terça-feira, 27 de novembro de 2007

Capitulo 2

Mudança de vida

Aos sete anos de idade a maior parte das crianças adora falar. Falam sobre tudo e muitas vezes sobre nada.

Só que a maior parte das crianças não ficou órfão no ultimo ano.

Dawis ficou. Na verdade ele já era órfão de mãe, desde seus quatro anos de idade. Mas há dois meses ele também perdeu seu pai.

O trauma lançou o jovem Dawis Hinks em um completo mudismo. Ou pelo menos foi isso que pensaram os adultos a sua volta. Na verdade o garoto podia falar normalmente.

Mas para quê?

Ele não tinha vontade de falar. Ele não tinha nem com quem falar. A bem da verdade os únicos adultos com quem ele gostava de conversar eram seus pais, mas para eles nunca mais haveria palavras. Nem histórias ao pé da cama. Nem abraços carinhosos quando os Sonhos chegassem.

Sim. Os Sonhos. O menino sempre pensava neles como os Sonhos, pois eram diferentes dos outros sonhos. Eram mais... reais.

Dawis estremeceu em sua cama. No começo ele gostava deles. Não eram ruins, os Sonhos. Eram sempre sobre coisas interessantes. Ele conhecia muita gente legal nos sonhos, gente de todas as cores e tamanhos e algumas que nem eram gente de verdade. Mas todos eram amáveis com ele. Muitas vezes davam coisas gostosas para comer.

Mas isso começou a mudar a um bom tempo.

Os sonhos começaram a ficar perigosos.

Seus pensamentos foram interrompidos, nada delicadamente, pela porta que se abriu bruscamente. Segurando a porta estava dona Efigência, a governanta da casa. Seu rosto estava simpático como sempre. Ou seja, sua testa estava enrugada sobre seus olhinhos pequenos e brilhantes, logo acima de um nariz pequeno e gordo e de bochechas ainda mais gordas. Debaixo daquelas bochechas estava uma boca que não passava de uma linha comprimida. Dawis não sabia ao certo porque, mas o conjunto todo (mais o corpo baixo e roliço) lembrava um porco de avental e touca.

- Anda moleque! Você já era para estar de pé há uma hora! – falou dona Efigência com sua voz amarga e baixa – Vá cortar lenha agora, está me ouvindo? AGORA!

Sem esperar para ver se o garoto tinha entendido sua ordem, a governanta se virou e saiu pisando duro, como se o chão tivesse culpa pelo seu mau-humor.

Com um muxoxo, Dawis levantou de sua cama. Todo dolorido do dia anterior, arrumou sua cama com todo o cuidado. “Seja como os passarinhos Dawis!” teria dito seu pai. “Não deixe nada desarrumado quando sair de seu ninho!” e teria dado uma daquelas gostosas gargalhadas.

“Se dona Efigência ouvisse uma gargalhada como aquela não ia conseguir ficar tão carrancuda.” Pensou amargurado o menino. Ninguém conseguia não sorrir perto do seu pai.

Saiu do seu quarto, que pouco mais era do que um rancho para ferramentas velhas e outras coisas indesejadas, e foi até um tanque de lavar roupa que tinha nos fundos.

Lavou o rosto na água fria e saiu para a fazenda.

...

A fazenda dos Varleys ainda acordava naquele dia frio de inverno. Poucos animais já estavam de pé. O próprio sol parecia estar dormindo ainda, dada a escuridão reinante.

Dawis pegou o machado de cortar lenha, quase maior que ele próprio, e foi com os pés arrastando até o pasto.

Apesar de não gostar muito dos adultos que viviam na fazenda, ele gostava da fazenda em si. O cheiro do pasto verde, as vacas sempre comendo e balançando seus rabos despreocupadamente, o galo cuidando das galinhas, as muitas árvores e suas gostosas frutas... Não era um lugar ruim para se viver.

“ Um dia” pensava ele “Vou ter uma fazenda como esta. Mas sem tantos adultos...”.

Atravessou o pasto e foi em direção à velha arvore quebrada, que caiu no ultimo temporal, e começou a trabalhar.

Precisou fazer três viagens, levando braçadas de lenha para a cozinha, até dona Efigência ficar satisfeita.

A cozinha era atulhada de panelas, temperos e coisas pontudas ou cortantes. A Dawis lembrava mais um açougue. Se bem que um açougue provavelmente era mais limpo.

Quando soltava os últimos galhos na caixa de lenha viu entrar na cozinha Jorge Varley, o dono da fazenda e que supostamente tinha algum parentesco com o garoto. Dawis não via nenhum traço em comum entre si e seu tio, nem entendia como aquele homem rabugento, pançudo e nojento podia ter algo a ver com sua mãe. Não que ele lembra-se muito da mãe. Mas lembrava o bastante para saber que ela não era feia, não cheirava mal nem gritava por qualquer coisa.

Naquela manhã ele parecia um bocado zangado. Dawis tentou sair sem ser notado, mas quando estava na soleira da porta seu tio gritou.

- Ah guri! Venha já aqui!

O pobre garoto foi com os ombros caídos até seu tio e o olhou com a melhor cara de coitado que ele conseguiu fazer.

Mas seu tio nem notou.

- Escute aqui moleque. Você já está aqui há dois meses, usufruindo do bom e do melhor que esta casa tem a oferecer. – Dawis não sabia o que era usufruindo, mas se fosse algo bom com certeza não estava nessa casa – O que quero dizer é que já está na hora de você retribuir toda a nossa boa vontade.

- O que está acontecendo aqui? – disse com uma voz estridente Perpétua, sua tia. Não é preciso falar muito sobre ela. Se você já viu uma daquelas mulheres quarentonas que parecem ser sessentonas e que não gostam de crianças, então você já viu uma Perpétua por ai.

- Eu estava explicando para esse trastezinho aqui – apontou para ele o tio Jorge – que já é hora de ele fazer algo para nos pagar pelas despesas que temos com ele!

- Ah, concordo! – guinchou ela – E em que você está pensando meu querido?

Dawis pensou em corrigir sua tia e dizer que Jorge era tudo menos querido, mas achou mais sensato continuar mudo.

- Pensei em mandar esse molenga para Wingfield*. Lá talvez ele tivesse uma carreira militar e poderia fazer algo além de nos dar despesas. – Dawis não pode deixar de se encolher diante do olhar de desprezo.

- Será, meu quindim? – falou pensativamente Perpétua. O garoto olhou para a pança do seu tio, e considerou se a tia estava falando dela. De fato, parecia ser mole e amarela como a barriga de Jorge. Mas não cheirava bem. – Mas e se ele fizer alguma bobagem? – continuou, com a clara intenção de dizer que ele faria – Eles podem se vingar na gente! Ouvi dizer que são terríveis!

- Ah, mas eles são! Não viraria minhas costas para aqueles bastardos traiçoeiros. – concordou tio Jorge – Mas pior para o moleque! Se fizer algo de errado, eles darão um jeito nele...

O olhar malicioso do tio deixou Dawis um bocado arrepiado. Era um olhar do tipo você-vai-sofrer-nanico-e-vai-sofrer-bastante-não-há-escapatória-aproveite-bem. Jorge era cheio desses olhares, não era algo agradável.

Dawis sentiu suas entranhas pesadas. Ele queria sair da fazenda, é claro, mas agora que teria seus sonhos realizados já não sabia se ia gostar muito disso...

* a tradução para wingfield é campo de asas ou terreno de asas.

3 comentários:

Anônimo disse...

Ae Tanthalas ta bem loka a historia, continua com o bom trabalho e ve se nao embaça pra publicar fidido xD

se cuida miguxu

Abracos

Fernando "Shisui" Gonsalves disse...

A história tá interessante o.o Uma leitura fácil e divertida ^^

Continue! o/

Anônimo disse...

Gostei da história, muito legal.

=]

Lembre-se que traduções como Wingfield entram na mesma categoria de Treebeard ou coisa parecida como Owlbear.

Tente criar uma composição de palavras em português como Gramasa, ou Asacampo. Eu adaptava Owlbear para Ursoruja quando usava esse monstro na minha campanha de D&D. ^^v