que não têm mais para onde ir a não ser para seus braços. Mas neste mundo, neste seu “mundo real”, você é temida. Sua presença é odiada. As pessoas fogem de sua sina, poucos te aceitam. A única influência que vossa presença incute não é outra senão o medo.

- Estás insinuando que não posso... que não tenho poder para influenciar os humanos, para ser venerada por eles?

- Como podes fazê-lo se a única vez que eles a vêem é também a ultima?

- Imprudente! Queres que eu mostre minha influencia ao mundo? Queres que o mundo sinta meu poder? – sibilou a Ceifadora, com um perigoso brilho no olhar – O mundo pode vir ao chão num simples estalar de meus dedos.

- Não seja infantil – olhou severamente seu irmão – Condenar o mundo por um simples capricho seu é patético.

- Tens razão! – respondeu ela na mesma hora – Já sei o que faremos! Vamos fazer uma aposta civilizada meu caro irmão!

- Uma... aposta?

- Sim, isso mesmo! – exclamou alegremente, dissipando toda a atmosfera tensa do momento – Escolheremos dois humanos que tenham o destino entrelaçado entre si e iremos influenciá-los desde os primeiros instantes de vida até o derradeiro encontro dos dois. Então veremos qual deles tornou-se melhor, e assim qual de nós possui mais influência no mundo!

- Não sei... Esta parece uma aposta injusta. Você trará a morte ao meu protegido muito antes dele encontrar o seu.

- Não, não o farei! – disse ela sorrindo – Ai está a beleza da nossa aposta. Eu não irei mexer em seu protegido, assim como você não enviará sonho algum para o meu. Mas não garanto pela vida do seu. Não farei esforço algum para matá-lo, mas não terei culpa se você o meter em confusões e nelas ele morrer!

- Parece adequado. Eu aceito seu desafio, minha cara. – disse o Rei dos Sonhos, estendendo a mão.

- Ótimo! Vai ser tão divertido! – disse a Senhora da Morte, apertando a mão do monarca.

E assim o destino de dois homens começava a ser traçado.

Um comentário:

Anônimo disse...

mto boa :) gostei mesmo ^^ aguardo os próximos capítulos :D parabéns o/ ;**