sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Capítulo 30


Capítulo 30

Ratos



Com treze aos, Arthur observava a campina que se estendia ao pé do morro. Era uma área vasta, coberta de mato e com algumas árvores aqui e ali. O mato cobria a terra, alcançando facilmente a cintura de um homem adulto. Ou mesmo uma criança. O sol do fim da tarde tingia de dourado a paisagem, emprestando um tom mágico ao lugar do futuro massacre.

Sentado no meio desse matagal, o menino de cabelos castanhos era tão visível como sangue no molho de tomate. Atrás de si estava o acampamento de Northfire, onde “batedores” andavam de um lado para outro ostensivamente.

O menino riu baixinho. Era engraçado ver os adultos fingindo daquela maneira. Será que estavam se divertindo? Ele com certeza estava.

Fazer tocaia era uma coisa demorada. Exigia paciência. Mas Arthur era bom nisso, se era. Assim como muitos Arautos-da-Noite. “O chefe é muito esperto, sim senhor.” pensou a criança, enquanto seus olhos voltavam a procurar inimigos descendo o morro. “Enquanto os adultos brincam de guardar o acampamento, nós matamos os batedores safados...”

Naquele momento, um pio de coruja indicou que um dos períodos de meia hora havia passado, e que era a hora de andar.

Por toda parte, o mato ondulou como se criaturas se movessem furtivamente. Eram crianças como Arthur, se esgueirando pela campina, trocando de posição. Uma medida de segurança, que não deixava as crianças dormir em seus postos e mudava o ângulo dos vigias o tempo todo.

Arthur assumiu sua nova posição e dividiu mentalmente o terreno em sua frente em quadrados. Vigiava cada quadrado de terra por um minuto e depois vigiava o próximo.

Algo lhe chamou a atenção. Um brilho. Rápido. Arthur ficou alerta imediatamente, e sua expressão se tornou grave. Ele era uma criança, mas também era um veterano de guerra. Era um Arautos-da-Morte, e isso queria dizer que ele já lutara em mais de uma batalha.

O brilho se repetiu novamente, e Arthur não teve mais dúvidas. Era o sol batendo em uma superfície metálica. Um elmo? Uma espada? Não importava. Era um brilho metálico, e era hora de agir.

Imitou a cantoria de um pássaro. Para qualquer um aquela cantoria não seria nada, mas para as outras crianças de vigia aquilo era código Morse.

[Brilho. Metal. 25º. Frente. Verificar.]

Vários pios parecidos se elevaram no ar.

[Afirmativo. Contato.]

[Setor leste. Limpo. Oeste. Limpo.]

[Afirmativo. Avançar. Capturar. Avançar.]

Logo o mato ondulou novamente, e se a campina fosse mar com toda a certeza os Arautos seriam tubarões.

As crianças saltaram para fora do mato como um crocodilo ataca sua presa na beira de um rio. Não havia gritos, não havia amadorismo. Eram assassinos, e sua presa não iria escapar.

A adaga de Arthur foi a primeira a encontrar a carne inimiga, e foi seguida por duas, enquanto seis crianças cercavam o lugar e outras duas ficavam a distância. Também foi de Arthur a primeira boca a soltar um xingamento.

- Mas que merda é essa? – xingou o menino olhando a coisa ensangüentada que ele abatera.

Havia um coelho de bom tamanho morto a seus pés, e amarrado a seu corpo uma braçadeira de metal muito reluzente, que fora cuidadosamente lustrada.

- O que isso significa? – perguntou Elisa, uma menina que estava olhando por cima do ombro de Arthur.

- Não sei, mas é me...

Quaisquer palavras que ele tenha dito se perderam na explosão de sangue na qual sua boca se transformou quando uma bala de grosso calibre se alojou em sua cabeça.

A menina gritou. Um grito alto, mas curto, tanto quanto as ultimas palavras de Arthur, porque uma flecha atravessou seu peito com um som abafado, enquanto seus outros colegas eram rapidamente abatidos por outras flechas. Um garoto conseguiu escapar e começou a correr na direção do acampamento, mas um cão enorme, negro como a noite, correu em seu encalço e o derrubou facilmente. O corpo da criança desapareceu no mato alto, mas Elisa viu, com o que restava de sua consciência, a mandíbula vermelha da fera sair do mato enquanto o cão fitava a campina em volta, procurando obviamente por sobreviventes.

Um vulto cobriu a visão dela e a face grave de um garoto entrou em foco, enquanto o ar faltava nos pulmões da menina.

Ela fez força para se manter viva, para a escuridão não engolir sua vida, mas estava difícil. Elisa estava confusa, a face do garoto era muito parecida com a de seu chefe. Ou seria a morte lhe pregando uma peça?

- Chefe...? – balbuciou ela.

- Sinto muito. – disse o garoto com o rosto parecido com o de seu chefe, enquanto dava o golpe de misericórdia na menina.

Os soldados de Dawis se reuniram a sua volta, juntando os corpos dos inimigos e procurando qualquer sinal de que os soldados no acampamento tivessem notado algo. Não tinham, e isso por si só era um milagre, uma vez que magia de Flint para abafar os tiros de sua arma não tinha sido muito eficaz.

Estavam em sete. Dawis, Cinthia, Alex e outros alunos de Wingfield que sempre serviam sob o comando de Dawis.

- Eram crianças... – murmurou Alex.

- Como nós. – lembrou Dawis. – Mataram os batedores que vieram antes e matariam a nós se tivéssemos dado a chance. – o sargento olhou para seus comandos. – Bom trabalho soldados.

Ouvir a voz de seu sargento chamá-los de soldados fez os garotos se sentirem bem. Se tivessem morrido ali, morreriam felizes, pois seu sargento estava feliz por eles. Dawis era o sargento, era o líder. Era quase o pai.

- Vamos terminar o que fizemos aqui. – sentenciou Dawis.

2 comentários:

Anônimo disse...

Essa história está cada vez melhor.. e vc demorando demais para continuar.

O Dawis e os Laslos são parecidos ou são gêmeos?

Ester Grünhagen disse...

cara, essa história está simplesmente fantástica.

Quanta estratégia, quanta técnica, quanta frieza, quanta maturidade..
mee..
Dawis e Laslos são meus heróis..
uahuah
xD