terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Capítulo 12

Capítulo 12

Mago

O homem calvo era muito magro, mas obviamente uma pessoa muito importante, já que se vestia de terno e gravata e trazia na mão uma valise preta de aspecto muito profissional. Era seguido por dois empregados, um motorista e um mordomo com jeito profissional.

O motorista esperava impaciente dentro do carro, uma belíssima limusine movida a fogo encantado. Um pequeno, mas poderoso, diabrete de fogo estava acorrentado como um gárgula flamejante de quinze centímetros, rosnando com seus dentinhos pontiagudos para todos os que olhassem, que no caso era apenas Dawis, já que os outros nem lhe davam atenção. O menino já ouvira falar de carros movidos pela força de criaturas elementais, mas nunca tinha visto um.

O homem de (poucos) cabelos brancos estava muito impaciente. Gesticulava com frieza e olhar superior par Vladimir, que fingia olhar atenciosamente uma lista.

- Seu nome não está aqui, meu caro senhor. Creio que não posso deixá-lo entrar... – Disse Vladimir com falsa pompa. Um guarda atrás dele revirou os olhos.

- E nem precisa estar! – vociferou o recém-chegado – Eu leciono aqui há mais de quinze anos! Ensinei você a usar o pouco de magia que aprendeu senhor Vlad-raio-de-sol. – disse jocosamente.

O homenzarrão loiro se enrijeceu a menção de seu odiado apelido de infância. Seus colegas abafaram risinhos, e Dawis também. Allen, o guarda que levou o menino na garupa de uma salamandra no seu primeiro dia, havia contado a Dawis que apesar do tamanho e da cara feroz, o grande Vladimir já foi uma criança franzina que todos chamavam de raio-de-sol, por causa da cabeleira loira brilhante. Apelido que não pegava muito bem para um homem que hoje tinha um metro e oitenta, forte e agressivo, com cabelos compridos e barba espessa e um olhar do tipo posso-esmagar-você-com-uma-das-minhas-mãos-mas-vou-esmagar- com-as-duas-pra-doer-mais. Apesar disso o menino gostava dele, porque tinha um sorriso contagiante e simpatizava muito com crianças.

- E o senhor não mudou nada nesses anos... – resmungou Allen incomodado – Tudo bem, pode passar. – suspirou – Mas vai precisar mandar esse calhambeque de volta, pois sem autorização ele não entra. Sem chances.

A cabeça calva do professor começou a ficar avermelhada.

- Certo, mas isso não vai ficar assim! – disse ele se empertigando – A diretora vai ser informada desse... ultraje!

O professor gesticulou (ele parecia adorar fazer isso) para o seu motorista que, mal humorado, começou a descarregar as bagagens. Havia bagagens de todos os tamanhos e cores, algumas adornadas com estrelas, outras muito surradas e uma definitivamente estava lutando como um animal enjaulado.

- Cuidado com essa! – sibilou o professor – Me custou uma fortuna! – ele se virou para Allen – Preciso de alguém que leve essas bagagens até meu quarto habitual, na torre de magia. E quem é esse moleque maltrapilho? – perguntou apontando para Dawis.

- Sua bagagem – começou Allen com todo o respeito que lhe era característico – vai precisar ir sozinha, porque nenhum dos guardas aqui presentes tem permissão para deixar o portão. E o moleque – continuou, sem se incomodar com a expressão de fúria do homem – é o novo ajudante de Gabriel. Seu nome é Dawis Hinks. E aquela bola de pelo é Bastos, se lhe interessar saber.

O homem calvo resmungou algo inaudível, mas com certeza nada agradável, e se abaixou para analisar Dawis.

- Então você é o jovem que Amaranth quer que eu ensine os fundamentos da magia... – disse pensativamente – Você tem um dom garoto, um dom muito estranho... Está no fundo de seus olhos, posso ver.

Os guardas se apinharam para ver os olhos do jovem Hinks, mas não viram nada se não um par de olhos azuis arregalados e bem comuns.

- Qual o seu dom garoto? Não sabe? Bom com o tempo vamos descobrir. Segure aqui para mim por gentileza. – disse estendendo a valise preta – Juan largue essas malas no chão, você nunca ia conseguir levar tudo! – berrou exasperado para seu criado – Afaste-se! – gesticulou ele impaciente.

O professor de magia fez um floreio com a mão esquerda e uma corda de bom tamanho saiu de uma das malas e com outro gesto ela amarrou todas as malas juntas. Então ele foi até as bagagens e desenhou com um giz preto, tirado convenientemente de dentro de seu casaco, uma runa em cada mala.

- Pronto, pode levar.

Dawis assistiu boquiaberto o mordomo suspender todas as malas com uma única mão e sair andando em direção a Wingfield.

- Quanto a você – chamou o mago – me acompanhe até a cabana do senhor Amaranth, sim?

- Mas senhor eu ainda preciso... – tentou dizer Dawis, que ainda não tinha alimentado as salamandras, nem os cavalos.

- Isso é uma ordem mocinho. – cortou rispidamente o professor.

O menino soltou um muxoxo e se pos a caminhar. Gabriel não ia gostar de saber que o serviço não foi feito.

Os dois andaram lado a lado, o professor andando galantemente em seu terno e o garoto encurvado pelo peso da valise. Bastos vinha atrás, alheio a tudo, hora caçando uma borboleta, hora cheirando uma moita e assim por diante.

Quando chegaram à casa do domador, este estava mesmo saindo com um grande machado nas costas, vestido com uma caça curta e suspensórios cinza, sem camisa.

O professor resmungou algo sobre certas pessoas não saberem se vestir, e Dawis teve que concordar que mostrar o peito nu e musculoso, junto com aquela calça velha fazia o gigante ruivo parecer um lenhador. O que agradava muito mais ao garoto do que o professor engomadinho...

- Gabriel Amaranth. – disse simplesmente o professor.

- Como vai, Tarcísio Sommerfeld? – cumprimentou Gabriel.

- Bem. – respondeu – Já me encontrei com o garoto, seu ajudante – continuou ele, como se Dawis não estivesse do seu lado – e ele tem um dom. Já descobriu qual é?

- Não. O menino não fala muito. – explicou o gigante, dando uma olhada que o menino julgou ser afetuosa – Mas ele é sem dúvida muito inteligente, e tem sangue de guerreiro, apesar de ser um bastardo imprudente.

Dawis corou, sem saber se aquilo era um elogio ou uma reprimenda.

- Sei... E você quer que ele aprenda magia.

- Isso. Ele não pode me ajudar se não souber magia. – explicou

- Compreendo. Vou dar aulas a ele então. Desde que ele não se mostre um péssimo aluno, e siga todas as minhas orientações.

- Ah, ele irá. – olhou severo Gabriel para Dawis – E a que horas eu devo mandar ele para você?

- À noite, três vezes por semana. Ele pode jantar comigo nesses dias.

Um frio na barriga se instalou na barriga do menino. Isso significava que por três dias, todas as semanas, não haveria histórias fascinantes sobre monstros após o jantar.

- Ótimo. Quando ele começa?

- Hoje mesmo. Espero você na minha torre, menino. – disse se dirigindo a Dawis.

Dawis ficou vendo a figura magra se afastar, e rezou para que as aulas fossem divertidas. Duvidava.

- Você vai se sair bem. – Gabriel afagou a cabeça do menino – Ele é um pouco ranzinza, mas é o melhor professor de magia daqui. – Gabriel ofereceu um largo sorriso.

Vendo o sorriso, Dawis sentiu que podia perguntar – O que vocês disseram sobre eu ter um dom? Como sabem se tenho um?

- Ah isso é por causa dos seus olhos. – explicou o gigante, examinando o machado – Dá pra ver nos olhos de uma pessoa. É uma manchinha de uma cor diferente que fica em volta do preto do olho. Dizem que o olho da gente fica marcado por tudo aquilo que a gente viu, e você têm um olho de quem já viu muita coisa. – concluiu – Agora vá, você deve ter serviço para terminar.

- Tá! – disse Dawis, lembrando das salamandras. Correu o máximo que podia, e Bastos, achando eu era alguma brincadeira, correu latindo atrás.

“Então hoje à noite vou aprender magia!” pensou o menino, e ficou arrepiado.

2 comentários:

Suellen disse...

"posso-esmagar-você-com-uma-das-minhas-mãos-mas-vou-esmagar- com-as-duas-pra-doer-mais"
uhuheehuehuehehuehuehuehueue

Cláudia I, Vetter disse...

Hmmm... que espaço mágico e adorável! Épico, historiador; adoro isso!
Preciso só de mais tempo e disposição para ficar em dia com todo o desenrolar desta história que parece boa.

Uma ótima iniciativa criativa e literária; prossiga!

(Frodo..Bilbo Bolseiro...lembranças parecidas....hehehe)

Obrigada pela sua visita à meu blog; espero aprochegá-lo mais vezes com palavras agradáveis...sinta-se à vontade!

;***