quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Capítulo 8

Capítulo 8

A Primeira manhã em Wingfield

Tirar os restos da substancia que a planta cuspira nele foi mais difícil do que parecia. Primeiro porque a gosma endureceu, tornando-se uma crosta amarela. Segundo porque Dawis não queria que Gabriel soubesse. Ele não sabia se havia mais pessoas no mundo com os Sonhos, mas tinha a leve impressão que se ele dissesse de onde veio aquela sujeira toda, iriam chamá-lo de mentiroso, ou pior, de louco.

“Talvez você esteja ficando louco meu velho” pensou consigo enquanto guardava a roupa suja embaixo da cama “Talvez você esteja ficando como aqueles malucos que dizem ver sinais e coisas absurdas por todos os lados”.

O corpo de Dawis estava dolorido e apresentava um bom numero de arranhões, mas ele se sentia bem disposto e cheio de energia. Era mais um dos detalhes dos Sonhos. Não importa quão terrível ou bom fosse ele, após um dos sonhos ele sempre acordava bem disposto e cheio de energia.

Com movimentos rápidos e econômicos, arrumou sua cama. “Seja como os passarinhos Dawis!”.

Sua roupa de ontem não estava muito seca, mas teria que servir até que ele pudesse lavar a suja. Correu o olhar pelo chão procurando algum ponto de sujeira, e quando viu que não havia nada, saiu do quarto.

A casa de Gabriel Amaranth estava silenciosa.

O menino imaginou se não teria acordado muito tarde. Olhou por uma janela e julgou que deveria ser cerca de cinco horas da matina, horário que para a fazenda Varley seria tarde demais para acordar.

Examinou a cozinha procurando vestígios de que alguém tomara seu café da manhã e não achou nada. A louça de ontem a noite ainda estava na pia. O menino rapidamente se pôs a lavá-la, pois estava acostumado a nunca deixar nada que pudessem usar como motivo para uma bronca. Teve alguma dificuldade, tudo naquela casa parecia seguir o tamanho de seu dono. Dawis se sentiu como um pigmeu tentando morar na casa de um gigante.

Terminada a louça, explorou a sala para ver o que descobria. A sala lembrava muito a sala de um caçador. Aconchegante mas cheia de lembranças no mínimo agressivas. Numa parede havia um machado enorme, cuja lâmina devia ser do tamanho do tronco do menino. Em outra, um escudo com duas espadas cruzadas por trás pendia acima de um quadro que mostrava um Gabriel mais jovem, quase tão forte quanto o atual, segurando um rifle e uma espada pesada. Ao seu lado havia dois homens: um de aparência bonachona e outro mais soturno. O trio gargalhava de alguma coisa, e Dawis se perguntou qual seria o som dessas gargalhadas.

Examinando a lareira, descobriu que as brasas ainda estavam quentes, o que mostrava que o fogo se apagou há pouco tempo. Tocando a poltrona aconchegante, o menino achou bem possível que o gigante deveria ter estado sentado ali alguns instantes atrás.

A sala ainda tinha uma estante de livros, uma mesinha onde um cachimbo fora esquecido, e um cheiro bom de madeira antiga. Dawis não pode deixar tremer ligeiramente quando pisou com seus pés descalços num grande tapete de pele branca, pois a sensação foi muito parecida com a de pisar nas folhas mortas da selva do Sonho.

Sem coragem para explorar os outros cômodos, o menino abre a porta e sai da casa.

O começo do dia estava frio e tudo ainda estava molhado, resultado da chuva que deu boas vindas para Dawis na noite passada. Ele olhou para a sua direita e contemplou a cúpula de vidro de Wingfield. Gotas ainda se prendiam por toda a superficie, parecendo pequenos diamnates pontilhando o vidro. A visão dela assim de perto era um tanto estranha, como olhar para dentro de um daqueles aquários que tem uma casinha dentro e quando você chacoalha a neve cai.

Mas um desses não tem um dragão colossal em cima, é claro.

Wingfield parecia uma fortaleza fantasma. Não havia alma viva andando por suas ruas e todos os edifícios, casas e torres estavam tão escuras quanto o dia que ainda não amanhecera.

- Já de pé moleque? – disse uma voz grave a suas costas.

Dawis se virou e viu Gabriel sentado em um banquinho afiando com uma machadinha um bastão, que logo se transformaria em estaca e se juntaria com outras tantas que estavam empilhadas no chão.

O chão, alias, era um gramado bem cuidado que se estendia alguns metros em volta da casa, indo até uma calçada que ladeava a cúpula. Aqui e ali algumas árvores de pequeno porte apareciam. Um pequeno rancho estava mais adiante. Atrás da casa, agora que não havia chuva, Dawis pode ver arvores enormes que se destacavam dentro da cúpula. Aquele era sem dúvida o bosque murado que ele viu na noite anterior.

- Estou surpreso que você acorde tão cedo. – disse o gigante coçando a barba – Sempre pensei que crianças da sua idade fossem de dormir até mais tarde. – ele o observou um pouco – Qual seu nome garoto?

Dawis ficou só o observando.

- Você é mudo filho?

O menino fez que sim.

- Então também é um mentiroso. – grunhiu o homem ruivo. Vendo que Dawis ficou espantado ele emendou – Ouvi você gritando noite passada. Teve um pesadelo não?

Dawis compreendeu então. Ele havia gritado no final de seu sonho e Gabriel o ouviu.

- Um homem que pode gritar também pode falar. Vamos rapaz, me diga seu nome ou você pode dar adeus a Wingfield. Não precisamos de falsos mudos aqui.

Sentindo um aperto no estômago, ele falou:

- Dawis Hinks, senhor.

- Dawis Hinks, hum... É um bom nome. – assentiu Gabriel – Então jovem Hinks, venha cá e me ajude com essas estacas. Temos muito serviço pela frente.

O menino correu e pegou as estacas que Amaranth não pegou. Ele estava levando muito menos que o gigante, mas é bom lembrar que isso ainda significa muitas estacas, o bastante para cansar seus braços após poucos minutos.

Enquanto andavam seguindo a cúpula, mais precisamente na parte em que o bosque era visível, Gabriel foi dizendo:

- Bom Dawis, o que você sabe sobre Wingfield?

- Nada senhor.

- E sabe o que você veio fazer aqui?

Dawis fez que não com a cabeça.

- Como eu lhe disse ontem à noite, você vai me ajudar, e eu sou o domador de monstros de Wingfield. Isso significa filho, que você vai ter um bocado de trabalho pesado e muitas vezes perigoso. Quer mesmo fazer isso?

- S-sim. – ofegou o menino, com os braços doendo.

- Não tem medo?

- Não senhor! – respondeu um pouco indignado o menino. Quem ele achava que Dawis era? Um maricas?

- Assim que se fala moleque! – Gabriel deu um largo sorriso e caloroso.

O pequeno ajudante teve que se conter para não sorrir de volta. Ele não queria dar o braço a torcer.

- Bom eis o que você precisa saber sobre Wingfield: esta é uma escola militar, onde crianças, como você, são mandadas para desde novo aprender como enfrentar o mundo lá fora.

- Depois disso, quando atingirem a maioridade, podem se alistar em exércitos, atuar como conselheiros de segurança, mercenários ou podem ficar aqui em Wingfield, como soldados. Os soldados daqui costumam ser contratados como escolta, grupos de ataque ou reconhecimento em guerras ou conflitos, ou mesmo para caçar monstros perigosos. Está me entendo até aqui?

- Sim senhor. – disse Dawis. Na verdade não entendia muito bem, mas a imagem que se formou em sua mente não era muito agradável. Guerra e morte.

Adivinhando os pensamentos dele, Amaranth riu.

- Não é ruim. Wingfield não é dura como um exército. Na verdade, muitos dos que estudam aqui nunca vão seguir a carreira militar, pegando serviços como professores, instrutores ou comerciantes. Isso aqui é mais uma instituição de elite, filho, um lugar onde só os melhores estudam. Mas o que você aprende aqui te prepara pro mundo lá fora. Fisicamente e intelectualmente. Muitas pessoas dariam tudo o que tem para ter uma vaga em Wingfield. E você vai ganhar quase de graça. – gargalhou de novo, jogando a juba ruiva para trás.

Dawis ficou em silêncio por um tempo, pensando no que ele disse. – E porque me aceitaram aqui? – disse confuso – Eu... bom, sou só um garoto órfão.

Chegaram a um local que devia um portão de metal de aspecto muito seguro. Amaranth largou a maior parte suas estacas em um canto e mandou Dawis fazer o mesmo.

- Sim, você é. Mas eu tinha uma dívida com seu pai. Por isso, quando seu tio mandou a carta, usei o pouco que eu tenho de influência e aqui está você. – disse com um sorriso.

O garoto ficou olhando arregalado para o homem a sua frente.

- Você conhecia meu pai? – sentiu um aperto na garganta.

- Sim, antes de você nascer. Eu nem sabia que ele tinha tido um filho até a carta. – e como se isso não quisesse dizer nada ele mudou de assunto – Venha, vou lhe mostrar o campo de treinamento com criaturas.

Gabriel abriu a pesada porta de aço e entrou. Dawis correu atrás de si, amaldiçoando mentalmente o gigante por não ter continuado falando do seu pai.

Era um grande corredor, cujas paredes e teto não passavam de tela de arame, sendo a única divisão entre a passagem e o bosque. Em alguns pontos os galhos das arvores chegavam a invadir o corredor. Placas dizendo “Cuidado com a cerca elétrica” e “Mantenha suas mãos longe dos animais se quiser manter elas com você”.

- Essa é apenas uma das entradas para Wingfield; Existem três principais e outras cinco secundárias, como essa. No entanto essa passa por dentro do campo de treinamento, e só um louco viria aqui sem mim.

- O senhor não pode falar mais do meu pai? – cortou o menino – Porque o senhor devia um favor para ele?

- Isso é coisa minha, moleque. Você faria bem em não ficar metendo os bedelhos na vida dos outros – disse rispidamente. A frustração fez Dawis se encolher. Gabriel percebeu – Olha, se você se mostrar um bom ajudante, eu prometo que um dia lhe conto okay?

O garoto percebeu que não adiantava discutir e assentiu. Sentiu que podia confiar no gigante, e decidiu dar tudo de si para realmente merecer saber.

- Onde estamos indo? – quis saber ele – Que lugar é esse?

- Estamos indo alimentar os monstrinhos desse lugar, pequeno. Essa é uma das minhas funções, e agora é sua também.

- Porque tem monstros dentro de Wingfield?

- Oras para os alunos treinarem, é claro. Temos aqui dentro algumas criaturas que os alunos vão encontrar pelo mundo e que precisam conhecer. Você por exemplo não ia querer se deparar com uma Sarracenia e não saber o que fazer. Não seria saudável. Por isso os professores trazem suas turmas aqui para que possam ver como são os monstros. Mas isso ainda vai demorar mais dois meses, pois as aulas só começam em março.

- O que é uma Sarracenia? – perguntou curiosos Dawis.

- Que menino falador! Quase prefiro você mudo. – gargalhou com vontade Gabriel. Dawis sorriu também e pensou que essa devia ser a gargalhada do quadro.

- Você já vai ver, já estamos chegando. – disse ele, abrindo uma porta de metal enquanto com a outra segurava as estacas.

Então Dawis Hinks se viu numa selva úmida, escura e abafada.

Um comentário:

Suellen disse...

monstrinhos! LOL
é massa ler o que você escreve :)