Capítulo 27
Acampamento
Quando Dawis Hinks acordou, sentiu que o cansaço de toda uma noite de vigília tinha passado. Ele dormira não mais do que quatro horas, algo que estava ficando comum no front de combate, mas sentia-se muito bem disposto. Olhou em volta de sua barraca e ficou satisfeito em ver que seus três companheiros roncavam alto.
Ele tinha sonhado alguma coisa, mas não era um dos Sonhos. Era só um sonho comum, de quando ele matou a Sarracenia Real, seis anos atrás. Ele sorriu lembrando da cara de preocupação de Gabriel quando este o socorreu. A explosão tinha debilitado muito o corpo de Dawis, mas o que importava era que três vidas haviam sido salvas.
É claro, as broncas não tardaram muito. Eles tiverem que ouvir inúmeras vezes a mesma lengalenga sobre terem destruído um monstro raríssimo, sobre como ia ser difícil substituí-lo e tudo o mais.
Os três novos amigos de Dawis quase foram expulsos. Jordan (o menino mais velho), Alex (o mais novo) e Cinthia (a menina de cabelos negros, que mais tarde Dawis descobriu ser a irmã de Jordan). Os três passaram um bom tempo de castigo, se passaram! Mas Dawis era grato por isso, pois a maior parte dos castigos era justamente ajudar Gabriel, o que os deixou mais próximos do menino.
Uma estranha amizade rapidamente se desenvolveu entre eles. Por um lado Dawis sempre foi solitário e nunca tinha brincado com outras crianças. Por outro, o trio desenvolveu uma admiração quase cega pelo garoto, pois sem ele, teriam se transformado em lanche de Sarracenia.
Jordan era arrogante, metido a herói e muito galanteador, mas seu sorriso fácil e seu jeito tagarela atraíram Dawis sem que este pudesse recuar. Já Alex, mais tímido e introspectivo, se mostrou um grande companheiro. Suas gargalhadas cristalinas e deliciosas eram tão raras que geralmente todos paravam de fazer o que quer que estejam fazendo para ouvi-la, não sem deixar escapar um sorriso.
E Cinthia... bem, ela era impetuosa, orgulhosa e extremamente teimosa. Mas também era alegre como só ela, muito peralta e animada. A vida perto dela era muito mais divertida, sua alegria contagiante e sua amizade verdadeira. Era também dona de uma voz linda, e dizia que seu sonho não era apenas ser uma grande arqueira, mas também ser uma grande e famosa cantora. Dawis não tinha dúvida que ela conseguiria.
Afastando o tecido que fechava a tenda, Hinks saiu para o acampamento. Em suas costas pendia uma comprida e robusta lança. O escudo que a acompanhava ficou na tenda; ele só o levava durante um combate. Na sua cintura um grande revólver pendia de um coldre, parecendo muito grande para alguém com a idade dele.
Até onde sua vista alcançava, ele via soldados e alunos de Wingfield começando a acordar e andar entre as muitas tendas. Muitos o cumprimentavam respeitosamente, pois Dawis Hinks já tinha ganhado as divisas de sargento, mesmo tendo apenas 13 anos.
(Nota: Os não nobres que ingressavam ao Exército entravam como Soldados. Destes, os que se destacavam eram promovidos a Sargento (primeiro posto dos oficiais), posteriormente a Alferes, Capitão (oficiais inferiores) e Sargento-Mor (Oficial superior).
- Bom dia Bastos. – disse o garoto, abraçando o cérbero. Bastos fazia a vigília, uma vez que assim como Dawis ele não precisava de muito sono. Ele lambeu o rosto do menino, dando-lhe um belo banho. Ele já alcançava facilmente os ombros de Dawis, e era tão forte e maciço que poderia facilmente carrega-lo nas costas, coisa que já fizera em mais de uma situação.
Enquanto caminhava para o rio, onde ia lavar seu rosto, ele se perguntou pela milésima vez o porquê de terem aceitado ele como sargento. Não que não fosse capacitado, longe disso, mas não achava que pudessem aceitar um garoto dando ordens. Com efeito, quando ele se dirigia aos outros sargentos era frequentemente hostilizado. Odiava isso. Odiava os olhares petulantes, as risadas arrogantes e as piadas sobre sua idade.
Mas se sentia bem
Após lavar o rosto (“desamassar a cara”, como diria Jordan) foi procurar o que comer.
Dirigiu-se ao centro do acampamento, onde uma cozinha foi improvisada em uma cabana de chão de terra. A cabana provavelmente era uma estrebaria que foi “engolfada” pelo acampamento. Havia vários grandes caldeirões, onde uma sopa horrível era feita, mas pelo menos era quente. O inverno vinha sendo rigoroso e muitos prediziam neve para dali uns dias.
- Café da manhã, sargento? – perguntou alegremente o cabo responsável pelo “grude” daquela manhã.
Dawis assentiu. O certo seria o cabo ter batido continência para ele, mas o menino não queria estragar seu próprio bom humor com questões assim.
Recebeu rapidamente um prato com sopa e um pedaço de pão duro. Bastos não ganhou coisa alguma; ele era capaz de caçar um café da manhã muito melhor.
Correu os olhos pelo acampamento enquanto comia sua refeição. Estavam bem instalados ali. O exército de Northfire demoraria ainda alguns dias para chegar, mesmo que viajassem leve (coisa que Dawis duvidava muito) e o acampamento ficava em um planalto. Poderiam ver dali qualquer aproximação, e os inimigos teriam que lutar morro acima, algo não muito agradável.
Percebeu com o canto do olho um movimento em sua tenda. Parece que seus companheiros estavam afinal levantando.
- Vamos, temos um dia cheio pela frente... – falou Dawis para Bastos.
2 comentários:
Welcome back, Dawis.
Muito bom!!!
E as outras cabeças do Bastos, nada ainda?
Pelamordedeus, continua logo, a curiosidade está me matando..
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