segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Capítulo 24

Capítulo 24

Demônio

Vinte e quatro horas tinham se passado desde que o mago havia colocado a maldição na mão de Jack. Um dia inteiro correndo contra tempo, buscando o rastro de um assassino que parecia ter virado fumaça. Ninguém o viu. Ninguém sabia onde estava. Era desesperador.

Pela milésima vez naquelas vinte e quatro horas, Cara-de-Corvo esfregou a tatuagem em seu braço. Os tentáculos da coisa hedionda já quase alcançavam seu cotovelo. Ele sentia um frio terrível no ponto em que a tatuagem cobria sua pele, como se ela não mais o pertencesse. E de certo modo Jack não ficaria triste se aquele não fosse seu braço.

Tinham procurado em todos os esgotos, becos e ruelas, assim como albergues e hotéis. Cada moleque de rua foi capturado e interrogado, mas todos pareciam limpos (apenas no sentindo figurado, obviamente). Nenhum deles estava nas redondezas naquele dia e Jack via nos olhos assustados que nenhum seria capaz de matar um homem grande como Limmie.

Sem saber mais o que fazer, e temendo por sua vida, Jack Cara-de-Corvo decidiu fazer algo que nunca pensou fazer de livre e espontânea vontade.

Ele foi procurar a velha e maldita bruxa Susan.

Laslos observou do telhado em que estava o movimento constante de seguranças na torre de Joshua Storm. O fato de que ele já esperava toda a segurança em alerta máximo não tornava as coisas mais fáceis.

E havia muitas pessoas procurando por ele. Ele sentia isso. Era um arrepio na base da espinha, como se ele estivesse sendo caçado. Algo que o deixava profundamente irritado, pois ELE era o caçador ali, não o contrário.

Naquele dia o garoto não enfrentou qualquer perigo, pelo menos até então. Sua vida não esteve por um fio, como em todos os outros dias de sua vida. Isso não o deixava tranqüilo. Longe disso, esse fato deixava apreensivo.

Porque ainda faltavam quatro horas para aquele dia terminar.

Quando Jack voltou para a torre de seu mestre ele encontrou os vigias relaxados em seus postos. Havia quatro vigias, dois faziam a ronda do lado de fora e dois estavam dentro, numa saleta onde os visitantes permaneciam quando precisavam esperar permissão para entrar na torre. Na penumbra da noite um dos vigias que ficavam de fora, mais precisamente o que guardava o lado direito da porta, parecia estar dormindo.

- Seus palhaços! – vociferou Cara-de-Corvo – Montem guarda direito! A velha Susan Snake está morta! Tudo indica que nosso chefe é o próximo alvo...

Ao ouvir que a velha e assustadora bruxa estava morta, o guarda que estava acordado fitou a escuridão, apavorado, esperando que o assassino atacasse a qualquer momento.

- Vou dar a notícia ao patrão, e espero que quando eu voltar vocês estejam alertas como deveriam estar! E acorde aquele paspalho antes que minha espada tenha a certeza de que ele nunca mais vai acordar.

O vigia disse um “s-sim se-senhor” amedrontado e correu para seu amigo adormecido. Jack bateu na porta e gritou:

- Abram! Sou eu, Jack Cara-de-Corvo.

Nenhum som veio de dentro da torre. Jack ficou exasperado e tentou abrir a porta, e para sua surpresa ela estava aberta.

Para aumentar ainda mais a surpresa o que ele viu não foi dois guardas sonolentos, mas um verdadeiro abatedouro. Os dois guardas jaziam mortos e mutilados.

- Jack! – gritou o vigia do lado de fora – E-ele não ta dormindo. Está morto!

Joshua Storm encarava a porta a sua frente com uma ponta de desespero. Ele tinha lançado feitiços poderosos para parar a maldita criança. Tinha até mesmo aberto mão de cinco anos de sua vida usando um feitiço poderoso que invocava um demônio das profundezas para obedecer a uma ordem sua. A ordem foi: matar a criança.

Agora o demônio era tudo o que havia entre o assassino e a porta.

“Que isso baste...” rezou Joshua.

O demônio, cujo nome só pode ser achado nas areias esquecidas do tempo (e caso você for tão longe saberá que se chama Mephir) tinha quase três metros de altura, e por isso estava meio arcado contra o teto. Suas asas membranosas se agitavam levemente enquanto o fogo infernal às lambia, embora não as consumisse. Aliás, praticamente toda sua forma humanóide estava em chamas, que não o queimavam. Tinha o tronco coberto por pelos escuros, braços longos que facilmente alcançavam os pés. Seus dedos (três em cada mão e quatro em cada pé) terminavam em unhas afiadas e duras. Trazia na mão uma maça pesada, com pequenas pontas de metal manchadas de sangue seco e antigo. Sua cabeça parecia a de um morcego, mas sua boca lembrava a de uma aranha.

Mephir fez um esgar que a Laslos pareceu um sorriso de escárnio.

- O mago cedeu cinco anos de sua vida para deter ISSO? – disse a criatura com uma risada que faria fogo congelar.

Os olhos de Laslos se abriram o máximo que podiam. Suas pupilas não eram nada mais do que dois pontos negros. O demônio já tinha visto isso antes, mas não em um humano. Aquilo era o que um leão fazia antes de se entregar a uma caçada.

O escárnio sumiu da face hedionda. A criatura infernal ponderou que talvez aquele não fosse um humano comum. De qualquer forma, ainda tinha muitas limitações físicas e jamais poderia vencer uma maça de 73 quilos com uma machadinha e uma adaga...

Na mente do garoto nenhum pensamento passava. Ele era puro instinto. O instinto o salvara em todas as situações, junto com sua vontade férrea de viver. Ele não sabia o que fazer, mas sabia que devia atacar. Qualquer coisa que ele tivesse que fazer depois disso iria lhe ocorrer no tempo certo.

O silencio atrás da porta exasperava o mago. Já deveria ter escutado os gritos de dor da criança. Porque ele não ouvia nenhum ruído, apenas o crepitar das chamas infernais?

O ataque de Laslos foi rápido. Ele disparou na direção do demônio, que levantou a pesada maça como se fosse um brinquedo, e desceu ela como se fosse um meteoro.

A maça atingiu o chão, levantando uma nuvem de pó e detritos. O demônio rugiu para o menino, sabendo que este tinha escapado do golpe. Quando o monstro levantou novamente a maça, Laslos correu por baixo e trepou na criatura, usando suas armas como ganchos de escalada.

Mephir soltou um grunhido curto quando as lâminas atingiram seu corpo. Elas não o feriam exatamente, mas aquelas coisas doíam... Ele largou a maça, que não seria de nenhuma utilidade contra um combatente que luta de tão perto.

As chamas lambiam os braços de Laslos e em algum lugar fechado de sua mente o garoto sabia que aquilo deveria estar doendo muito, e que doeria ainda mais depois da luta. Mas aquilo não era importante. Não agora.

Quando seus olhos ficaram frente a frente com os do demônio, o jovem Hinks não fraquejou. Ele apunhalou a face horrenda várias vezes, e a criatura sangrou fogo, mas sem estar ferida. Ele não podia ser ferido por armas comuns. O demônio mordeu a mão direita dele e Laslos sentiu que perdeu alguns dedos lá dentro, enquanto as garras fortes apertavam seu peito, espremendo ar para fora de seus pulmões. E algo picou sua mão lá dentro, fazendo todo o calor que consumia seu braço sumir e substituindo por um frio que era mil vezes pior.

Mas aquilo não fazia diferença, não por enquanto.

Porque os instintos de Laslos gritaram em sua mente: AGARRE E PUXE!

E foi o que ele fez. O garoto agarrou a língua áspera e seca da criatura e puxou para fora da boca.

Não havia uma língua realmente. Havia sim uma cobra negra e lustrosa, cega e com presas compridas e afiadas. “Foi você que me picou...” pensou Laslos indiferente.

Mephir começou a se debater indefeso. As garras afrouxaram seu aperto mortal, e deixaram o garoto cair no chão. Mas ele não soltou a cobra-lingua, e o demônio caiu junto de joelhos.

Agora Hinks estava caído de costas no chão, segurando firmemente com a mão meio mutilada e sangrenta a cobra que se debatia inutilmente. As chamas que envolviam o demônio foram arrefecendo a medida que um olhar incrédulo e desesperado tomava conta de Mephir.

- Você... Essa cobra... é sua alma não é? – perguntou o menino. Ele sabia que era verdade antes mesmo do monstro acenar positivamente.

- Uma vez me disseram... que demônios sempre fazem tratos. – disse Laslos, com dificuldade. A dor estava se esgueirando para sua mente, e ele não sentia seu braço, mas ele ainda não tinha terminado. – Eu deixo você viver. Mas você precisa fazer um trato comigo. Você aceita?

Agora as chamas estavam praticamente extintas. Mephir estava morrendo. Ele não tinha opção.

Joshua achou que tudo estava terminado, que o demônio tinha vencido. O desespero já deixava seu olhar e ele podia sentir a velha arrogância voltando.

Mas a arrogância não ficou por muito tempo, e o desespero voltou com força redobrada. Pois a porta se abriu e seu assassino estava na soleira, ferido e moribundo, mas com um olhar tão decidido quanto antes.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ha! Esse piá fica com tanta raiva que esquece da dor e dos sofrmientos de uma luta. Gostei disso.
aehuaaehueahea

Não vejo a hora em que Laslo e Dawis se encontrem.

Ester Grünhagen disse...

*_*

acho que eu ia ficar com medo a hora que eu encontrasse esse menino..
^^

to adorando a história, também mal posso esperar para que Laslos e Dawis se encontrem...


E também mal posso esperar pelo próximo capitulo...
^^