sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Capítulo 14

Capítulo 14

Magia

Era uma noite chuvosa e fria quando Dawis estava jantando com Gabriel. Ele teve um dia cansativo, mas estava muito contente. As magias que Tarcísio vinha lhe ensinando há duas semanas eram fascinantes, e apesar da dificuldade inicial, o garoto estava indo muito bem.

Dawis nunca mais mencionou os Sonhos, com medo que o estranho rei quisesse retaliar seus conhecidos de alguma forma. O próprio professor de magia, apesar de não lembrar, fica pálido toda vez que a palavra “sonho” é dita em sua frente até hoje.

Mas o menino tinha vontade de falar. Pois os Sonhos estavam cada vez mais “úteis”.

Nos primeiros dias de aula, o professor Sommerfeld lhe passou os fundamentos da magia. Segundo ele, a magia é uma força tão real e comum quanto o vento e o sol, só que um pouco mais misteriosa. A magia não pode ser tocada, mas pode nos tocar. Não pode ser vista, mas pode nos ver. Ela pode apenas ser sentida, e apenas por umas poucas pessoas.

“Para atrair a magia e poder moldá-la, usamos as runas.” tinha dito o mago. “As runas são a chave para a magia ‘escoar’ para a nossa realidade e se tornar tangível. No entanto, se você não tiver forças o bastante para subjugá-la, ela pode se voltar contra você.” advertiu.

Os estudos iam devagar, pois Dawis não conseguia compreender a relação entre runas, nem era bom em traçá-las. Também sentia dificuldade em usar a própria energia para usar magia. “Dentro da sua mente há uma região com uma energia. Se concentre e busque-a.”

O exercício era teoricamente simples. Dawis precisava atear fogo a um alvo qualquer usando a runa condizente.

Por mais que ele tenta-se, não conseguia. Dawis sempre teve uma mente muito aberta para o mundo, mas sentia que havia um pequeno truque, um detalhe qualquer, que lhe escapava.

Seus problemas começaram a ser resolvidos com Fafnir, o dragão.

Todas as noite ele tinha o mesmo Sonho. O menino levantava de sua cama e abria a porta. Ele se via dentro de um castelo muito frio, dominado pela neve e pelo gelo. Havia sempre uma roupa quentinha perto dele. Então ele andava pelos salões abandonados, pulava os esqueletos dos tolos que chegaram ali sem serem convidados, e entrava na grande câmara do tesouro de Fafnir. A câmara era parte uma caverna natural, parte um pátio do castelo. O castelo estava soterrado no pico de uma montanha. À esquerda, havia uma grande passagem que dava para um penhasco, por onde Fafnir saia para os céus.

Fafnir era um dragão azul muito grande (não tanto quanto a estátua de Wingfield) que dormia sobre um ninho de tesouros preciosos. Os tesouros eram por vezes pequenos demais, como pequenas pérolas preciosas ou adagas cravejadas de rubis. Havia também uma grande quantidade de telas e quadros preciosos, que eram grandes para o jovem Hinks, mas minúsculos para o grande dragão.

Como as patas da criatura terminavam em garras afiadíssimas, o dragão não conseguia manusear muitas de suas posses. Por isso ele precisava de um ajudante humano.

Seu antigo ajudante morrerá numa avalanche e foi preciso contratar outro.

Esse outro era Dawis Hinks.

Dawis não podia levar para casa nenhum dos tesouros como pagamento, pois iriam estranhar se acordasse com moedas de ouro na mão, por exemplo. Assim, ele fizera um acordo com a grande fera: ele iria catalogar, limpar e arrumar as muitas e diminutas posses de Fafnir, e em troca ele iria lhe ensinar magia.

Fafnir era um bom professor, apesar de muito arrogante. Por vezes precisava parar a aula, pois não conseguia parar de rir de alguma bobagem que Dawis havia feito, como tentar inutilmente fazer uma magia decente.

Assim, todas as noites, Dawis trabalhava e aprendia magia. Logo já conseguia fazer algumas magias simples, mas ainda assim não conseguia achar um modo de controlar bem elas. As magias saiam fracas demais.

Foi o dragão quem lhe mostrou o caminho.

Criança, tens a certeza de que queres ser mago?” a voz dele retumbou na câmara “Pareces ser agir mais a moda dos dragões, não como um mago. Não o vejo estudando horas para aprender uma única mágica...” um ronco áspero e entrecortado indicou que ele estava gargalhando.

O menino pensou cuidadosamente sobre o que ele disse. Ele também não se via estudando muito. Era um garoto que gostava de pular, escalar, correr e principalmente explorar o máximo de lugares diferentes. A idéia de ficar enfurnado numa sala lhe causava calafrios. Ele precisa de liberdade.

Como um dragão.

Senhor Fafnir, como um dragão usa magia?” pergunto o garoto.

A criatura baixou sua enorme cabeça até ficar com os olhos no mesmo nível do menino e o encarou por alguns instantes.

Não usamos. Nós somos.” o menino não entendeu, e o dragão rugiu uma ordem “Suba, vou te mostrar.”.

Dawis escalou até as costas do dragão e se segurou firmemente nos espinhos dorsais da fera. Então Fafnir grunhiu e, correndo, pulou do penhasco. Por um momento caiu no vazio, até que abriu suas poderosas aves e alçou vôo.

O rugido de pura adrenalina do dragão era o rugido que o menino sentia em seu peito. Quando a criatura deu uma rasante, Dawis viu seu reflexo em um rio. Viu seus cabelos chicoteando no ar Viu também o dragão de olhos fechados sentindo a brisa e fez o mesmo.

A alegria selvagem do que estava fazendo fez o rugido do dragão se confundir com o dele. “Não usamos. Nós somos.”

Naquela manhã, Dawis acordou e correu para fora de casa sentindo ainda alguns fiapos daquela alegria feroz. Escolheu como alvo uma macieira mirrada. Então, ao invés de desenhar a runa mágica no ar (o que sempre gerava apenas uma centelha ridícula) o menino empunhou seu bastão de treino. E rugiu.

Ele sentiu sua mente se abrir. Era como se houvesse antes uma rachadura pequena numa parede mental, de onde a energia fluísse gotejando. Agora ele sentia essa parede ruir, e a energia jorrar desenfreada.

A visão de Dawis ficou turva enquanto gritava. Seus olhos não viam mais as cores como antes, agora via tudo sob um aspecto avermelhado.

Nós somos

O bastão foi atirado como uma lança e irrompeu em chamas. A lança flamejante atingiu a macieira e uma grande explosão se seguiu, atirando o menino no chão e chamuscando as árvores próximas. A macieira foi consumida pelo fogo em segundos. Mas ao invés de se espalhar, o fogo se extinguiu assim que o garoto temeu um incêndio.

- Nós somos... – sussurrou Dawis Hinks.

Um comentário:

Suellen disse...

quem me dera ter sonhos assim, tão reais ;D
oh my God! eu teria sido assaltada essa noite ;D