Capítulo 18
(fim do Ato I. Inicio do Ato II)
Morte
Quando o garoto acordou, não abriu os olhos de imediato. Era uma coisa que havia descoberto há muito tempo. Não deveria abrir os olhos de imediato.
Devia primeiro ouvir.
Ele prestou muita atenção nos sons ao seu redor. Ouviu o vento sussurrando para a manhã que chegava quente, o trino familiar dos pássaros de Thaniel, o ronronar de sua gata, Kia, e o som arrastado, pesado e salgado das ondas do mar.
Convencido de que não havia nada temer, ele abriu os olhos. Sentou-se na cama e esquadrinhou o quarto, procurando alguma ameaça. Seus olhos não encontraram nada nas paredes que antes eram brancas, mas agora estavam amareladas e em alguns pontos descascadas, culpa da maresia constante. Tampouco viu perigo no chão de tábuas velhas.
Pulou da cama e, como sempre, espiou debaixo desta. Encontrou uma grande viúva-negra, que rapidamente esmagou.
Satisfeito, trocou sua calça de dormir pela do dia a dia, sem se dar ao trabalho de colocar uma camisa, pois estava muito quente. Tirou debaixo do colchão uma adaga afiada, que enfiou no cós da calça.
Quando ia calçar suas botinas, sentiu um arrepio. Com todo o cuidado, procurou dentro delas e encontrou um escorpião negro. Delicadamente, ele pinçou pela cauda o animal extremamente venenoso. Ficou observando o escorpião, que, com um jeito surpreso, se contorcia languidamente como quem diz: “Hei camarada, quem é você pra me tirar da cama uma hora dessas?”.
Então bateu com violência o animal contra uma parede, e o som foi como de uma folha seca sendo esmagada.
Sem mais nada que pudesse causar sua morte, o jovem Hinks terminou de se vestir e saiu para a rua.
Thaniel Ommanah, ou “Sombra-do-inferno” como era mais conhecido, estava terminando os preparativos para ir pescar. Ainda era cedo e o sol ainda se escondia atrás do horizonte, mas não havia qualquer nuvem e o vento era fraco, não mais que uma brisa, o que lhe dizia que um dia de forte calor viria.
Ele passou as mãos, ásperas e negras como piche, no rosto para tirar o suor. Ele tinha um rosto forte, de maxilar saliente e nariz achatado, logo abaixo de um par de olhos frios como icebergs. Sim, icebergs, pois qualquer um sabia, podiam sentir que essa frieza aparente não era nada comparada com que havia “por baixo da água”.
Um guerreiro frio, sim, mas não calculista. Estranho não? Isso porque na verdade o negro forte e magro, como todos os marinheiros, era impiedoso, rápido e eficiente, mas agia mais por impulso. De modo que não, não podemos chamar-lo de calculista, assim como uma não dizemos que uma cobra é calculista, por mais paciência que ela tenha e antes de dar um bote perfeito.
As redes já estavam quase todas prontas, bem como os outros apetrechos para a pesca no mar. Quando terminasse com aquilo, só precisaria enganchar as velas e poderiam zarpar.
Só viu o jovem Hinks chegando quando este estava a distancia de um salto. Thaniel xingou mentalmente. O moleque era silencioso como a morte.
- Bom dia garoto. – disse com sua voz calma e baixa. Alguns homens pediam para ele falar mais alto, mas poucos pediam duas vezes.
O garoto olhou em seus olhos, e depois para o céu.
- Sim, pai. Vai ser bom.
O homem assentiu. Gostava do jeito do menino. Não era como as outras crianças de sete anos que ele conhecia, bobas, manhosas e choronas. Jamais, nos dois anos que ele o conhecia, tinha visto-o verter uma lágrima. O que é muita coisa quando se é praticamente um vórtice de tragédia, pensou.
- Me ajude aqui com essas redes, enquanto seus irmãos não acordam.
O menino pegou uma das pontas da rede e começou a dobrá-las com grande destreza.
Em meia hora, os “irmãos” começaram a se levantar. Todos eram crianças, algumas mais velhas, outras muito novas, que assim como o jovem Hinks haviam perdido seus pais para o mundo. Não eram irmãos, mas Thaniel os tratava assim, e todos o chamavam de pai, como devia ser.
As meninas sairão de seus quartos e rumavam direto para a cozinha. Os meninos vinham preparar o barco, mas só aqueles que já tinham idade para tal. Os outros corriam para a mesa ao ar livre, esperar a primeira refeição do dia como bons garotos.
Enquanto terminava com as redes, o menino listava em sua mente o que teria que fazer naquele dia. Iriam pescar, provavelmente até de tarde, depois ele precisava concertar o telhado do galinheiro, ensinar os mais novos a usar uma espada, cuidar dos dois Corséis-do-mar, e ainda fazer a vigília até as onze da noite.
Essas eram suas tarefas.
“Se você acha que vai sair tudo como o planejado, você é um tolo.” disse uma parte amarga da sua mente. “Não esqueça de colocar sua batalha de vida ou morte quase diária, senhor Hinks, ou pode se arrepender. Você sabe disso, não sabe?”
“Cale a boca...” respondeu sem muita vontade para aquela voz em sua mente. Mas claro que ele sabia. Desde os quatro anos (ou dos três? Ele não lembrava bem) ele sabia que praticamente todos os dias teria que lutar pela própria vida. Não entendia o porquê, mas seria um idiota se não percebesse.
A vida de um órfão por si só já é dura. Mas a dele chegava a ser ridícula. Sempre havia uma ameaça, algo que não estava relacionado diretamente a ele, mas que sempre o envolvia. Como no dia que um dos meninos mais novos caiu no mar e ele, apenas com cinco anos, foi resgatá-lo e teve de lutar contra um enorme tubarão cinzento. Ou quando teve o “azar” de acordar para ir urinar numa moita, justamente quando um mendigo enlouquecido, vestido em trapos e com uma velha faca na mão estava tendo delírios com demônios. O mendigo o viu e, tomando-o como uma parição infernal, tentou mata-lo.
Foram muitos os perigos que ele já enfrentou. Perdeu a conta de quantos animais e monstros ele matou, quantas gargantas humanas foi obrigado a cortar para não ser roubado, preso, assassinado, linchado ou coisa pior.
E havia sempre os pequenos perigos. Casualidades que poderiam matar ele, como o escorpião na sua bota, uma ponte que parecia poder sustentar seu peso ou qualquer coisa do tipo, um pedaço de carne estragado e coisas assim.
Thaniel o considerava um sobrevivente, e dizia que até a morte devia temê-lo, como muitos mortais já temiam.
E tinham razão, pois para sobreviver ele abdicara de sua infância, tornando-se alguém magro, de olhar feroz e coração trancado.
Mas ele tinha orgulho de ser quem era. Jamais pensou em entregar os pontos e jurou a sim mesmo que sobreviveria.
E mais.
Jurou que seu nome, Laslos Hinks, seria conhecido e temido por todo o mundo. E que os céus tenham piedade daqueles que cruzarem seu caminho.
Um comentário:
ótima definição de frieza.
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