Capítulo 13
Sonho acompanhado
A Torre de Magia era um dos lugares mais estranhos de Wingfield, porque tudo ali possuía uma ligação mágica. A começar pela própria torre. Ela flutuava a exatos dez centímetros do chão. Dizem que isso foi feito depois que um terremoto arruinou algumas experiências, levando os magos a pensarem numa maneira de evitar isso no futuro.
A escadaria da torre era decorada com linhas e mais linhas de runas. Dawis não sabia para que serviam, mas sentia-se estranhamente observado pelos degraus, como se eles encarassem ele e o desafiassem a pisar pesado. Seu tênis ficou preso entre duas pedras no quinto degrau. Podia jurar que na verdade o degrau tinha mordido o tênis... Bastos, que não pode ser obrigado a ficar na casa de Gabriel, estava latindo para um deles.
A porta saudou alegremente os visitantes.
- Bem vindo, Dawis Hawk! Que encontres na magia a satisfação da sua vida!
- Me chamo Dawis Hinks. – respondeu o menino
- Mas por quê? Hawk é mais bonito! Foi o nome de um grande mago!
- Mas não é o nome do meu pai. É isso que os filhos fazem, seguem o nome dos pais. – disse Dawis, abafando um risinho.
- É? Que coisa mais chata e sem imaginação... – suspirou a porta. Como uma porta sem rosto podia suspirar, era algo que Dawis não estava entendo – Entre, o grande professor de magia, Tarcísio Sommerfeld, o aguarda no salão principal da torre.
A porta se escancarou, mostrando um corredor no estilo medieval, com paredes de pedra, tapete vermelho e candelabros. As velas tinham cores diferentes, tornando o corredor multicolorido.
- Porque usam velas aqui? – perguntou intrigado o menino.
- Ah, magos adoram pompa. O salão principal é logo a esquerda desse corredor, jovem Hawk.
- É Hinks. – o menino se virou. Viu que havia a cabeça de um dragão esculpida na parte de dentro da porta. “Então é dali que vinha a voz” pensou fascinado.
- O que está olhando? – perguntou a cabeça.
- Você não devia estar do lado de fora?
- É, devia, mas os magos são bons em magia, não em construção...
O menino agradeceu a ajuda e pegou Bastos no colo. O cérbero deu um latido de protesto, mas Dawis não o soltou. Temia que ele pudesse quebrar algo importante, ou se deparar com alguma criatura assustadora ou ser sugado para dentro de algum portal mágico ou qualquer outra coisa assim. Na cabeça da criança, magia era uma coisa intrigante, mas muito perigosa.
Virou a esquerda como foi lhe explicado e chegou ao salão principal.. O salão era enorme, muito maior do que parecia ser a torre de fora, e ele teve que se lembrar que isso era normal. Era a magia.
O lugar era redondo, dando a impressão de que era o centro da torre. Seu teto estava a muitos metros do chão. Talvez quatro ou seis andares. Quatro escadarias subiam por suas paredes, parando em andares diferentes. Duas grandes lareiras, uma do lado oposto à outra, mantinha o ambiente quente. Não havia lenha. Não havia nem fogo. No lugar, havia pedras, todas gravadas com runas. As pedras brilhavam e soltavam calor. “Assim devem ser as pedras quando saem de um vulcão...” pensou o menino.
No meio do salão havia algumas mesas, sofás confortáveis, mesinhas de centro e estantes dos mais variados formatos.
Em um desses sofás estava o professor Tarcísio. Ele estava debruçado sobre uma bola de cristal, conversando com a imagem de um homem velho usando óculos de meia lua.
O menino pigarreou.
- Ah você chegou. – disse o professor percebendo o menino só agora – Venha, sente-se aqui. Pode trazer esse cachorro para cá, desde que ele esse comporte e não suba no sofá.
Quando Dawis sentou no sofá, o mago já se despedia do homem, e depois tampou com um lenço de seda a esfera de cristal. Fazia isso muito lentamente, como se sua mente estivesse em outro lugar.
- Bom – começou ele distraído – o que você sabe sobre magia, pequeno?
- Sei que têm algo a ver com runas, senhor.
- Sim, sim. Mas sabe por quê?
- Não senhor.
- Eu imaginei... – o professor se virou e lançou um olhar de curiosidade – Garoto, como eu disse essa manhã a você, vejo um dom nos seus olhos. E não se trata de um dom qualquer, é algo que nunca vi antes. Precisamos descobrir esse dom antes que você comece a usar magia. Isso porque alguns dons são incompatíveis com magia, ou podem ser melhorados com ela. Fale-me, você faz algo diferente?
Dawis pensou imediatamente nos sonhos. Achou que esse era um bom momento para falar sobre eles.
- Eu acho que... acho que eu sonho, professor.
- Todos nós sonhamos. – disse com certa impaciência o professor.
- Sim... mas as vezes... é como se fosse mais real.
- Real como?
- Às vezes eu... volto com marcas ou coisas do sonho. – Dawis olhou atentamente para o homem a sua frente, esperando algum sinal de que estava sendo considerado louco. Mas viu apenas curiosidade profissional nos olhos do professor.
- Hum, um viajante dos sonhos então. – ponderou o professor – Pode ser, mas não parece ser esse o seu dom. Entenda: pessoas assim têm pupila de gato. Os gatos conseguem enxergar vários mundos, e as pupilas deles são em forma de fenda para dividir os mundos como uma faca divide um pão. Não é seu caso.
Os dois ficaram se olhando, e o garoto não sabia mais o que dizer. Pensou que seria agora que o professor o chamaria de maluco.
- Vamos fazer alguns testes. – disse por fim o professor – Deite-se nesse sofá. Vou jogar em você uma magia de sono, e quando você adormecer vou entrar nos seus sonhos. Tenho sua permissão?
- S-sim. – Dawis gaguejou surpreso.
- Ótimo. – o mago tirou seu giz preto de dentro do terno e delicadamente desenho um símbolo na testa do menino. Imediatamente o menino se sentiu muito cansado, como se a runa pesasse em sua testa. O peso foi fazendo ele fechar os olhos, e logo ele adormeceu.
Ele acordou no salão, que estava igual exceto por estar escuro. As velas e as lareiras estavam apagadas. Bastos não estava ali, nem o professor.
Mal tinha pensado no professor e ele apareceu do seu lado. Simplesmente uma hora não estava ali e na outra estava. Isso era um Sonho, e por isso Dawis não se assustou.
- Interessante. – disse o professor – Sempre que você sonha sai direto do lugar em que você dormiu?
- Sim, mas só quando é um dos Sonhos.
- Entendo. – olhou em volta – Você pode controlar esse lugar?
- Não! – a idéia lhe parecia ridícula – Não da para controlar os Sonhos.
- A maior parte dos sonhos é facilmente controlável. – explicou o homem calvo.
- Mas devem ser sonhos normais. Nos Sonhos não dá para fazer coisas incríveis como voar, ser mais forte ou sei lá o quê. – o menino nunca tinha pensado sobre o assunto, nem tinha testado, mas agora que falava sobre sentia que essa era a verdade.
- Sei... – comentou o professor, observando ele atentamente – E agora? O que você faz?
- Bom geralmente há uma porta ou algo assim. Quando eu abro estou em outro lugar. Mas não vejo portas.
E era verdade. Nos lugares onde havia portas, agora havia apenas paredes nuas. Um arrepio cruzou a espinha de Dawis.
- Professor, acho melhor o senhor sair daqui. Os sonhos parecem não...
- Bobagem. – cortou o mago – Qualquer sonho é inofensivo, por mais terrível que pareça.
- Acha mesmo? – perguntou uma voz atrás deles. Era uma voz dolorosamente real.
Dawis e o professor se viraram para o dono da voz. Era um rapaz franzino, tão pálido quanto a neve. Tinha cabelos revoltos que pareciam feitos de escuridão, vestia roupas surradas e simplórias. Mas sentava como um monarca, cotovelos apoiados nos joelhos, mãos cruzadas sobre o rosto, escondendo parcialmente a boca. Tinha olhos profundos, negros como... como passagens que levavam para outros mundos. E além.
Dawis não tinha certeza, mas podia jurar que todo o ambiente a sua volta se inclinou ligeiramente em direção a ele.
- O que um homem que sonha em dominar a magia, sem se arriscar, sabe sobre sonhos? – a voz dele parecia mais velha que sua aparência.
- Eu, eu... – o professor não sabia ao certo o que responder. O estranho obviamente tinha acertado – Não lhe interessa! O fato é que ninguém morre nos sonhos.
- Sim. Ninguém morre em meus domínios.
- Seus domínios? – perguntou Dawis. Não tinha medo o estranho, sentia que podia conhecia ele há milênios, mas temia um pouco pelo professor.
- Dawis Hinks, você sempre será bem vindo em meu reino, mas apenas eu tenho o direito de convidar outros para aqui estar.
- Isso é uma bobagem sem tamanho – sibilou o mago – Não existe um reino dos sonhos. Sonhos são apenas produtos de nossa mente inconsciente. Você não passa de uma invenção da mente desse menino. Não tem poder verdadeiro.
O lugar todo tremeu em uma leve ondulação. Mas só Dawis notou.
Então, uma pancada se fez ouvir no chão, como se alguém quisesse quebrar as pedras. Depois outra. O menino e o homem olharam para o chão assustados. Mais uma. O estranho alvo olhava sem expressão para cima, como se aquilo não lhe interessasse.
Quando o piso finalmente cedeu, as coisas ficaram confusas. Tentáculos que na verdade não eram tentáculos, eram pesadelos terríveis e medonhos, saíram do buraco e agarraram a perna do professor que começou a berrar histérico. Houve um som nauseante de ossos se partindo quando a coisa-que-não-era-um-tentáculo esmagou a perna dele.
Uma massa de coisas abomináveis apareceu da cratera. Dawis queria gritar, mas não conseguia. Um olho se abriu no meio da coisa e o menino tinha certeza que ia enlouquecer. Sangue escorria de sua órbita. O olho em si não passava de uma coisa pútrida que parecia faminta.
Faminta.
O menino cobriu a cabeça com seus braços, tentando ignorar os gritos de dor e desespero absoluto. Os sons enjoativos de carne sendo mastigada, de ossos sendo triturados e o cheiro metálico no ar eram insuportáveis.
Então tudo terminou.
Dawis abriu o olho e não havia cratera. O professor estava de pé, mas não parecia estar ali. Seu rosto era uma mascara de puro horror, mas também não era. O menino via também uma expressão de desprezo irônico. As duas expressões se alternavam, como se a mente do mago não pudesse aceitar seja lá o que ela viu.
- Vá embora. – disse o monarca.
Então ele não estava mais ali. O professor simplesmente sumiu.
- O q-que aconteceu? – perguntou o menino.
- Ele não morreu. Ninguém morre aqui.
- Mas...
- Eu lhe dei uma lição. Ele não vai lembrar do que aconteceu aqui, mas esse pesadelo vai segui-lo por toda a vida, como uma cicatriz.
- E o que acontece comigo?
- Você acorda.
- Você que manda os Sonhos?
- Sim.
- Por quê?
- Porque eu posso.
Quando o menino acordou, viu o mago do seu lado, parecendo um tanto exasperado.
- Não há nada em seus sonhos garoto. Seu dom deve ser outro.
Dawis não respondeu. Olhou para Bastos, que o olhava de um jeito surpreendentemente adulto.
Como se ele soubesse.
2 comentários:
meu santo Deus!!!!!!
O; quee loooco *__*
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