Capítulo 4
O cartão
O calhambeque do tio Jorge devia ser o elo perdido entre as carroças, os automóveis e os veículos movidos a magia. Os cidadãos de Britoriah pareciam não entender como "aquilo" podia não só manter-se inteiro como também andar!
Dawis olhou de esguelha para seu tio. Não se lembrava de sentir tanta vergonha em sua curta vida. O “carro” era um velho Dragonlord com várias décadas de idade, que pertencerá ao bisavô de Jorge. O sistema do carro era muito simples: era preciso uma quantidade mínima de gasolina para ativar as hélices instaladas na parte de trás do velho Dragonlord, que depois de ligadas iriam se manter girando com a força dos ventos, que por sua vez era capturada pelo cata-vento mágico postado logo atrás do banco traseiro.
O problema era que a lata velha em questão tinha um furo no tanque-de-vento, o que impedia que a energia fosse armazenada por muito tempo, além de fazer um irritante som, idêntico ao apito de uma panela de pressão. Sem poder armazenar a energia, o carro andava mais ou menos na velocidade do vento que estava sendo capturado naquele momento. Que não devia passar de
- Aposenta essa droga! – berrou um furioso motorista de uma motocicleta planadora.
Tio Jorge não respondeu. Na verdade dava certa pena olhar para ele. Dentro do seu território ele parecia um javali grande e irritado que tinha orgulho do que era e não admitia qualquer coisa fora dos eixos. Mas ali, dirigindo um carro do século passado, criando um congestionamento monumental, numa grande cidade como Britoriah... bom, ele estava mais para um leitãozinho assustado.
Mas Jorge Varley tinha que estar ali. Porque precisava levar Dawis Hinks até o Wingfield, e Wingfield ficava em Britoriah.
Dawis suspirou e tentou pensar em outras coisas. Pensou no sonho que tivera na ultima noite. Ainda estava um pouco espantado, pois na noite anterior ele estava muito nervoso. Mas depois daquele sonho ele ficou muito mais calmo. Os Sonhos sempre o surpreendiam.
Ele deixou seu olhar passear pelo cenário a sua volta. Verdade seja dita, andando naquela velocidade ele tinha bastante tempo para isso.
A cidade de Britoriah era muito grande. Dawis certa vez ouviu sua tia Perpétua comentar que não era uma cidade tão grande se comparada a outras maiores, como a capital Ninrode.
Mas o garoto não podia imaginar algo maior do que aquilo. Britoriah tinha ruas largas, de casas grandes e compridas. Na verdade não eram compridas, eram apenas várias casas coladas umas nas outras, sem separações. A maioria tinha mais de três andares, e muitas tinham torres onde grandes cata-ventos, antenas e gárgulas despontavam.
As pessoas eram alegres e sorriam fácil (exceto aqueles motoristas atrás do Dragonlord) o que fazia com que Dawis não pudesse conter um sorriso de simpatia. Suas narinas eram assaltadas pelos mais variados cheiros. Lojas vendiam tudo o que uma pessoa pudesse querer, desde comida até aparelhos eletrônicos ou mágicos.
Ele também viu alguns animais estranhos, como um pássaro de asas de dragão e cauda peluda. Um cão do tamanho de um homem adulto tinha aspecto ameaçador, não só pelo tamanho, mas também pelas garras afiadas que definitivamente não pareciam patas.
Dawis quase perdeu a respiração quando um bando de animais que lembravam coelhos multicoloridos começou a cantarolar com vozes doces como flautas!
Quando passaram por uma torre incrustada numa casa (incrustada parece uma palavra muito forte, mas define bem a torre, porque ela dava a estranha impressão de ter caído do céu bem em cima daquela casa...) um gato espiou de uma janela no segundo andar. Dawis olhou para ele e sorriu pensado que adoraria ter um gato.
Então o gato saltou com graciosidade, exatamente no colo do menino.
- Hum? – resmungou o tio Jorge – De onde surgiu esse saco de pulgas?
Dawis não respondeu, e o gato tampouco. O felino era completamente branco, exceto por algumas listras alaranjadas que lhe desciam da testa até a ponta do rabo. O garoto reparou que, por mais louco que isso parecesse ser, o gato estava levando uma espécie de mochila presa a suas costas.
O gatuno analisou a face do jovem Hinks, se detendo ligeiramente nos olhos do menino, e passou a inspecionar as roupas dele. Então pareceu tomar uma decisão e, com o focinho, começou a remexer em sua mochila.
De lá puxou um cartão e o estendeu para Dawis.
Dawis ficou olhando aquele cartão espantado demais para esboçar qualquer reação. O gato fez um som parecido com um ronronar que expressava extrema impaciência.
Com muita cautela, como se o gato pudesse resolver arrancar um dedo, Dawis aceitou o cartão.
- O que diabos é isso? Que merda de cartão é esse? – perguntou desconfiado.
O gato se limitou a fazer uma reverência para o garoto e saltou para a rua, desaparecendo entre as pessoas.
- Me dá isso aqui moleque! – esbravejou seu tio ao volante do calhambeque. Essa era a maneira de Jorge Varley encarar o que ele não compreende: esbravejando. – Dá isso agora rapazinho ou eu vou...
Jorge não terminou a frase. Naquele instante um empregado desajeitado tropeçou e derrubou várias gaiolas que se abriram liberando várias galinhas. As galinhas, que estavam temendo por suas vidas, viram a chance de fugir e fizeram o que melhor sabem fazer: voaram e cacarejaram como loucas.
Foi uma confusão só. Uma galinha voou tresloucadamente na direção do tio Jorge, que se assustou e perdeu a direção.
- Malditas galinhaaaaaas!!! – berrou ele tentando retomar o controle do dragonlord.
Dawis mal teve tempo de se agarrar a seu banco: o dragonlord invadiu uma loja de cristais, e parou com um grande estrondo. O tanque-de-vento, a muito estragado, não resistiu e estourou numa confusão de metal, cacos de vidro e penas de galinha. Assim terminava os dias do velho e guerreiro Dragonlord, que resistiu bravamente a três gerações dos Varleys.
Com dificuldade Dawis se levantou. Sentiu que tinha vários arranhões pelo corpo, a maioria feita por cacos de vidro e cristal. Seu tio parecia estar bem, mas dá para imaginar a fúria que ardia dentro dele. Quem não parecia muito bem era o dono da loja, que estava fazendo um esforço óbvio para não desmaiar diante da confusão de cristais quebrados e galinhas que se tornou sua loja.
O garoto percebeu que estava segurando com muita força algo na mão. Olhou e viu que se tratava do cartão. O menino conhecia apenas um pouco as letras, mas com algum esforço ele leu :
“Agência Olhos de gato. Olhamos por você”.
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