quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Capítulo 32

Capítulo 32

Balbúrdia

Os sulcos na estrada mostraram a Dawis que muitas carroças passavam por ali, e com uma grande freqüência. As marcas eram bastantes claras, fundas em alguns pontos e rasas em outros.

Aquele padrão era conhecido do garoto. Ele lembrava bem de um sonho onde serviu de porteiro de uma cidadela mercante. As estradas eram de barro e mostravam os mesmos sulcos, as mesmas marcas.

Os sulcos mais fundos eram carroças carregadas que chegavam ao acampamento. As marcas mais rasas mostravam que essas mesmas carroças saiam dali muito mais leve. Seja lá o que elas traziam ficava no acamamento.

E ele tinha um palpite do que era. Mantimentos. Talvez madeira.

Alguém estava ajudando os soldados inimigos de Southice.

Esse alguém ia ter que pagar.

Laslos fitou o menino estranho, que desviou o olhar assim que foi encarado. Era um espião, com toda a certeza.

Laslos Hinks era o líder absoluto no bando mercenário Arautos-da-Morte e conhecia cada uma das crianças. Eram seus irmãos.

- Mephir... – chamou ele.

A presença do demônio veio até seu mestre imediatamente. O hálito quente e podre bafejou na nuca do garoto, que não tirava os olhos do espião.

- Aquele garoto não é dos meus. – explicou calmamente Laslos – É, provavelmente, um rato de Southice. Mas ratos assim nunca agem sozinhos: eles têm medo e preferem andar em grupos.

O demônio deu uma risada sarcástica. – Você sabe muito sobre ratos desse tipo, não? Afinal, você comanda um grupo deles...

Alguns soldados que ouviram a voz inumana se afastaram amedrontados. Ninguém falava sobre isso, mas todos sabiam que o líder dos Arautos muitas vezes falava com um demônio que ninguém via. Não que alguém quisesse ver, é claro.

O garoto ignorou o demônio.

- Encontre os outros ratos. Mate todos. – mandou, andando em direção ao espião.

Cinthia estava bastante confusa. As barracas estavam lotadas de mantimentos! Não poderia haver tanta comida para o exército inimigo. Eles estavam há muito tempo acampados ali, e um exército gasta horrores em comida.

A garota passou a mão sobre um pedaço de carne seca e percebeu que ainda estava fresco.

Onde eles conseguiam tantos suprimentos?

Ela não teve muito tempo para pensar na resposta. Um vento forte empurrou a lona da entrada da barraca. Um vento quente. Podre.

- O pivete tinha razão. – riu uma voz demoníaca – Há mais ratos nesse acampamento.

O estranho parecido com Dawis andou até ele, e Jeff sentiu seu coração gelar. De perto a semelhança era maior, mas também mostrava que aquele era um cara totalmente diferente.

Primeiro que os cabelos dele não eram loiros como os de Dawis. Eram negros. Segundo que os olhos dele, apesar de tão determinados quanto o do sargento, não eram bondosos. Eram olhos que não viam a bondade do mundo. Só a morte.

O estranho não disse palavra alguma quando se aproximou. Tão pouco disse algo quando com um movimento rápido chutou a virilha de Jeff, e com outro agarrou seus cabelos, puxando com violência forçando-o a continuar ereto. A dor fez lágrimas escorrerem dos olhos de Jeff, e o fez esquecer completamente de onde estava.

- Não me mata não me mata não me mata não me mata! – implorou chorando.

A resposta foi um forte murro no estômago, que fez Jeff se arcar novamente de dor.

- Quantos vocês são? – perguntou Laslos.

- S-só e-e-u, só-sózinho aqui. – disse Jeff.

O sangue esguichou do nariz dele quando Laslos acertou um vigoroso golpe ali.

- Não minta para mim, rato de Southice, ou irei arrancar seu colhões. Quantos vocês são?

- SETE! Somos sete! – gritou o menino desesperado.

Os soldados agora estavam se aproximando da cena, tentando entender porque a criança maldita estava espancando um dos seus. Algumas crianças apareceram e formaram uma roda, gritando insultos ao invasor e fazendo uma balbúrdia infernal.

Alex ouviu Jeff gritando e entendeu que ele estava perdido. Seu primeiro pensamento foi para Cinthia. Ela sabia se virar, mas ele apenas rezava que ela não tivesse a idéia tola de tentar salvar Jeff.

Seu segundo pensamento foi para a diligencia. Os soldados não estavam mais guardando-a: estavam mais interessados no garoto sendo espancado.

Ele correu até a diligência e procurou uma fresta. Encontrou uma de bom tamanho, um buraco feito por um machado e que foi mal remendado.

Olhando lá dentro Alex viu uma moça muito pálida. Era loura e vestia um vestido muito elegante. Mas obviamente estava presa há muito tempo, pois sua roupa estava imunda, seus cabelos mal cuidados e tinha olheiras fundas de quem chorou por muito tempo.

Um grito feminino rasgou o ar e Alex reconheceu ali a voz de Cinthia.

Quando Mephir se materializou na barraca, o ar ficou seco e quente. O cheiro podre se espalhou rapidamente, na mesma velocidade que o coração de Cinthia começou a bater mais forte.

Ela gritou com força, esquecendo todas as lições sobre não se desesperar em combate. Aquela coisa saída do inferno atingiu uma zona da mente da menina onde ela tinha trancafiado a experiência traumatizante com a Sarracenia Real, trazendo o horror daquela noite à tona.

- Humana irritante. Vou calar-te para todo o sempre.

A maça descomunal da besta atingiu violentamente o lugar onde um segundo atrás estava Cinthia. A menina correu para fora da barraca sem se importar com o que encontraria lá fora.

Do seu ponto de observação, Flint viu quando dois garotos começaram a brigar e ouviu quando uma menina gritou.

- Será que é... – perguntou ele a Bastos, e o cérbero latiu preocupado.

O mago anuiu e começou a proferir as palavras de um encantamento, gesticulando primeiro lentamente e depois rapidamente. Ele sentiu o poder correndo por suas veias, fazendo seus dedos formigarem e seu coração se aquecer.

Laslos não tirou o olhar do menino, nem mesmo quando uma menina gritou atrás de si. Nem quando Mephir irrompeu no meio do acampamento, fazendo todos os soldados gritarem de pavor.

- Onde eles estão? – perguntou com a voz calma.

E Jeff, que não sentia nada além da dor, contou.

- TODOS A POSTOS SEUS INÚTEIS! – berrava o comandante Narda, responsável pelo acampamento – O DEMÔNIO É NOSSO ALIADO! VOLTEM A SEUS POSTOS, SEUS CÃES SARNENTOS!

Uma barraca começou a pegar fogo subitamente.

E outra.

Soldados começaram a correr.

- Leve esse rato para a barraca. Amarre-o bem. – ordenou Laslos para um de seus arautos. –Mephir, cuide do mago.

- Pensei que queria que eu matasse alguns ratos...

- Sim. Matar. Não falei nada sobre deixar uma garota inútil fugir e criar todo esse escândalo. Vá matar o mago, ou vou tirar sua vida. – disse Laslos cuspindo no chão.

- Sim meu mestre.

- Timmy. – chamou Hinks.

- Sim meu senhor. – respondeu prontamente um rapaz ruivo.

- Reúna as outras crianças. Quero que metade de a volta na campina e pegue dois garotos que estão como mensageiros de emergência. Eles NÃO PODEM chegar vivos ao acampamento de Southice. Entendeu?

- Sim senhor. E a outra metade?

- Vão procurar os outros espiões. Vá!

Timmy correu cumprir suas ordens.

O líder dos Arautos-da-noite se virou para onde estava Narda, que continuava a gritar ordens inúteis.

“Militar estúpido” xingou mentalmente Laslos, enquanto desembainhava sua espada e andava naquela direção.

Dawis ouviu os gritos e a confusão. Sabia que seus comandos estavam em perigo. Viu Flint usando um feitiço, e pelo jeito era uma magia de incineração.

“Muito bom garoto.” Agradeceu mentalmente, enquanto corria em direção ao acampamento.

Os soldados estavam em pânico total, percebeu ele. Nenhum fez menção de atacar o menino loiro que corria com uma lança em punho.

As labaredas se espalhavam com velocidade impressionante, mas os soldados conseguiam combater o fogo. Parecia impossível encontrar alguém naquela confusão.

- Me ajude aqui com esse balde, pivete. – mandou um soldado, obviamente confundindo ele com um dos arautos da noite. Dawis respondeu com golpe preciso de sua lança na jugular do soldado.

- Ali há um deles! Gritou uma voz estridente e jovial.

Quatro crianças corriam na direção de Dawis, cada uma portando adagas, machadinhas e cimitarras. O sargento viu pelo modo como elas se moviam e pelo jeito que elas o olhavam que eram profissionais.

Lembrou-se do seu escudo na base do morro e xingou a si mesmo por não ter trazido junto. A primeira criança pulou com agilidade do seu lado, aproveitando a força do salto para dar mais força ao golpe. Dawis apoiou sua lança no chão e direcionou a ponta para o ventre do menino, que acabou por se matar.

Uma segunda criança, um rapaz mais velho do que Dawis, fez uma finta e atacou o sargento pelo flanco, aproveitando que a lança estava momentaneamente ocupada. Mas o cano de uma arma surgiu como mágica diante de seus olhos, cuspindo fogo e morte contra a cabeça desprotegida do atacante.

Os outros dois, vendo seus companheiros mortos tão facilmente, andaram obliquamente ao inimigo, um de cada lado, procurando cerca-lo.

Dawis se limitou a soltar sua lança e apontar sua arma para um deles.

A estratégia funcionou como ele queria.

O garoto, um sujeito ruivo, pulou para o lado, pois não conhecia as arma s de fogo. Se conhecesse, saberia que a arma nunca ia disparar sem ser recarregada. A outra criança, uma menina de cabelos curtos, avanço achando que a guarda do inimigo estava baixa. Mas Dawis estava pronto para ela. Ele deu uma coronhada em seu rosto, derrubando-a no chão e tirou ela de combate com um chute na cabeça.

O garoto ruivo tentou fugir, mas a lança voou em seu encalço, perfurando-o nas costas.

Flint continuava usando magia para incinerar as barracas. A magia era simples, apenas fazer um pedacinho da lona esquentar a ponto de entrar em combustão, mas o esforço repetitivo estava esgotando-o.

Um rosnado feroz tirou a sua concentração.

- O que foi Bastos?- perguntou o mago.

Foi quando Mephir se materializou na frente dos dois.

O comandante Narda estava finalmente conseguindo juntar um grupo de soldados para tentar uma contra-ofensiva a seja lá o que estava destruindo a ala norte do seu acampamento.

O acampamento era grande, e comportava centenas de soldados. O fogo já estava controlado e algumas fileiras de escudo se formavam, apesar de ninguém saber de onde vinha o ataque.

Laslos se aproximou de Narda e disse:

- Comandante, meus homens capturaram alguns espiões. Essa não é uma grande ofensiva, não há necessidade para tamanho alarde. Contenha seus homens.

- Escute aqui moleque! – vociferou o comandante – Você é apenas um mercenário, pago para fazer um serviço. Suas crianças NÃO conseguiram guardar bem o pé do morro, como você bem pode ver. Agora saia da minha frente, antes que eu acabe com você!

- São sete inimigos, Narda. – disse com desprezo Laslos. – Se seus homens covardes não tivessem debandado quando viram meu demônio, o fogo não teria se alastrado tanto. Teríamos cuidado de tudo.

- NÃO VOU ADMITIR QUE FALE ASSIM COMIGO! – gritou Narda – VOU REPORTAR SUA INEFICÁCIA AO GENERAL IMEDIATAMENTE! VOCÊ VAI...

- Não grite como uma mocinha Narda. – falou Laslos com sarcasmo – Mande seus homens concertaram os estragos enquanto eu caço os espiões.

- E porque você os caçaria?

- Porque você não iria saber diferenciar os meus Arautos desses espiões. São crianças também.

- Hunf. – ninguém nunca falou com Narda assim, mas não era saudável bater de frente com um garoto que tinha um demônio como bichinho de estimação. Narda engoliu as ofensas, pensando que mais tarde poderia se vingar. – VOCÊS OUVIRAM SEUS BASTARDOS! ARRUMEM ESSA BAGUNÇA!!!

Enquanto os soldados obedeciam, Laslos Hinks começava a sua caçada.

6 comentários:

Anônimo disse...

Oba! um capítulo maior!

Oba! oba! MATANÇA!

Ester Grünhagen disse...

meu..

esses caras são brutos...
uahuahuah
xD

Ester Grünhagen disse...

quase 2 semanas sem um capítulo novo..

não me aguento mais de curiosidade..
hshshshs
XD

Anônimo disse...

Ai ai ai

que demoraaaaaaaaaaaaaaaaa

Ester Grünhagen disse...

Ai ai ai

que demoraaaaaaaaaaaaaaaaa

[2]

Cláudia I, Vetter disse...

Viva Frodo!