Capítulo 16
A conversa
Dawis Hinks sentiu-se sujo, desarrumado e inapropriado. Bastos, que vinha logo atrás, pela primeira vez estava se abstendo de fuçar por ali. O cérbero sentia a inquietação e seu amigo, e a compreendia perfeitamente.
A sala da diretora Helen não era arrumada. Dizer que era arrumada seria o mesmo que dizer que o mar é uma poça de água. A sala parecia não conhecer o que era uma poeirinha, e tudo se encaixava, incluindo a mulher de cabelos curtos e grisalhos (mas não demais), sorriso amável (mas não demais), vestindo um terno rosa pálido bem feminino (mas não demais...).
Uma chaleira de porcelana, alinhada com duas belas xícaras de chá, fumegava em cima de uma linda bandeja de prata. O conjunto estava elegantemente postado à direita da mesa, que continha dois porta-retratos, uma lamparina, duas canetas e alguns papéis empilhados em duas colunas. Duas cadeiras estofadas convidam a sentar de frente a diretora. Quadros de paisagens e pessoas apareciam nas paredes. Todos do mesmo tamanho, e com a mesma moldura. O conjunto lembrava a Dawis o escritório que ele vira numa vitrine, na cidade de Britoriah. Bonito e artificial. Até mesmo algumas revistas jogadas “de qualquer maneira” em uma gamela no canto da sala pareciam ter sido minuciosamente arrumadas numa tentativa de humanizar o ambiente.
Tudo combinava. As cores, os tons, a luz e os objetos.
Tudo menos Dawis e Bastos, é claro.
- Então você é Dawis Hinks! – disse a diretora. Um sorriso pairava no canto esquerdo da sua boca, e as sobrancelhas se arquearam em um movimento involuntário. Transparecia a arrogância daqueles que tem tudo como querem. Mas não demais. – Sente-se, meu jovem, fique a vontade. – sua voz era muito amável (mas não demais).
- Licença... – murmurou sem jeito o menino se sentando rígido na cadeira. Bastos deitou a cabeça no colo dele.
- Sabe por que mandei chama-lo? – perguntou a diretora. Olhando de perto, Dawis viu ruguinhas nos cantos dos olhos, e chutou que ela devia ter uns quarenta anos.
- Não senhora. – respondeu o menino. Ele estava curioso, mas forçou-se a não parecer muito bobo.
- Bom, você é nosso novo funcionário, por assim dizer. Além de aluno é claro. Tenho a certeza de que Amaranth já lhe disse muitas coisas sobre Wingfield, mas creio ser necessário eu mesma conversar um pouco com você. – ela de um sorriso afável, mas seus olhos não sorriam. Eles analisavam o menino a sua frente e Dawis julgou ver um brilho de interesse ali. A diretora segurou a mão do garoto e o fitou.
- Gostaria de avisá-lo, em primeiro lugar, que como aluno e funcionário, é seu dever mostrar educação e um desempenho exemplar. O que pensarão os demais alunos se você não souber se portar, ou tirar notas baixas? Mas tenho certeza que você não vai nos decepcionar. – Deu palmadinhas amigáveis na mão de Dawis. Sua voz dizia que não se preocupava muito com isso, mas novamente seus olhos a contradiziam, mostrando descrença.
- V-vou dar o melhor de minha, senhora.
- Oh, claro que vai. – ela largou sua mão - Em segundo lugar, você precisa saber que Wingfield é famosa por formar grandes guerreiros, magos, cientistas e cidadãos. – ela disse essa ultima palavra como quem sugere que esse é o mais importante – Mas nem sempre podemos mudar uma pessoa. Muitos vêem com uma péssima educação de casa, outros chegam com intenções sinistras, como sabotagem ou espionagem... – ela abanou a cabeça, levemente aborrecida – Por isso, se você perceber algo fora do normal, precisa me avisar! Fará isso, meu pequeno? – ela o olhou intensamente. Uma recusa estava fora de cogitação.
- Sim senhora.
- Ótimo! – ela parecia satisfeita – Agora passemos ao terceiro item. Magia.
- Perdão? – Dawis piscou sem entender.
- Sim, magia. O professor Sommerfeld me contou que você consegue usar magia sem usar runas, algo muito peculiar nos dias de hoje. – ela se recostou na sua cadeira e cruzou as mãos, apoiando os cotovelos na mesa. Parecia desinteressada pelo assunto, mas seus olhos verdes definitivamente faiscavam.
- Bom... eu... – Bastos olhou para o menino, e Dawis viu ali um conselho para não dizer nada. Calou-se.
- Devo dizer que essa peculiaridade é muito interessante para seu currículo. – disse a Diretora, ignorando o silêncio – Mas potencialmente assustadora para os alunos. Não quero que você mostre aos outros esse detalhe. Aprenda a fazer magia usando runas, e as faça. Quando for a hora, seu talento pode ser muito bem utilizado por Wingfield, mas enquanto o momento não chega... vamos manter isso em segredo, está bem?
O jovem Hinks sentiu nojo daquela mulher. Ele sabia o porquê dessa atitude. Ela queria USAR ele. Achava que Dawis poderia ser algo interessante no futuro e não queria compartilhar isso com os outros. Acima de tudo, queria o menino sobre seu controle. E Dawis Hinks não via escapatória.
- Sim senhora. – murmurou ele.
Foi com um gosto amargo na boca que Dawis saiu da torre central. Sentia como se tivesse perdido parte de sua liberdade, o que não era muito longe da verdade.
Mas era uma criança, e preocupações pertencem aos adultos. Dali a quinze minutos já havia esquecido da conversa e brincava de pegador com Bastos.
A ultima semana de férias passou voando. Muitas crianças chegavam e adolescentes também. Andavam em grupinhos, conversando e rindo. Olhavam para Dawis e para o cérbero, mas o que viam era um menino sujo e magro, com um cachorro grande ao seu lado. Cochichavam entre si e iam embora. Isso deixava o sangue do garoto fervendo, pois não gostava que falassem por suas costas.
Na sexta-feira, três dias antes do início das aulas, Gabriel avisou a Dawis que haveria uma festividade para comemorar o começo de mais um ano. Antes do banquete, os alunos saberiam suas salas de aula, matérias e professores. Seria ali também que poderiam escolher uma especialização, para focar melhor os estudos. Gabriel deu a Dawis uma lista das possíveis especializações, e avisou que não era necessário se decidir já. Alguns alunos se decidiam apenas depois de alguns anos. Era uma decisão importante que não devia ser tomada de qualquer jeito.
Dawis sentiu um arrepio quando pegou a listagem. Não sabia ele que graças a essa folha seu destino começaria a desandar.
2 comentários:
hummm, quais serão as matérias?
*curiosidade* x)
estou curiosa para saber o retante da história!
estou adorando tudo até agora, muito bom mesmo!
xD
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