quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Capítulo 21

Capítulo 21

A bruxa

A velha Susan Snake estava muito irritadiça naquele dia. Alias, estava assim desde que a dama de preto começou a segui-lá.

A garota, que parecia ter dezoito anos (“apenas parecia, é claro”, pensou amarga) era muito simpática. Tinha uma beleza hipnotizante. Mas não dizia palavra alguma. Apenas seguia Susan para onde quer que ela fosse.

No primeiro dia, ficava sempre a vinte passos de distancia. Agora, no terceiro dia, estava a três... Susan sabia o que significava aquilo, e era justamente por isso que estava irritada, apesar de todo o encanto da moça.

- Sra. Snake? – perguntou mortalmente assustado o mordomo de Jonathan Limmie. A visão de uma bruxa encarquilhada, encardida e horrível a ponto de não parecer humana fazia isso com as pessoas – O q-que a senhora esta fazendo aqui?

“Perguntas de homens” pensou exasperada.

- Acha mesmo que vou falar para você, seu molenga inútil? – o mordomo se encolheu diante do tom ríspido – Vá chamar agora aquela baleia que você chama de chefe! Vá agora! – vociferou ela.

O mordomo correu para o quarto de seu amo, tropeçando antes na escada, e com ar afobado deu uma rápida batida na porta.

- Entre. – disse uma voz entediada.

- Senhor, creio que a senhora Snake deseja falar com você.

- Mande-a embora. Não tenho nada a tratar com ela agora. Estou escrevendo cartas não vê?

Susan Snake entrou no quarto.

- Mas o que diabos você faz aqui? Walter, você deixou ela entrar!

- N-não senhor!

- Oras, cale a boca seu bastardo. – guinchou ela, dando uma rápida cajadada no estômago do mordomo, que caiu de quatro – Jonathan Baleia Limmie! Tenho assuntos a tratar com você!

- Baleia? – as bochechas gordas dele ficaram rubras – Como ousa sua megera? Eu devia...

- Você devia ficar calado, poço de banha! – a bruxa fez um movimento rápido com a mão, e a voz morreu na garganta de Jonathan.

-...! – fez ele, incapaz de fazer outra coisa.

- Escute bem seu imprestável. Eu lhe dei o melhor horário para atacar a casa do guerreiro Ommanah e lhe avisei: mande os melhores homens para lá! E o que você faz? Manda um punhado de fanfarrões tão úteis quanto a coisa morta que você traz entre as pernas!

Limmie não podia falar, mas seu olhar assassino era um bom modo de mostrar seus sentimentos.

- Eles morreram! Todos eles!

O olhar assassino foi substituído por um de descrença.

- E eu lhe avisei senhor Jonathan Banha-de-porco Limmie que eu queria uma das crianças para mim! EU PRECISO de uma criança... – a velha Susan olhou por sobre o ombro e viu a dama de negro dar um sorriso. O sorriso cheio de compaixão dizia “ora sua tolinha!”, e aquilo deu um frio na barriga da bruxa.

O senhor do cartel de pescadores não viu nada atrás da velha encardida, e se perguntou pela enésima vez por que tinha compactuado com essa louca.

- Eu vou morrer seu maldito, se eu não encontrar uma criança logo. Mas não vou morrer sozinha. Transformo essa cidade em uma cova a céu aberto antes disso! – essa ameaça não parecia vazia para o pobre Jonathan – E você sabe que não posso encostar em uma criança. A maldita maldição não deixa. Eis o que você dev...

Antes que ela terminasse a frase, um arrepio percorreu os ossos cansados da velha. Ela se virou e constatou que a maldita garota tinha dado um passo em sua direção.

Sentindo o perigo eminente, Susan Snake lançou sobre si um feitiço de invisibilidade. O feitiço ia minar suas forças, mas ela precisa se manter viva até achar outra criança.

No segundo seguinte ao que a velha carcomida se desapareceu, a janela do quarto de Jonathan Limmie abriu sem fazer barulho. Jonathan ainda estava tentando entender o porquê e não viu quando a janela se abriu a suas costas. Também não viu o pequeno vulto se esgueirando para dentro.

- Jonathan Limmie. – chamou uma voz baixa às suas costas.

O homem se virou surpreso e o que viu foi um garoto, que não devia ter mais do que oito ou sete anos, de cabelos negros e roupas esfarrapadas. Era muito magro, e tinha feições ferinas. E o olhar mais assustador que ele vira em sua vida. Limmie tentou falar (na verdade gritar), mas nada saiu de sua boca.

- Ommanah e seus filhos lhe mandam lembranças. – disse o garoto. Sua voz era tão fria quanta a lâmina do punhal que ele trazia.

A velha Susan Snake chegou a sua casa sem fôlego. Suas pernas doíam intensamente pelo esforço da corrida.

- Aquele garoto... – balbuciou ela.

A verdade era que aquele garoto conseguira apunhalar várias vezes o rico e poderoso Jonathan Limmie, que sem poder pedir por socorro nada pode fazer, mesmo tendo todo aquele tamanho e seu algoz tendo apenas sete anos.

Quando o garoto falou o nome Ommanah, a velha soube a sua intenção. Chegou mesmo a começar a proferir um encanto para matá-lo, mas parou quando ouviu uma voz doce dizer:

- Ele está tão forte!

A dama da noite olhava fixamente e com um prazer inenarrável para o garoto. Ela NUNCA falava, nem olhava para outra coisa, senão a velha, e foi isso que convenceu Susan Snake de que nada que ela fizesse iria acabar bem. Por isso ela fugiu.

Snake ainda sentia a vida de Limmie pulsando fraca a distância. O garoto não tinha matado ele ainda. Provavelmente ele teve que fugir de alguém que apareceu naquele instante. O que não queria dizer que Jonathan iria sobreviver. Susan não contava com isso, os ferimentos eram fatais, ela sabia.

Restava a ela se preparar para a visita do assassino. Por mais terrível que ele fosse, ele ainda era uma criança.

- Vamos ver criança... – murmurou ela, enquanto se preparava – vamos ver se você vai ser meu algoz ou meu salvador...

Um comentário:

Anônimo disse...

"Manda um punhado de fanfarrões tão úteis quanto a coisa morta que você traz entre as pernas!"

Tive que rir..