Capítulo 17
Sarracenia Real
Todos os alunos de Wingfield já estavam na praça central, esperando pela cerimônia. O burburinho de excitação que vinha de lá podia ser ouvido de longe, até mesmo do lugar onde Dawis e Bastos estavam.
O menino queria estar lá, junto dos futuros colegas de classe, mas fora praticamente raptado pelo cozinheiro chefe, que decidiu que precisava de um ajudante para manter o fogo da fornalha onde grandes pedaços de carne eram assados para o banquete que viria mais tarde naquela noite.
- Não fique ai sonhando acordado garoto, não pare de abanar esse fogo! – ralhou o gordo cozinheiro chefe, e o menino abanou mais rápido, se perguntando quanto tempo conseguiria antes de seus braços simplesmente caírem.
A Diretora Helen passou pela cozinha e trocou algumas palavras rápidas com o cozinheiro. Ele disse que sim, estava tudo pronto e não, não faltaria comida, nem esta atrasaria. A mulher olhou o gordo de cima de seu nariz arrogante e deu um sorriso, do tipo você-é-muito-bom-mas-se-falhar-eu-te-mordo. Entendendo o recado, o cozinheiro voltou a garantir que tudo estava certo, e nada daria errado.
Ela deu meia volta e foi embora apressada, seus sapatos salto-alto fazendo uma sucessão de rápidos “tlocs-tlocs”. O gordo ficou parado, pensando, quando Dawis o chamou.
- S-senhor... - gaguejou o menino. O cozinheiro o olhou claramente insatisfeito por ser interrompido de seus pensamentos - E-eu preciso ir, sabe, a cerimônia vai começar em instantes e eu p-precisava tomar um banho sabe, estou todo suado e... – calou-se diante do olhar exasperado do adulto.
- Sim eu sei moleque. Vá! Suma da minha frente! – disse o cozinheiro-chefe, já se virando para o uma panela borbulhante enquanto resmungava algo como “... aquela maldita tirana arrogante, ela vai ver...”.
Sem perder tempo, o menino correu da grande cozinha, e Bastos o seguiu, língua dependurada e garras raspando o chão enquanto corria atrás. Os dois seguiram por um corredor, e viraram a esquerda, indo parar em um salão. O lugar era proibido para alunos, mas era também um ótimo atalho. Correndo pelas mesas atulhadas de instrumentos cirúrgicos, Dawis calculou que ganharia talvez um ou dois minutos passando por ali, sem precisar dar toda a volta no prédio.
Saiu por uma porta que dava para os fundos da casa de Gabriel. O gigante parecia não estar em casa, pois a casa estava às escuras.
Mas então porque havia luz dentro do bosque, nos viveiros de monstros?
O menino entrou na sala, procurando algum sinal e deu pela falta do terno velho que Amaranth havia pendurado na porta entre a sala e a cozinha. Isso significava que ele já havia vestido ele, e que muito provavelmente já estava com os outros professores. Gabriel podia ser rústico, mas não ia arriscar entrar no bosque e sujar seu terno limpo.
Então quem estava lá? Ou Gabriel tinha apenas esquecido a luz acesa? Não, pensou o menino, Gabriel nunca esquece nada quando o assunto são os monstros. Ele era profissional demais para isso.
Temendo que algo estivesse muito errado, Dawis procurou em volta algo para usar como arma. Havia o gigante machado, mas este era muito pesado. Havia também o escudo com as duas espadas. Agarrou apenas uma e verificou o fio dela. Apesar de um pouco empoeirado, estava bem afiado.
- Vem Bastos, vamos dar uma olhada no bosque. – disse ele, já correndo novamente, em direção ao bosque.
Quando chegou à entrada que Gabriel havia lhe mostrado no primeiro dia, teve certeza que seu mau pressentimento era verdadeiro. O portão estava aberto, sendo que a única chave estava em sua mão. Olhou de perto e viu que o ferrolho foi derretido. Uma palavra veio a sua boca, mas não foi proferida. “Magia”.
Fez sinal para o cérbero ficar calado e ir na frente. Bastos entendeu e foi, seus olhos vermelhos brilhando ligeiramente sobre a luz artificial do corredor. Silenciosamente os dois percorreram o corredor, indo até os três portões.
E sim, para o desespero de Dawis, o portão do meio, aquele que leva para as jaulas dos monstros reprodutores, os mais perigosos de toda Wingfield, estava aberto.
Gabriel Amaranth, vestindo um antiquado, mas ainda garboso, terno escuro estava olhando ansioso em volta, procurando no meio de todas aquelas crianças e adolescentes por seu pupilo. Achou que seria fácil encontra-lo no pátio central, afinal não são muitos os garotos que andam para cima e para baixo com um cão que chega a sua cintura. Não em Wingfield.
- Onde está você, Dawis? – bufou o gigante. Talvez ele ainda estivesse na sua casa, pensou ele. Gabriel estava muito curioso sobre qual a decisão do menino sobre as especializações. Achava que sabia qual seria, mas não via à hora de ter certeza.
Ele não sabia, mas estava se portando como um dos mais comuns e tocantes exemplares da raça humana: Um Pai Coruja.
Impaciente, decidiu que se não o acha-se dentro de cinco minutos ia procurar em sua casa.
Bastos farejou a entrada do portão do meio, e deu uma fungada exasperada. Olhou para Dawis e com um olhar passou sua mensagem: havia estranhos ali.
Não que ele tivesse dito isso. Mas o menino sentia que sim, ele havia dito, ou pelo menos queria ter dito. Por isso assentiu e fez um sinal para irem mais devagar.
Os dois entraram no portão, tomando o cuidado para não fazerem qualquer barulho. Dawis estava bastante assustado, nunca havia entrado ali e tinha um terror quase sobrenatural do lugar. Não sabia o porquê, mas tinha.
O corredor era de tijolos grandes e sólidos, portões de ferro blindado, todos maiores que o próprio Gabriel e tão largos que se o gigante abrisse os braços seria preciso mais do que dois dele para tocar as duas extremidades.
Em cada um havia um aviso onde se lia: “Perigo, Grifo-da-Montanha imperial”, ou “Perigo, Khezus adultos” ou “Cobras-de-Nára em época de reprodução” e assim por diante. Todas pareciam ter sofrido uma tentativa de arrombamento, sem sucesso.
Algumas vozes indicaram que os arrombadores estavam mais a frente, tentando arrombar outro portão.
E que surpresa ao ver que não passavam de alunos!
Eram dois meninos e uma menina. O mais alto e loiro dos garotos devia ser uns quatro anos mais velho do que Dawis, e o outro, com um cabelo amarronzado, devia ser apenas 1 ano mais novo que Dawis. A menina parecia ter a mesma idade, embora fosse difícil dizer, pois seus cabelos pretos cobriam parte de seu rosto.
Estavam desenhando runas na porta.
Quando Dawis ia gritar com eles, eles se afastaram do portão e houve uma pequena explosão. O portão caiu pesadamente para trás, pois a magia o havia tirado de seus carrilhos.
- Desta vez conseguimos! – sussurrou o mais velho triunfante, como se adiantasse falar baixo depois do barulho de uma explosão como aquela e do som metálico de um portão caindo no chão de pedra...
- Então não vamos perder tempo, vamos entrar e ver o monstro! – respondeu no mesmo volume a menina. Os outros dois assentiram e logo o trio estava pulando o portão.
- Merda! – bufou Dawis, indo atrás.
Antes de entrar, ele leu na placa, não sem sentir novamente um arrepio: “Perigo: Sarracenia Real.”.
Gagriel demorou mais tempo do que Dawis para chegar em casa, pois não conhecia os atalhos de Wingfield. Isso era facilmente explicado porquê ele não passava os dias explorando todos os cantos, mas sim trabalhando pesado.
Quando entrou em sua casa, viu a roupa que Dawis deveria usar ainda dobrada em cima da cama do menino. Isso preocupou o gigante, que tinha ido ali buscar seu machado para punir quem quer que tenha ido até o bosque sem sua permissão. E a raiva fez doer sua cabeça quando viu que faltava uma espada.
- O que você está aprontando Dawis? – disse para ninguém o gigante ruivo enquanto saia de casa.
- Hei vocês! – gritou Dawis.
Os três estancaram no mesmo lugar. Viraram-se lentamente, esperando uma bronca ou um castigo fenomenal de algum professor. Mas suspiraram aliviados quando viram que era apenas um menino.
- O que você quer pirralho? – perguntou de maneira petulante o mais velho – Vá para a praça principal, pirralho, aqui não é o lugar para crianças choronas.
Bastos rosnou para o rapaz e ele se encolheu todo. Dawis estava bufando de raiva.
- Pirralho? Eu sou um pirralho? E você é o que? Só um babaca suicida! O que vocês pensam que tem aqui? Um pônei cor-de-rosa?
- Ora, não banque o certinho! – gritou de volta a menina – Nós fazemos o que queremos! Quem é você para nos dizer o que fazer? – ela tinha olhos negros, quase tanto quanto seus cabelos, e uma pele muita branca.
- Oras, eu... – Dawis não completou a frase. Esta se perdeu em um turbilhão de medo.
Pois Dawis sentira uma lufada de vento. Quente, úmida e carregada de violência.
- Eu o que? – desafiou a menina.
Os sentidos de Dawis se aguçaram a ponto dele sentir seus dedos formigarem. A raiva pelos três invasores foi substituída por um sentimento de urgência.
Parecia que um véu havia caído dos olhos dele. Agora ele enxergava melhor o lugar em que estava.
Era uma câmara circular, tão vasta que com a pouca luminosidade do lugar ele não conseguia ver o fim. O chão era de pedras no início, junto ao portão, mas acabava a uns três metros dele dando lugar ao barro batido. Algumas folhas caídas do chão, em volta de três árvores, disposta em formato de triângulo. A ultima só era visível por causa de sua vasta copa, pois estava bem perto do fim do viveiro, onde Dawis não enxergava.
Mais uma lufada de vento quente.
- Que vento quente é esse? – perguntou o menino mais novo, que até agora não falara nada.
Dawis não respondeu. Ele estava olhando para o chão e logo encontrou o que temia. Cipós. Vários. Estendiam-se como uma teia de aranha pelo chão, e subiam pelas paredes de pedra e árvores. Hinks olhou para cima e viu que chegavam quase até o topo das paredes. Acima delas só a noite estrelada.
- Vamos embora! – sussurrou Dawis para os três – Estamos em perigo mortal, precisamos sair daqui!
A menina estava pronta a rir da idéia, mas algo no jeito de Dawis pareceu fazer ela se calar. Era uma sensação de urgência nos olhos dele. E de terror também.
Mas o mais velho não tinha essa sensibilidade e gargalhou alto.
- Acha mesmo que vamos dar ouvidos a você, pirralho? – riu ele – Saiba que nós...
Esta frase também se perdeu. Não por causa de uma lufada de vento. Mas por um cipó que estalou como chicote contra o peito dele, jogando-o na terra.
Houve gritos. Sempre há. Tudo pareceu correr em câmera lenta, e Dawis viu um cipó se enrolar na perna da menina e a boca dela formar um “o” de espanto. Viu o outro menino tentando soltar o cipó do tórax o mais velho, e viu-o sendo rechaçado como uma mosca.
Acima de tudo, ele finalmente viu a bocarra. A planta maldita, a Sarracenia Real, estava camuflada no centro das árvores. Não tinha sido visto ela, pois não passava de uma mancha escura em um lugar escuro (“Porque não havia luz ali?” pensou ele “Porque só havia luz no corredor?”).
E o medo foi substituído pela fúria. Pura e quente. Aquela planta o perseguia em seus sonhos, o fazendo sentir dores indescritíveis. A maldita. Por noites e noites. E agora ela estava ali.
Enquanto os três eram içados no ar, Dawis Hinks não recuou como qualquer pessoa normal teria feito. Ele apertou o punho de sua espada (que era grande demais para ele) e correu decidido para a bocarra que o esperava.
O chifre do monstro, por onde saía a gosma grudenta, começou a inchar, enquanto os cipós se contorciam em volta do menino. Um deles cortou o ar horizontalmente, mas foi prontamente partido em dois pela lâmina do garoto. Outro tentou se enroscar na sua perna, mas Bastos o mordeu com vontade. Isso fez com que alguns dos cipós deixassem de atacar o menino e passassem a atacar o cérbero.
Dawis agradeceu mentalmente a distração e continuou em direção à criatura. O tiro de gosma veio, e assim como em seu sonho Dawis o cortou com a espada junto ao corpo. Outros tiros vieram, mas Dawis conhecia a velocidade deles, bem como o tempo entre cada um. Havia feito aquilo tantas vezes que podia se considerar um especialista em se desviar daquilo.
Só que ele nunca tinha vencido.
Mas dessa vez, quando ele desceu a espada contra a criatura, seu rugido fez a lâmina irromper em chamas (Não usamos, nós somos) e uma grande explosão engolfou os dois, atirando o menino longe e fazendo a planta soltar suas outras vítimas.
Para a decepção de Dawis sua magia teve somente o efeito de chamuscar as folhas do monstro, que com um estranho urro recomeçou a atirar sua gosma, dessa vez mais rapidamente do que antes.
Ele se esquivou de algumas, mas já estava cansado. Não conseguia manter o ritmo. A magia havia consumido boa parte de suas forças. Uma bola de gosma verde o atingiu no braço, e a força dela o fez girar. Ele rolou de lado para se desviar da próxima.
Então percebeu o que devia fazer.
Ele ficou de pé. Segurou a espada novamente junto ao corpo, como um antigo templário segurando sua arma. A lâmina passava junto a seu nariz, entre seus olhos praticamente. Ele inspirou seu cheiro metálico.
E se virou de costas ao monstro.
Logo o baque da gosma o lançou por terra. A gosma prendeu seus braços junto ao corpo, e queda fez a espada cortar seu rosto, mas ele não sentiu dor. Não ainda.
A Sarracenia Real “pescou” Dawis pelas pernas com seus cipós e o içou até a boca. De cabeça para baixo, ele viu os dentes pontiagudos. Ele sentiu o hálito quente e fétido. E sorriu.
A menina dos cabelos negros gritou desesperada quando a planta engoliu o menino que ela não conhecia. Lagrimas de terror escorriam de seus olhos.
Ela se levantou trêmula enquanto a coisa começava a fazer sons nauseabundos de mastigação.
Foi quando aconteceu. Por um segundo um som gutural saiu da boca do monstro. Depois outro. Fumaça saía da boca da Sarracenia Real.
E a poderosa Sarracenia explodiu.
-Mas que menino esperto... – comentou uma voz linda, de uma mulher de cabelos negros como o espaço vazio, vestida com um deslumbrante vestido de gala tão negro quanto a profundeza do mar, que saiu assobiando do lugar sem ser ouvida ou notada pelo trio de crianças fitando boquiabertos o fim da grande batalha.
Um comentário:
ah! eu disse que a serracenia (ou "o negócio", na época) ia se tornar real! há :D
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