Espiões
Enquanto estudava cuidadosamente os movimentos dos inimigos em seu acampamento, Dawis recarregava sua arma com a habilidade e velocidade de quem já o fizera repetidas vezes. Abaixado no meio do mato, perto de seus amigos e comandos, ele limpava o cano da arma, tirando toda a pólvora queimada e substituindo por uma nova, com delicadeza. Caso colocasse de menos, a arma não iria disparar como devia, e se colocasse demais... Bom, iria correr o risco de perder alguns dedos da mão.
Ele inseriu cuidadosamente a bala de grosso calibre, travou a arma e colocou-a no coldre.
Segundo seus cálculos, a investida contra os ”ratos” levou cerca de onze minutos para ser concluída, contando desde o momento em que as crianças inimigas trocaram de posição. Ele sabia que elas se iriam fazer aquilo de meia em meia hora (ele não havia sonhado com isso?) e uma hora e meia foi o tempo que ele usou para ter certeza. O inimigo era bom em fazer tocaia, e a tática de usar crianças fora excelente, mas eles obviamente tinha se esquecido de que o outro lado também tinha suas crianças talentosas...
Assim como os adultos aliados de Dawis não tinham visto as crianças agachadas no mato alto, por causa do tamanho delas, as próprias crianças não puderam enxergar o grupo de Dawis, que tinha praticamente a mesma altura delas. O que denunciou o grupo defensor foi justamente essa troca de lugares.
- Há mais dessas crianças andando pelo acampamento. – sussurrou Cinthia perto do seu ouvido. O perfume dela tão perto deixou Dawis momentaneamente tonto, mas ele se recuperou rapidamente.
- É... elas são mais perigosas que esses adultos confiantes, é isso o que eu acho. – murmurou ele. – Estão construindo algo no centro. Esta ouvindo as marteladas?
- Sim... mas não da pra ver nada, são muitas barracas. Talvez sejam outras barracas, ou estejam consertando carroças...
Bastos estava deitado do lado dele, se achatando contra o solo para seu tamanho não chamar a atenção. Suas orelhas estavam apontadas para o acampamento, e isso significava que não havia nenhum inimigo por perto que ameaçasse o grupo.
- Cinthia, Alex e Jeff. – chamou o sargento. Jeff era um menino miúdo, como Alex e Cinthia, o que o tornava perfeito para o que ele queria - Quero que se esgueirem até lá – apontou – e descubram o que puderem. Flint, você tem energia para mais algumas magias?
O menino assentiu.
- Bom. Fique aqui e lance algumas bolas de fogo, relâmpagos ou qualquer coisa chamativa para atrair a atenção dos inimigos, caso seja necessário. Se eles correrem em sua direção, não fuja! Estaremos por perto para ajudar, e em últimos casos Bastos pode levar você para longe.
Flint empalideceu, mas assentiu novamente.
- Eu vou para lá. – mostrou uma estrada – Vou ver se descubro pelos rastros na estrada alguma informação interessante. Cliff e Ariel, vocês vão cuidar do perímetro. Avisem-nos caso algo saia dos planos e corram para longe se tudo estiver perdido. Contem tudo o que virem aqui, e terão feito bem o seu trabalho. – Dawis olhou para todos – nos vemos no morro daqui a quinze minutos. Não se atrasem.
Todos bateram continência e foram cada um seguir suas ordens. Bastos quis seguir Dawis, mas este o mandou ficar junto a Flint. Sabia que o garoto podia fraquejar se ficasse sozinho.
Enquanto corria agachado, tentando não fazer muito barulho (algo difícil com sua armadura pesada), Hinks pensou pela milésima vez que o peso da responsabilidade por seus comandos era muito maior que qualquer armadura que ele pudesse vestir...
Cinthia se ajoelhou no limiar do acampamento, ainda escondida pelo mato. Sabia que seu cabelo negro iria se destacar no mato verde e amarelo, mas torcia para que nenhum guarda fosse tão cuidadoso.
“Dawis me mandou aqui. Se ele confia em mim para fazer isso, então eu posso fazer isso.” Pensou ela, enquanto amarrava o cabelo em um coque.
As barracas formavam uma parede que obstruía a visão de qualquer pessoa que olhasse de fora, por isso a garota soldado teria que entrar.
A menina deixou o arco no chão e tirou uma adaga. Quando nenhum guarda olhava naquela direção, ela correu para o acampamento. Seus olhos pulavam de pessoa em pessoa, procurando qualquer sinal de que tinha sido vista.
Abaixou-se rente a uma barraca e esperou. Nada. Olhou para o centro do acampamento e viu os soldados muito ocupados, carregando madeira e outras coisas. Uns poucos vigias estavam de guarda, mas era mais interessante ver os outros soldados trabalhando do que olhar para uma campina vazia.
“Principalmente se acharem que seus rabos estão protegidos.” Pensou sorrindo.
Havia grandes pilhas de madeira. Homens fortes carregavam as pesadas toras para a construção. Cinthia achou que fosse uma torre. Era estranho, uma torre significava que eles iriam manter a posição, mas era o que parecia.
Ela gravou bem na sua memória as formas da construção para contar aos outros. Alex e Jeff provavelmente estavam em algum lugar, vendo o mesmo que ela, mas cada um teria uma visão diferente.
Ela tinha mais um tempinho ainda, por isso resolveu inspecionar algumas barracas...
Alex estava tentando entender porque alguém construiria uma torre em um lugar longe de qualquer cidade aliada. Northfire não tinha de onde tirar mantimentos! Como eles pretendiam se manter?
O menino baixou a cabeça quando um soldado passou por seu esconderijo, atrás de alguns barris. Ele estava carregando um prato de comida, o que deixou Alex desconfiado. Soldados comem em qualquer lugar, geralmente bem próximo de onde ganhou a comida. Eles não levavam para longe...
O soldado entrou foi até uma velha diligencia, onde (só agora Alex percebeu) havia quatro soldados de guarda. O soldado com o prato abriu a portinha, entrou, e quando saiu já não carregava mais o prato.
Curioso, Alex se esgueirou entre as tendas até chegar bem próximo. Não podia se aproximar mais, os guardas estavam de guarda baixa, mas ainda assim bem posicionados. Ele ficou escutando, esperando para ver se algo aconteceria.
E de fato aconteceu.
Jeff percebeu que havia muitas crianças naquele acampamento. Notou também que todas estavam bastante esfarrapadas, e que os adultos não lhes davam mais que um olhar rápido quando por elas passavam.
O menino esfregou terra em sua roupa e resolveu tentar andar normalmente pelo acampamento, para investigar melhor.
Seu plano parecia estar indo muito bem, obrigado. Os soldados não davam atenção às crianças e, desde que ele não falasse com nenhuma delas, poderia passar despercebido.
Ele andou por um tempo entre os soldados tentando pescar partes de conversas. Quando uma das crianças inimigas passava, ele abaixava os olhos.
Ah, se esse garoto não tivesse feito mais do que Dawis Hinks pedia. Talvez algumas das terríveis coisas que aconteceriam a partir dali jamais ocorressem.
Talvez Jeff estivesse vivo até hoje.
Mas Jeff desobedeceu a seu sargento e tentou uma manobra ousada, tentou passar despercebido como um deles.
E teria conseguido, se um rosto não tivesse chamado sua atenção. Era um rosto idêntico ao de seu líder, parecido com o de seu sargento. Sua curiosidade foi tamanha, que Jeff não desviou o olhar desse garoto: ele perdeu preciosos segundos tentando entender o que seus olhos viam.
Foi o tempo que Laslos precisou para notar que nunca tinha visto aquele garoto em sua vida...
2 comentários:
cara!!!
agora sim eu to empolgada
e anciosa pelo próximo capítulo!!!
caracas!!!
"Talvez Jeff estivesse vivo até hoje."
Isso me pareceu bem ao estilo Stephen..
Jeff burrinho, merece morrer mesmo, o mundo, especialmente esse aí, é dos espertos..
Postar um comentário