Capitulo 6
O gigante de Wingfield
A boca de Dawis estava tal qual a de seu tio, e ambas pareciam muito com aqueles balanços de parquinhos antigos, que balançavam ao sabor do vento. O garoto só percebeu que estava boquiaberto quando começou a babar. Reprimiu uma vontade louca de dizer “CÉUS!” ou algo equivalente. Não falava há muito tempo e não pretendia quebrar o mutismo assim fácil. Embora na verdade não fosse nada fácil.
O Dragão era impressionante. Sim, “o Dragão”, com letra maiúscula e tudo, pois quem seria louco de rotular ele como um simples “dragão” vendo seu tamanho colossal?
Na verdade não se tratava de um dragão real. O Dragão era uma gigantesca estátua de mármore (Dawis achou que fosse mármore, mas era só um palpite) que, num rugido surdo, feroz e magnífico, saudava todos aqueles que quisessem entrar nesta cidadela chamada Wingfield.
Vale a pena fazer aqui uma descrição minuciosa.
O castelo Wingfield era uma grande fortaleza circular, praticamente uma cidadela, envolta por uma cúpula de vidro (mais tarde saberemos que se trata de um cristal de propriedades mágicas). A cúpula tinha como função não só defender Wingfield do clima da região, como também proteger de qualquer ataque aéreo que a fortaleza possa vir a sofrer. Ela era sustentada por um colossal castelo, terminado em uma torre cor de marfim, e por outras cinco torres menores ao largo de sua circunferência.
Em cima da redoma de cristal estava o Dragão. Era tão grande que se estendia por cima de toda a cidadela, como uma fera que protege seu ninho, com asas fechadas, pescoço contraído e as garras segurando as bordas de todo o conjunto. Tinha uma fileira de espinhos duplos que desciam desde sua cabeça até a ponta de seu rabo.
Um arrepio percorreu a espinha de Dawis. Ele sabia, tinha a absoluta certeza, que se aquele dragão fosse de verdade ele abriria suas asas emplumadas e poderia alçar vôo, levando facilmente TODA a Wingfield consigo.
Dentro da cúpula, além das cindo torres e do castelo, Dawis podia ver que havia praças, campos de treinamento, um lago do lado leste e um pequeno bosque cercado por muros na ala oeste.
Só acordou de sua admiração com as primeiras gotas da chuva, que foram seguidas pelo ribombar de um trovão. Por um instante o garoto tremeu com a idéia que o trovão fosse o rugido do Dragão.
Ao seu lado, tio Jorge também saiu de sua contemplação. Ele olhou novamente para o portão. Não havia qualquer sentinela. Jorge foi até ele e procurou qualquer coisa de estranho e, não encontrando, tomou coragem e bateu com um punho cerrado. O som de suas batidas foi abafado por mais um trovão, esse mais próximo. As gotas caiam em maior número agora.
BAM, BAM e BAM!
Dawis prendeu a respiração esperando algum som
- Quem são e o que querem em Wingfield, estranhos? – perguntou o par de olhos.
- Sou Jorge Varley, meu senhor, e vim de longe para trazer meu sobrinho Dawis Hinks. – falou Jorge, com um quê de amedrontado.
Os olhos se desviaram para o menino com certa curiosidade, que se sentiu analisado, pesado e medido.
- E-eu mandei uma carta e m-me responderam que eu podia trazê-lo, e... – gaguejou seu tio.
- Sim. – cortou o guarda – Vocês eram esperados. Aguardem um instante.
A janelinha se fechou e o enorme portão emitiu um estalo de metal. Então lentamente e sem ruído algum (fato que decepcionou ligeiramente Dawis, que esperava um rangido sinistro ou algo assim) se abriu, revelando um longo caminho sinuoso entre as árvores, e que levava diretamente ao castelo. O menino deu uma boa olhada no guarda. Ele usava um elmo de aço aberto só no rosto. Sua armadura metálica trazia o brasão da asa entalhada no peito e nas costas um escudo. Na mão uma lança de aspecto bem pesado.
- Dawis Hinks, filho de Richard Hinks e Rose Varley Hinks? – chamou a sentinela.
O garoto deu um passo à frente. Mas pareceu que não era isso que o guarda queria, pois lhe lançou um olhar um pouco irritado, como quem pergunta: “você é surdo por um acaso?”.
- Ele é mudo senhor. – interveio tio Jorge – Está assim desde que ficou órfão...
- Que seja. – resmungou a sentinela – A partir daqui ele pode entrar desde que se sujeite as nossas regras e não traga em seu coração a traição. Concorda pequeno?
Dawis fez que sim com sua cabeça.
- Então você pode entrar. O senhor terá que voltar, pois sua presença não é permitida aqui. – disse a Jorge.
- Se cuide pequeno... – disse Tio Jorge. Por instante pareceu que ia dizer mais alguma coisa, mas abanou a cabeça e foi embora. O portão se fechou logo em seguida, e com ele o mundo que Dawis conhecia foi deixado para trás.
Quando se virou de costas para o portão, Dawis deu uma boa olhada
A sua esquerda um pequeno estábulo onde dois cavalos e outros dois animais, de uma espécie que o garoto nunca tinha encontrado, o fitavam pelas janelas. Lembravam grandes iguanas com celas e arreios. Mas eram vermelhas.
- Salamandras-d’areia. – disse o guarda, vendo que seu olhar se deteve nas iguanas. – Não é uma salamandra de verdade. Essas vivem só nos vulcões e lugares assim. Apesar de não serem tão poderosas quanto as originais, dão ótimas montarias.
Uma das falsas salamandras olhou interessada e estendeu o pescoço para Dawis. Antes que o garoto pudesse evitar, ela deu uma rápida e pegajosa lambida.
- Essa ai gostou de você! – riu o guarda da cara de nojo que Dawis Hinks fez – Neste caso, vamos usar ela para ir até o castelo.
O guarda abriu a porteira do estábulo e com um carinho puxou a Salamabdra-d’areia para fora. Dawis viu que havia uma cela de dois lugares. O rabo fino de iguana chicoteou no ar, e o menino podia jurar que era de alegria.
Mãos fortes o levantaram no ar. Um dos outros guardas veio ajudar ele a subir.
- Pronto garotão. – disse fazendo-o sentar no bicho. Ele tinha um cabelo loiro e comprido, que combinando com sua barba espessa lhe dava um ar feroz. Mas o sorriso que ele dirigiu a ele não era nada hostil.
Dawis não pode deixar de sorrir de volta.
O primeiro guarda subiu na frente de dawis e com um estalo de língua a salamandra se pôs a correr.
Imagine-se como uma criança de sete anos montada na garupa de um iguana de três metros de comprimento por dois de altura, correndo por um caminho sinuoso a uma velocidade fantástica, com a chuva caindo em seu rosto e uma feroz sensação de liberdade rugindo em seu peito. Então talvez você sinta o mesmo que Dawis Hinks.
Em minutos eles estavam à frente de outro portão, esse muitas vezes maior que o primeiro. Devia ter a altura de cinco ou seis homens adultos. Era o portão central para a cidadela de Wingfield.
Para a decepção do garoto, não foi ali que entraram. Ao invés disso, o guarda puxou as rédeas para a esquerda e eles seguiram por um caminho rente a cúpula. Continuaram por ele até chegarem a uma casa relativamente grande, feita com madeira de lei e pedras, anexa à cúpula. Dawis calculou que naquela área ficava o bosque murado que ele tinha visto na ala oeste.
O guarda apeou e desceu num salto. De suas vestes tirou duas maçãs e as jogou para o menino, que com dificuldade as pegou.
- Uma é para você, a outra é para ela. – apontou ele para a salamandra – Dê a ela enquanto eu chamo o dono da casa.
Com um tanto de receio, Dawis desceu da salamandra e acariciou o focinho dela. Ela fechou os olhos sentindo óbvio prazer. Vendo isso, ele ficou mais confiante e estendeu a maçã, que foi prontamente abocanhada em um movimento veloz. O menino contou seus dedos duas vezes, querendo ter certeza de que não tinha perdido nenhum deles.
Enquanto isso, o guarda berrou para se fazer ouvir acima da chuva:
- Gabriel! Gabriel Amaranth! – gritou ele, e deu alguns socos na porta.
- Não precisa derrubar minha porta, seu cão! – gritou uma voz lá de dentro.
Alguns instantes depois a porta se abriu, e um relâmpago iluminou a face dura de Gabriel Amatanth. Ele tinha uns dois metros de altura, músculos de touro, uma farta cabeleira ruiva que lhe descia encaracolada pelas costas. Sua barba era bem aparada, com talvez dois dedos de comprimento, não mais.
- Esse é o garoto que vai ser meu ajudante? – perguntou com uma voz grave – Eu peço um rapaz forte e eles me mandam esse moleque raquítico. – grunhiu ele.
O guarda deu uma gostosa gargalhada.
- Mas ele parece ser esperto. – sorriu o guarda para Dawis – O que é o mais importante para trabalhar com você, é o que penso.
- Espero que seja mesmo... – o gigante abriu mais a porta revelando uma sala com tapetes de pele e uma lareira convidativa – Entra garoto, não quero você doente na sua primeira noite.
Com um pouco de relutância ele entrou na casa.
- Boa sorte garoto! – disse o guarda, já montando na Salamandra-d’areia – A gente se vê por ai Gabriel. – e foi embora.
Gabriel fechou a porta, e se virou para Dawis.
- Você está ensopado, e está fazendo uma poça de água no meu chão. Você não tem bagagem, não é?
Diante de um aceno negativo, Amaranth suspirou e disse:
- Venha.
Dawis o seguiu até uma cozinha de pedra, onde um caldeirão borbulhava, dele saindo um cheiro muito convidativo de sopa. O gigante abriu um armário e mexeu nele por um tempo, até que de lá tirou uma pequena trouxa.
- Pegue estas roupas. São um pouco grandes para você, eu acho. Pertenciam a um aluno que as esqueceu ai. Estão tão velhas que ele não vai se importar. Vá até aquele banheiro e se troque. Lá tem uma toalha, pode usar ela.
O menino se viu em um cômodo, com um chuveiro e uma grande banheira e tudo o mais que um banheiro tem. Havia um espelho oval, e Dawis resolveu dar uma boa olhada, pois não tinham espelhos na fazenda Varley.
Ele viu um menino franzino, de cabelos molhados e loiros, ligeiramente ondulados, que chegavam desordenadamente até seus ombros. Era relativamente alto para sua idade, mas como tia Perpétua sempre fazia questão de dizer “crianças altas quando novas são as que ficam mais baixas”.
Era muito moreno pela vida no campo. E quanto a ser franzino, ele tinha a ligeira desconfiança de que isso era culpa da fome, pois ele achava-se até bem fortinho... Para ser bem honesto, aquela era a face de um menino faminto, com grandes olheiras embaixo de olhos azuis num rosto magro.
Resolveu parar de pensar e se vestir rapidamente. Gabriel não parecia o tipo de homem que gosta de atrasos.
Quando saiu do banheiro, estava vestindo as roupas que não ficaram grandes, apenas um pouco folgadas demais. Mas estavam secas, isso que importava. Em cima da mesa da cozinha havia um prato de sopa fumegante, que foi rapidamente devorado pelo menino faminto.
Depois, encontrou Gabriel sentado em uma poltrona na sala e fumando seu cachimbo.
- Você vai encontrar um quarto seguindo o corredor. É a segunda porta a esquerda. Não se desvie do caminho! Vá direto para a cama. – asseverou com as grossas sobrancelhas o homenzarrão, dando uma baforada – Amanhã começa seu treinamento, filho, e você vai querer ter todas as suas forças em dia.
O menino não pode deixar de lançar um olhar inquisitivo.
- Quer saber que treinamento? – perguntou Amaranth – Não lhe falaram nada?
Dawis abanou negativamente a cabeça.
- Você vai ser meu ajudante, garoto. Ajudante do Domador de Monstros de Wingfield.
2 comentários:
pobre pequeno..
cara!! essa tua ultima frase foi animal!!! hehe
otima cronica até agora! hehe
Céus!!!!
ahuahuahe
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