quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Capítulo 33

Capítulo 33

Confrontos


O pequeno mago caiu de costas no gramado quando o demônio flamejante surgiu diante deles.
- Quer brincar com fogo menino? Vou lhe ensinar a brincar com fogo...
Mephir golpeou na horizontal com sua gigantesca maça, e Bastos se jogou contra seu braço, desviando a trajetória e salvando a vida de Flint.
- Um Cérbero! – gargalhou o demônio – Mas muito jovem para ser um perigo para meu corpo imortal! – com um safanão, Bastos foi atirado longe.
As chamas de Mephir incendiaram o matagal seco, levantando fumaça e chamas a sua volta.
-P-pra trás! – gaguejou o Flint, lançando setas azuis de energia contra o demônio.
O monstro urrou irritado e atacou novamente. Dessa vez a maça atingiu a perna esquerda do menino, estilhaçando os ossos com a mesma facilidade que um elefante esmagaria uma caneca. Flint nem sequer berrou. A dor foi tão absurda que no segundo seguinte ele só sentiu um torpor da virilha para baixo. Seus olhos esbugalharam e ele abriu a boca de maneira cômica, como se perguntasse “onde foi parar a minha perna?”.
O cheiro do sangue do menino inundou as narinas de Mephir, que começou a gargalhar diante da presa fácil.
- Dê adeus a tua vida inútil. – falou, levantando a maça para o golpe final.
A maça nunca chegou a descer. Bastos saltou sobre ele, sua bocarra mordendo e rasgando as mãos de Mephir. – Maldito cão dos infernos, teus dentes não podem ferir-me! – e era verdade. Como demônio, a única maneira de causar dano a Mephir seria usando armar encantadas ou magia. A mão livre do monstro se fechou em volta do pescoço do atacante, trazendo-o até sua frente. – Criatura estúpida! Ainda és jovem demais para se erguer contra mim. Eu vou...

Não sabemos o que Mephir iria fazer, mas sabemos que do lado esquerdo do pescoço de Bastos houve uma explosão de energia roxa e púrpura. Mephir urrou novamente, dessa vez de dor, e largou o Cérbero no chão.
Incrédulo, a criatura flamejante olhou para sua mão e viu um grave ferimento. Algo que não acontecia há séculos. E o causador daquilo se erguia novamente, com um rosnado brutal.
Um rosnado que não saia de uma boca cheia de dentes.
Mas sim de duas.



Alex abateu um garoto de sua idade e, logo após, um soldado que o viu fazer aquilo. Ele corria procurando Cinthia, as duas espadas curtas ensangüentadas nas mãos.
“Droga, o que pode ter dado errado?” se perguntava ele repetidas vezes. “Será que alguém foi pego? Ou será que viram a nossa emboscada e armaram um contra-ataque?”. Não que isso importasse naquele momento. Importava apenas achar Cinthia e fugir.
Encontrou a menina encurralada por quatro crianças. Sem seu arco, Cinthia não era uma boa combatente. Conhecia o básico da esgrima, que não era o bastante para enfrentar tantos oponentes.
As duas espadas curtas silvaram, uma atingindo uma nuca inimiga e a outra errando por centímetros a cabeça de outro inimigo.
Os outros três oponentes se viraram para o menino antes mesmo do corpo da primeira vítima cair. Esses segundos deram a Cinthia a oportunidade de estocar com sua adaga, e um buraco vermelho se abriu em uma barriga.
Alex aparou um golpe, mas se desequilibrou e caiu no chão. Cinthia foi desarmada com um chute, e uma espada abriu um talho em seu ombro direito, fazendo o sangue escorrer generoso.
As duas crianças inimigas atacaram ao mesmo tempo. Cinthia se esquivou de um ataque que visava seu pescoço e respondeu com um chute bem dado na virilha seguido de um na cabeça. Alex desviou outra lâmina e decepou uma perna. Seu oponente ensaiou um grito de dor, mas imediatamente surgiu uma espada perfurando sua jugular e calando-o para sempre.
- Você viu? – ofegou Cinthia.
- Vi o que? – respondeu sem olhar para ela Alex. Ele procurava por mais inimigos e possíveis rotas de fuga.
- O monstro! – sussurrou ela.
- Eu vi... só de relance. Que merda era aquela? – rilhou os dentes o menino - Mas não podemos falar disso aqui. Temos que fugir! Encontrar Dawis e os outros no morro!
- Sim, vamos! – concordou a menina, muito pálida.


Dawis estava agachado entre duas barracas, olhando seus amigos deixarem furtivamente o acampamento inimigo. Recarregava a arma enquanto fazia isso.
Reparou que não havia grupos de crianças correndo por todos os lados: elas corriam sozinhas ou em pares. Nenhuma trazia uma lança. Por isso ele não podia se juntar aos amigos: três crianças chamariam atenção demais sobre si, e uma delas portando uma lança com certeza seria um grande chamariz.
Ele suspirou, olhando em volta. Já tinha reparado na torre sendo construída, e tinha reparado que havia ali material pra fazer outras tantas. Notou também que os focos de incêndio estavam quase controlados, mas que muita fumaça subia do lugar onde Flint deveria estar. O menino rezava para que o mago estivesse bem, assim como Bastos. Ele correria assim que possível para lá, mas antes precisava saber o que aconteceu com Jeff.
Sua linha de raciocínio foi interrompida por um garoto de armadura negra que usava uma espada desproporcional nas costas. Ele andava com passos decididos em direção a Cinthia e Alex. Dawis sentiu um arrepio estranho percorrendo sua espinha, um gosto amargo da boca e uma sensação de que em algum lugar alguém ria do seu destino.
O menino era idêntico a ele, exceto pelo cabelo negro e pelas feições frias.
No momento em que ele se levantou para seguir sua sósia, Dawis viu quatro soldados espancando Jeff. E uma dúvida cruel surgiu: deixar o estranho menino a cargo de Alex e Cinthia e ir salvar Jeff, ou condenar o menino a uma morte terrível e correr no encalço do inimigo?
- Merda, que se dane! – chiou Dawis.
Com sua pontaria imbatível, ele disparou. O projétil guiado por magia acertou em cheio o coração de Jeff.


Laslos estava focado nas duas crianças que tentavam fugir despercebidas do acampamento. As duas tinham matado quatro de seus soldados e ele as faria pagar por aquilo.
Mas o som retumbante de um tiro soou atrás dele, e ele se virou em um salto. Sua percepção aguçada constatou duas coisas: o refém morto e o garoto correndo em sua direção. Ele guardava rapidamente um revólver de grosso calibre e colocava a postos uma grande lança. Mas o mais impressionante era sua aparência: era muito parecido com ele mesmo, exceto pelo cabelo loiro e o olhar cheio de idealismo. Laslos sacou sua grande espada.
- Que venha. – sussurrou o líder dos Arautos da Noite, sem saber por que aquela visão fazia seu sangue correr tão depressa. – Venha e morra!


E no palácio de sonhos, o Lorde de Todos Os Sonhos e Dama Da Ultima Hora se perguntaram: a aposta terminaria naquele dia?

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