Capítulo 20
Despedida
Thaniel Ommanah andava entre os escombros como um condenado à morte andaria por sua própria casa, momentos antes da execução. Por todo o lado ele via sinais da vida que tivera até então, uma vida que havia sido arrancada de suas mãos há poucas horas.
Os corpos dos homens que fizeram tal insanidade jaziam nos rochedos à beira-mar, e suas cabeças foram empilhadas na beira da estrada, a quatrocentos metros.
Dos meninos e meninas que ele cuidava com tanto amor e carinho, órfãos sem lugar na sociedade, sobraram vinte e sete de quarenta e dois. Dos bastardos responsáveis pelo massacre sobrou um de vinte e sete.
O sobrevivente era um homem careca, de constituição forte e olhar zombeteiro (não estava mais tão zombeteiro), que se dizia líder do bando. No momento ele estava desmaiado na praia, amarrado por cordas em um poste de madeira.
Laslos Hinks estava de guarda, e usava toda sua força de vontade para não matar o canalha. Thaniel via em seus olhos: ele matara muitos homens naquela tarde, mas sua sede de sangue pedia muito mais.
Da casa, do galinheiro, dos instrumentos de pesca, da grande dispensa e da oficina não restara muita coisa. O fogo devorou àquelas construções com uma facilidade terrível. O negro não via como poderia sustentar tantas crianças.
Com suspiro, resolveu por um fim naquilo tudo. Precisava arrancar respostas de um homem, depois tinha que enterrar os mortos e por fim resolver o que faria dali em diante.
- Laslos, acorde esse filho-da-puta. – pediu baixinho Thaniel.
O garoto assentiu e jogou um balde de água no homem desacordado.
- Agora, seu bastardo sodomita, você vai me contar o porquê dessa desgraça toda. – sibilou ele para o careca recém-acordado.
- Vá à merda... – cuspiu ele com seu olhar zombeteiro..
Laslos golpeou o maxilar dele com um bastão de madeira. O golpe fez um ruído surdo, e o prisioneiro ameaçou cair novamente na inconsciência.
- Vou repetir a pergunta apenas mais uma vez. – avisou Thaniel em um sussurro – Por quê?
- Eu falo... – o homem tossiu sangue - Só tire esse demônio de perto de mim! – pediu o careca, e não havia nada de zombeteiro em seu olhar.
O negro fez um sinal com a cabeça e Laslos se afastou alguns passos, mas ainda estava perto o bastante para ouvir tudo.
- Alguém contratou meu bando pra queimar tudo. Disseram pra não deixar nem uma ripa em pé. Falaram também que devíamos matar as crianças, pegando só algumas meninas pra vender como escravas.
O olhar gélido do negro fez o líder do bando engolir em seco.
- Olha não era nada pessoal, ta legal? Me pagaram e eu vim fazer o serviço.
- Quem pagou? – perguntou Thaniel.
- Jonathas Limmie.
- Quem é ele? – quis saber o jovem Hinks.
- Ele é o dono do cartel de pescadores... – respondeu Thaniel, a compreensão invadindo sua mente – O maldito mandou nos matar por que estávamos fazendo concorrência a ele...?
- S-sim... – confirmou o careca – Segundo ele os preços de vocês eram muito baixos, e o povo da cidade preferia comprar de vocês para ajudar, mesmo nas raras vezes que o preço do cartel era melhor.
- Quero mais nomes. Duvido que aquela baleia Limmie tomaria uma atitude assim sozinha.
- Havia também Joshua Storm, o mago conselheiro dele... Acho que ele é quem deu a idéia. E Susan Snake, a bruxa, que revelou o melhor horário para... bom, atacarmos.
- Isso é tudo?
- Sim senhor. Vai cumprir o que me prometeu?
Thaniel viu que era verdade tudo aquilo e assentiu. Começou a desamarrar o homem.
O careca tinha muitas escoriações e hematomas pelo corpo. Tinha também uma perna quebrada, e uma perfuração no abdômem, por onde o sangue escorria. Não viveria por muito tempo.
O homem segurou uma espada velha e sorriu. Seu olhar zombeteiro espreitava novamente. Thaniel cortou sua cabeça com um golpe, e assim dera a morte de guerreiro que o careca ansiava.
Era noite e uma fogueira ardia no centro de uma roda formada por rostos cansados e abatidos.
Thaniel olhava para a fogueira, pois encarar a tristeza nos olhos de seus filhos ainda era demais. Tinham comido um pouco de peixe logo após enterrar os corpos, uma tarefa que levou três horas para ser realizada. Agora todos esperavam silenciosamente por uma direção a qual seguir.
Mas não foi o negro quem quebro o silêncio, e sim Laslos.
- Vou partir ainda esta noite. – anunciou ele.
Todos olharam para ele sem entender.
- Vou vingar a morte de meus irmãos.
- Quem deve vingá-los sou eu. – discordou Thaniel.
- Você não pode. Tem que cuidar dos outros. – Laslos olhou para seu pai – Eu vingo as mortes e depois encontro vocês, onde quer que vocês estejam.
- Mas... – Ommanah começou a dizer, mas parou. Ia dizer “Mas você é só uma criança!”, só que isso não se aplicava àquele garoto.
- Eu consigo. – respondeu simplesmente Hinks.
Thaniel Ommanah se levantou, e Laslos também. Os dois andaram até ficarem um bem próximo do outro. Examinaram-se por um bom tempo.
Laslos viu um homem negro que estava pálido, com rugas de preocupação se mesclando com as da idade. Havia sangue seco em algumas partes do corpo, manchas negras que só podiam ser notadas, pois não refletiam o brilho do fogo. Viu um homem cansado, mas que não tinha desistido da vida ainda.
Por sua vez Thaniel viu um garoto baixo e magro, que muitos poderiam chamar de franzino. Viu um rosto duro como pedra e também um espírito de aço por trás dos olhos decididos e ferozes. Soube naquele instante que ele conseguiria.
- Então vá, meu filho.
Os dois se abraçaram, um abraço forte e cheio de amor de um pai por seu filho e de um filho por seu pai. Lágrimas escorreram dos olhos de Laslos pela primeira vez em muito tempo, mas Thaniel fingiu não perceber.
Então o menino se soltou e partiu sem olhar para trás, levando apenas uma adaga, uma machadinha, um cajado e sua fúria.
2 comentários:
isso tá muito legal..
xD
to adorando essa história, de verdade..
xD
Moleque cruel...
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