Capítulo 19
Sangue na praia
Quem notou primeiro a fumaça foi Andrew, um dos meninos mais novos.
- Olha pai! – chamou ele – Fumaça! Será que é alguma brincadeira?
Thaniel franziu a testa para o sol e olhou a praia. Daquela distância não dava para ver se a fumaça vinha da grande casa. Diacho, ele não via nem a praia. Mas a direção... sim, a fumaça vinha da mesma direção. Poderia ter pegado fogo na igreja? Havia uma pequena vila uns dois quilômetros a partir da casa. Poderia ser a vila...
- Recolham as redes, meus filhos, vamos voltar.
Laslos olhou para o sol e achou que fosse umas duas da tarde mais ou menos. Recolheu rapidamente sua rede e ajudou o menino do lado a fazer o mesmo. Mentalmente, ele começou a se preparar para o pior.
Com muita perícia, fez o barco dar a volta. Os meninos pegaram nos remos e começaram a impulsionar o barco mais rápido pelas águas do mar.
“Pelo menos não está ventando” pensou sombrio Thaniel, enquanto mantinha o curso do barco sobre as ondas. Com sorte, a fumaça viria do galinheiro. Podiam arcar com um prejuízo. Afinal, seria apenas um galinheiro. E sem vento, as chances de que a casa não pegasse fogo eram muito maiores.
O negro mordeu o lábio, se sentindo impotente. Odiando ou não, só poderia aplacar sua preocupação quando chegasse à praia.
- Mais forças meninos! – gritou ele – Remem como nunca remaram antes!
Quase meia hora depois, o barco já chegava.
O fogo consumia toda a casa, e o galinheiro. Gritos infantis de medo e pavor se mesclavam aos gritos de homens cruéis, carregando tochas e machados.
Laslos Hinks não parou para pensar ou perguntar quem eram aqueles homens, tampouco esperou que o barco atracasse. Tirou a adaga do cós da calça e colocou-a entre os dentes, para então mergulhar. Thaniel não podia fazer o mesmo, precisava atracar e dar ordens aos outros meninos.
Nadando o mais que podia em direção a praia, Laslos pensou que seja lá quem era o responsável por aquilo era muito esperto. Todos os meninos maiores estavam pescando com Thaniel e, portanto, só estavam em terra as meninas e crianças pequenas demais.
Uma raiva fria correu por suas veias, fazendo as ultimas braçadas saírem mais fortes. Da areia ele viu que deveriam ser uns vinte homens, que nesse momento estavam ocupados prendendo as meninas e matando aquelas que dessem muito trabalho. Ele viu os corpos de seus irmãos jogados na areia como bonecos de pano. Viu o sangue escorrer como água. Viu a morte em todo o lugar.
Ele não sabia, mas quando avançou estava gritando. Os homens mais próximos, suas primeiras vítimas, sentiram um arrepio que vinha da alma ao ouvir tal som.
O primeiro homem tentou esboçar um golpe, mas Laslos jogou todo seu peso sobre ele. Os dois caíram, e o menino esfaqueou o adulto muitas e muitas vezes. O segundo vendo aquilo berrou um “Moleque dos infernos!”, mas não pode fazer nada, pois uma adaga sanguinolenta voou perfeitamente até seu rosto, encravando no olho direito.
Hinks correu e arrancou sua adaga da órbita antes mesmo do cadáver atingir cair na areia.
Ele perdeu totalmente a noção de tempo. Percebia as coisas ao seu redor acontecerem muito lentamente, embora ele próprio parecesse estar numa velocidade normal.
Havia um grupo de sete homens, segurando um grupo maior de crianças (... quinze, dezesseis, dezessete e dezoito. Dezoito crianças – contou ele). Eles se viraram e assistiram o garoto matar seus dois companheiros. Todas tinham machadinhas e adagas.
- Cerquem esse demoniozinho! – disse um careca. Com um frio prazer, Laslos decidiu que não mataria aquele tão rapidamente.
Enquanto o careca, que parecia ser um dos cabeças do grupo, dava um tapa para que uma das meninas calasse a boca (a menina era Rose, nove anos) os seis bandidos (o da direita é canhoto, o da esquerda nunca matou alguém em um combate justo, dá pra ver no olho dele, aquele outro está com o pé manco e os outros estão achando que vai ser moleza...) começaram a se separar para cercar Laslos.
O garoto correu para o canhoto, que colocou sua machadinha
Nesse momento os outros cinco adversários correram para Laslos, que arrancou a adaga da carne do canhoto e, com a outra mão, empurrou o corpo moribundo contra o atacante mais próximo.
O homem (o do pé manco) praguejou quando quase tropeçou no corpo do companheiro. Essa distração foi o bastante para perder o jovem Hinks de vista que, com um golpe limpo, cortou sua jugular.
Mãos fortes seguraram o menino pelo pescoço enquanto alguém chutava sua perna. Laslos não conseguia ver quem apertava seu pescoço, mas devia ser o senhor eu-nunca-matei-ninguém-em-um-combate-justo. Com isso em mente, ao invés de tentar cortar a mão dele, Laslos golpeou cegamente à suas costas. As mãos soltaram seu pescoço tão logo a adaga perfurou a barriga do homem. Ao invés de tirar a lâmina, ele a fez correr para baixo, rasgando as entranhas e abrindo um rasgo na barriga do sujeito.
Laslos não parou para ver as tripas do senhor eu-nunca-matei-ninguém-em-um-combate-justo caírem na areia. Mas notou que um dos sobreviventes vomitou e foi para ele que correu.
Alguém tentou lhe aplicar mais um chute, mas o menino pulou facilmente. O homem que vomitará já não era mais um perigo: não passava de um fanfarrão assustado e enojado. Hinks, de maneira muito profissional, cortou fora os dedos que seguravam uma machadinha e chutou sua virilha. Agarrou a machadinha enquanto o homem se curvava de dor, e pulou de lado a tempo de evitar um golpe de machado.
Os bandidos e o menino ouviram o grito de dor e ódio que um negro dava ao descer na areia. Meninos armados com adagas e facões de estripar peixe saltavam do barco e avançavam para a praia.
Mais bandidos vieram da casa em chamas, atraídos pelo barulho de luta e pelo grito de Thaniel.
O homem que tentara acertar Laslos pelas costas investiu de novo, mas o menino não se desviou. Ele chutou areia em seu rosto, atirou a adaga que ficou cravada no ombro do bandido e por fim rachou sua cabeça com a machadinha.
Thaniel matou um dos bandidos que ainda estava de pé com um golpe forte de seu facão. Dois meninos terminaram de mandar o senhor canhoto para o inferno com uma série de golpes mal dados.
- Thaniel Ommanah! – cuspiu o careca – Matem esse bastardo!
Os bandidos (agora eram quinze, não, quatorze, pois Thaniel degolou mais um) se juntaram em uma massa raivosa que vociferava palavrões e desafiava os meninos a atacarem.
Thaniel olhou para Laslos. Viu o sangue manchando todo o corpo do menino, sangue dos outros, e pensou vagamente que a cor combinava com o garoto.
- Hinks, o que você acha?
- Vou matar eles todos.
- Bom garoto. – assentiu o negro.
Juntos atacaram a massa de bandidos. Vendo as duas figuras correndo sem medo da morte, o grupo de bandidos escarneceu ainda mais.
Até o final do dia as gaivotas se banqueteariam em suas carnes.
Um comentário:
*_*
Ester com os olhinhos devorando cuidadosamente cada palavra..
Mto bom!
mal posso esperar pra ler o próximo capitulo..
xD
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