Capitulo 3
Praia
Apavorado.
Não há palavra melhor para definir o ânimo de Dawis. Seu tio iria levá-lo no dia seguinte até Wingfield (que na cabeça do menino deveria ser um castelo grande e sombrio, com pedras úmidas, correntes e homens carrascos usando chicotes) e ele não conseguia dormir.
“Não vou conseguir dormir!” pensou desesperado “O tio Jorge me avisou para não aparecer com cara de sono, mas eu não consigo dormir e os homens do Wingfield vão me castigar por isso!”. Mas Dawis é uma criança. É fato que toda criança tem uma facilidade enorme para dormir, o que permite que elas durmam bem mesmo durante uma grande tempestade, durante um velório ou em outras situações estressantes. O jovem Hinks não era exceção à regra. Cinco minutos, depois de seus pensamentos apavorados, dormia um sono profundo.
Na verdade, “profundo” é pouco.
A palavra certa talvez fosse “abismal”. Isso porque Dawis estava entrando mais uma vez no que ele chama de Sonhos.
Em sua cama, Dawis levantou dando um grande bocejo. Ouviu ruídos de mar. Dawis nunca tinha visto o mar pessoalmente, mas já o conhecia de outros Sonhos. Olhou para a porta de seu rancho-quarto e não se surpreendeu ao ver que estava entreaberta e que, apesar de ser noite, a luz do sol entrava abundante. Um pequeno caranguejo deu uma espiada no quarto e estranhando o ambiente (talvez não tenha gostado muito do cheiro, pensou o garoto) saiu apressado.
A empolgação tomou conta do menino. É verdade que os últimos Sonhos foram ruins, mas aquele prometia ser dos bons.
Levantou da cama de um salto. Deu uma olhadinha para traz e por um momento viu seu corpo dormindo ali, mas no momento seguinte não havia nada. Algo que sempre acontecia nos Sonhos.
Abrindo a porta, piscou os olhos para a luz intensa que vinha de fora. Enquanto seus olhos se acostumavam a toda aquela claridade, deixou agradecido o sol banhar seu corpo. Sentiu calor e tirou seu pijama, ficando só de cueca.
“Será que amanhã vou acordar sem pijama?” pensou Dawis. Algumas vezes quando acordava dava falta de alguma coisa ou alguma coisa estava na cama com ele – como na vez em que acordou abraçado a uma flauta, ou da vez que trouxe sem querer um bicho que parecia um besouro. Sorriu ao lembrar da cara da tia Perpétua quando lhe mostrou o bicho.
Ele examinou a praia. Era linda, com gaivotas voando (algo lhe disse que não eram gaivotas. Não sabia muito sobre elas, mas sabia que elas não eram azuis nem tinham quase dois metros de comprimento) e ondas transparentes lambendo docemente a areia finíssima e muito branca.
Algumas palmeiras completavam o cenário, dando um tom verde muito bonito a praia.
Dawis correu pelo areia, feliz por poder brincar num sol tão gostoso.
Ficou catando conchinhas por um bom tempo, até que encontrou uma um pouco maior. Foi tentar levantar, mas ela estava muito bem presa na areia. Começou a cavar a areia em volta, primeiro intrigado e depois maravilhado quando percebeu que era apenas a ponta de uma concha gigante, muito maior que ele!
Cavou, cavou, cavou e cavou.
Uma gaivota-que-não-era-bem-uma-gaivota pousou ali perto e ficou observando, curiosa, o garoto se divertindo.
Quando terminou de cavar, limpou o suor da testa e sentiu a areia grudando na pele. Parecia ter passado horas cavando, mas sentia também que não passara nem cinco minutos desde que começara. Um adulto provavelmente entraria em choque com essa sensação de tempo distorcido, mas como era criança Dawis nem deu bola. As coisas nos Sonhos eram assim e ponto final.
A concha começou a se mexer e Dawis viu que dentro morava um caranguejo enorme! Ou pelo menos algo muito parecido. A coisa olhou ele com olhos que espreitavam das pontas de antenas. Não vendo nada interessante, simplesmente começou a andar de lado em direção a água, arrastando junto sua “casa”.
Dawis deu uma risada empolgada e pulou na concha do bicho! O animal pareceu nem sentir o peso extra e continuou seu caminho.
O caranguejo entrou na água e começou a nadar. Para o garoto parecia que ele estava navegando no barco mais estranho que ele vira na vida!
Ele se sentou em uma reentrância da concha e ficou apreciando a vista. O caranguejo ia entrando mar adentro, mas Dawis não se preocupava.
- É um Ermitão do Mar. – observou uma voz do lado dele.
Dawis se virou para aquela voz sem medo algum. Coisas assim aconteciam sempre.
Ao seu lado estava um homem vestindo apenas um shortinho velho e surrado. Ele era muito queimado do sol e bastante esguio, mas era forte. Tinha cabelos compridos de um loiro pálido, e uma barba rala da mesma cor.
- Você é marinheiro? – perguntou o garoto.
- Não. – respondeu com um sorriso que reluzia a ouro. Dawis notou que alguns dentes deviam ser realmente feitos de ouro – Para ser sincero eu sou um pirata.
Os olhos do jovem Hinks brilharam.
- Um pirata! Eu nunca vi um pirata! – falou empolgado – É bom ser pirata?
- É ótimo! – gargalhou o pirata-com-dentes-de-ouro – Navegar por todos os mares, conhecer cidades distantes, pessoas interessantes... Ser livre! – concluiu ele, abrindo bem os braços como se pudesse sair voando.
- E onde está seu barco?
- Ali adiante! – apontou ele.
Quando o caranguejo gigante passou perto do barco, os dois pularam na água e nadaram até lá. Mãos fortes e queimadas do sol os tiraram da água.
- Bem vindo a bordo capitão! – bradaram vários piratas.
- Quero que conheçam meu novo amigo. – disse o capitão – Qual seu nome, pequeno?
- Dawis Hinks!
- Muito prazer jovem Dawis! Eu sou o capitão Alcatino Caninos-de-Ouro – apertou sua mão e deu a ele mais um de seus sorrisos dourados – Gostaria de conhecer o navio?
Mostre-me uma criança que não gostaria de conhecer um navio pirata e eu lhe mostro um anão de jardim disfarçado de criança...
O capitão Caninos-de-Ouro mostrou todo o navio e respondeu calmamente (e com um que de divertido) cada uma das inúmeras perguntas do garoto. E ainda achou tempo para ensinar Dawis a como lutar com espadas.
- Sempre que estiver lutando tome muito cuidado com a sua guarda! Depois de defender um golpe, não se descuide! – riu o pirata, achando graça dos esforços de Dawis para se defender dos falsos ataques.
Ficaram brincando de duelar por muito tempo. Mas Dawis sentiu que era hora de voltar. Não sabia como, simplesmente sentia quando devia ir.
- Preciso ir Alcatino. Obrigado por me ensinar tanta coisa! – falou Dawis sinceramente agradecido.
- Eu que agradeço! – gargalhou o pirata – Venha me visitar quando quiser!
Dawis pulou na água e começou a nadar. Era uma distância muito longa dali até a praia, mas no instante seguinte já estava saindo da praia. Passou pelo buraco na areia onde antes estivera o Ermitão, entrou no próprio quarto e se deitou na cama. Estava cansado, mas também muito feliz. Ele começou a cair no sono e...
... acordou com as batidas insistentes na porta.
- Anda moleque! Se arruma que precisamos viajar! – trovejou a voz de seu tio Jorge.
Pelas frestas da porta viu que já era dia. Baixou os olhos para sua cama e não ficou muito surpreso quando não viu seu pijama. Mas ficou bem espantado quando notou que seus pés estavam cheios de areia...
3 comentários:
Céus!
Estou curtindo.
Não vejo a hora de entrar o personagem que é "manipulado" pela Dona morte.
Mucho Bueno!
Como era de se esperar mto bom :)
nusss
esta muito bom!
gostei mesmo
não vejo a hora de ler os proximos ^^
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