sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Capítulo 25

Capítulo 25

Vingança concluída

- Você devia estar morto, menino! – berrou incrédulo o mago – Morto!

Laslos não respondeu. Olhou a sala de Joshua Storm procurando por rotas de fuga, e não encontrou nenhuma. O mago estava em uma arapuca montada por ele mesmo.

- Como você matou o demônio? – perguntou ele colérico. O medo estava se transformando em uma raiva desesperada – Ele não deveria poder ser derrotado por armas humanas! Ele...

- Eu não o matei. – cortou o menino – Ele está vivo, embora eu não saiba dizer se demônios realmente tem vida.

- Então como você passou?!

- Um acordo. Eu não o mataria e em troca ele me daria quinze minutos a sós com você. Mas não vou precisar nem de cinco.

- Não pode! – ofegou o mago – Ele não pode! Eu dei uma ordem, ele deveria matar você! Ele não pode desobedecer a mim! Dei cinco anos de minha vida!

- De fato. – disse a voz zombeteira do demônio, aparentemente vinda do vindo do nada – Você me deu essa ordem, que devo tentar cumprir até que um de nós três morra. Mas você não especificou quando...

- Não pode desvirtuar assim nosso acordo! – sussurrou Joshua, sabendo que sim, ele podia.

- Vamos acabar logo com isso. – disse com voz cansada Laslos Hinks. – Você disse demônio, que se eu quiser seus serviços devo pagar com a vida de humanos, certo?

- Sim.

- E para isso basta dizer o que você me disse?

- Sim.

- Certo. – Laslos Hinks empunhou sua adaga – Então, eu ofereço essa vida a Mephir. – disse o menino, levando sua lâmina de encontro ao coração do mago.

Quando Jack Cara-de-Corvo entrou na sala de Joshua, viu horrorizado que já era tarde. Seu mestre jazia morto com uma expressão de horror estampada no rosto. O assassino estava limpando o sangue de sua adaga. Não havia mais ninguém na sala.

Jack tocou sua mão, onde a maldição estava alojada. Sentiu com asco a frieza daquela coisa e teve absoluta certeza: o feitiço não tinha se desfeito com a morte do mago.

E não havia ninguém que pudesse tirar aquela maldita tatuagem de seu corpo.

Ele estava condenado. E o menino era o culpado.

Laslos fitou aquele novo obstáculo e pensou no que deveria fazer. Matar foi a primeira solução que veio em sua mente. Mas tanto sangue havia sido derramado até então... e sua vingança já tinha sido concluída.

- Vai sacrificar esse peão a mim também? – sussurrou Mephir em seu ouvido.

- Não. – respondeu. O homem com cara de pássaro (um corvo, pensou Laslos) olhou para ele sem entender com quem estava falando. – Só tire ele do meu caminho, por favor. Não precisa matá-lo.

- Como queira. – disse rindo o demônio, enquanto se materializava do nada, na frente de Jack. O capanga fez menção de gritar, mas Mephir o calou com seu punho flamejante, atirando o corpo desacordado para um canto da sala.

- De quanto em quanto tempo preciso lhe oferecer uma vida? – perguntou Laslos, enquanto saía da sala.

- No mínimo uma por semana, se quiser que eu continue lhe seguindo.

O menino não queria a criatura demoníaca o seguindo, mas não podia negar a utilidade que ela teria. O demônio era poderoso, em combate aberto poucos seriam os homens com a coragem ou loucura de tentar agarrar a alma ofídica de Mephir. Além disso, como Laslos enfrentava e matava alguma coisa quase todos os dias, não seria difícil pagar o preço.

Mephir podia se tornar imaterial e invisível quando bem quisesse, o que o tornava o vigia perfeito. Com sua ajuda Hinks pode sair facilmente da torre, ludibriando os capangas restantes e sumindo nas trevas da cidade.

A viagem de volta não foi fácil. A quantidade de pessoas procurando por Laslos agora era maior. E estava bastante ferido. Seu tronco trazia as marcas das garras de Mephir, e em seus braços as queimaduras provocadas pelo fogo infernal.

A mão mutilada doía muito. O dedo mindinho e o indicador haviam sido decepados, e o anelar talvez nunca mais fosse o mesmo.

Mas o que o preocupava era o veneno da alma de Mephir. A picada da cobra deixou seu braço duro feito gelo, e tão frio quanto. O demônio o avisou que naquela noite ele iria sofrer terrivelmente, mas se sobrevivesse estaria a salvo.

Laslos sentiu que aquilo era verdade. Uma dor de cabeça rondava suas têmporas, seu corpo tremia e ele sentia febre.

Encontrou uma velha cabana abandonada, e resolveu passar a noite ali. Sabia que aquele seria o tipo de lugar que o procurariam, mas precisava descansar imediatamente. Com as poucas forças que lhe sobravam, arrancou algumas tábuas do soalho velho e se deitou na terra abaixo da cabana. Deixou as tábuas caírem, fechando novamente o assoalho, e rezando para que seus perseguidores não fizessem uma busca tão metódica.

- Você não parece bem, meu pequeno. – disse uma voz linda e reconfortante.

- Acho... que estou morrendo.

- É isso que você quer? – perguntou a voz docemente – Quer descansar sua alma?

O menino pensou seriamente na proposta.

- Não... eu tenho... que continuar vivendo. Prometi a mim mesmo.

- Como quiser pequeno. estarei esperando por ti. Não tenho pressa, meu campeão.

Laslos dormiu um sono agitado durante um dia inteiro. A febre chacoalhava seus ossos e seu braço parecia estar sendo passado em um moedor de carne.

Quando acordou, no entanto, sentia-se bem melhor. Lembrava vagamente da voz que lhe falou durante o sono e pensou se aquilo era o que seus irmãos chamavam de sonho. Decidiu perguntar a eles quando voltasse.

Voltar. Essa palavra o fez o pensar em Thaniel e nos meninos e meninas que o esperavam. Sentiu a saudade comprimir seu coraçãozinho, ao mesmo tempo em que lhe dava forças para empurrar as tábuas do assoalho e sair de seu esconderijo.

Voltar para casa. Laslos era órfão, mas iria voltar para casa. Para seu pai e seus irmãos.

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