Capítulo 29
Dawis encontrou seus três comandos na cabana-cozinha. Cinthia tagarelava com Alex, enquanto Flint remexia seu prato com uma expressão desgostosa. Bastos deitou na terra e ficou observando o acampamento, enquanto o sargento sentava em uma das inúmeras toras jogadas pelo chão, que serviam de banco para os soldados.
- Podem continuar comendo. – disse Dawis – Apenas escutem o que lhes digo, e mantenham suas bocas cheias de comida. É só o que eu peço.
Os três assentiram.
- Bom. O exército está esperando um ataque de Northfire, mas este não aconteceu ainda. Não sabem o que está havendo. Segundo nossos batedores eles não estão longe. Uns dois dias de viagem, três se estiverem carregando muitos mantimentos. Mas eles estão parados no mesmo lugar há mais de quatro dias.
- E por que eles não vieram então? – perguntou Flint de boca cheia.
- Não sabemos... – suspirou Dawis, parte porque era frustrante não ter a resposta dessa pergunta, parte porque Flint o interrompeu quando não precisava. – Fato é que a posição não é vantajosa para nenhum dos lados. Nós estamos perdendo um tempo precioso aqui. – fez um gesto abrangendo o acampamento. – É claro que lutar morro acima é desvantajoso para eles, mas o que eles querem? Sitiar-nos no pé do morro? Eles não devem ter tantos mantimentos. Não há cidades próximas que sejam aliadas de Northfire, e o inverno está chegando rapidamente.
Uma corneta soou ao longe indicando a troca de turnos. Alguns soldados levantaram, pegaram suas armas e foram para seus postos de vigia.
- Nós vamos descobrir. Os batedores mandados nos dias anteriores não voltaram e os generais acham que isso indica que eles estão fazendo emboscadas. – Dawis pensou que devia ser exatamente isso que eles estavam fazendo. É muito fácil tocaiar batedores individuais. – Por isso nos escalaram para ir lá. Temos boa experiência de campo, somos um grupo de seis pessoas e temos usuários de magia entre nós. E... bom, somos perfeitos para resolver o caso.
- Tem mais alguma coisa, não? – perguntou Cinthia olhando para ele intensamente. Dawis pensou, não pela primeira vez, que ele era um livro aberto para aqueles olhos esverdeados...
- Sim. – bufou Dawis – Eles não querem mais perder soldados bons, por isso estão nos mandando. Porque somos alunos de Wingfield, descartáveis. “Se alguns morrerem sempre haverá outros para substituí-los”. Ah sim, assim pensam eles.
- Nojentos... – cuspiu Cinthia.
- Era de se esperar. – falou Alex coçando o queixo – Eles nos vêem como crianças ainda (coisa que ainda somos com orgulho). Mas esquecem que essas crianças já fizeram um bocado de coisas, é ou não é?
- Éééééé. – concordou Dawis com um sorriso – Já chutamos algumas vezes as canelas do exército de Northfire.
- E qual o plano? – perguntou Flint.
O sargento pensou com cuidado. Aquela situação lhe era familiar. Ele se recordava de um Sonho onde um exército de ratinhos estava tocaiando alguns gatos, e estes jamais voltavam ao exército felino.
No seu Sonho, Dawis liderou um grupo de gatos até o acampamento inimigo, e usando de certa estratégia ele venceu os ratos...
Mas aquele não era um Sonho, nem os inimigos eram ratos (pelo menos não no sentido literal). O garoto confiava muito
- E então Dawis? – insistiu Cinthia.
- Vou ser sincero, tanto quanto eu puder. – disse bem devagar o garoto - Tenho uma idéia de como esses ratos estão tocaiando nossos soldados e sei como proceder se assim for. Mas...
- Mas se você estiver enganado estamos mortos, certo? – terminou por ele Alex.
- Sim. Estaremos. Chegaremos ao fim da correnteza da vida, e que a Serpente Anfah tenha uma boa indigestão.
(nota: Segunda a crença popular, a vida é um rio que deságua no Mar Rubro, o mar dos Mortos. Lá a Serpente Marinha Anfah espera por todos os mortos, onde ela come suas carcaças e cospe suas almas)
- Claro, porque não? – respondeu acidamente Flint – Vamos arriscar nossas vidas em um palpite qualquer, se morrermos tudo bem!
- Ah claro, vamos fazer uma ação padrão como os outros batedores e confiar que sua magia, ó grande mago poderoso, seja o bastante para nos salvar. – falou Cinthia sarcástica.
As faces de Flint pareciam pegar fogo quando ele se levantou berrando.
- Seguir os conselhos de um MALUCO SUÍCIDA pode ser bom para vocês, mas não PARA MIM!!!
Não houve tempo para a reação de Flint. Antes que ele pudesse sequer fechar a boca após seu histérico “MIM”, o punho de Dawis acertou seu estômago com força. O mago se dobrou em dois, e soltou um gemido surpreso.
- Não me importo de ouvir qualquer tipo de crítica sobre o modo como eu comando. – disse Dawis friamente – Mas não sou suicida e recomendo mais respeito com seu sargento. Estamos em um exército cacete, somos parceiros, mas ainda temos a droga de uma hierarquia.
Flint estava pálido, visivelmente arrependido. Dawis também se arrependeu, um pouco, pelo golpe. O garoto estava ali obrigado pelo pai, mas também não podia agir dessa maneira.
- Flint, me desculpe, mas eu não posso aceitar algumas atitudes suas como soldado.
- Certo, sargento, o que faremos? – perguntou muito sério Alex, como era natural dele.
- Nós vamos caçar alguns ratos. – respondeu simplesmente Dawis Hinks.
2 comentários:
(nota: Segunda a crença popular, a vida é um rio que deságua no Mar Rubro, o mar dos Mortos. Lá a Serpente Marinha Anfah espera por todos os mortos, onde ela come suas carcaças e cospe suas almas)
Nooooooooooosssaaaaaaaaaaaaaa!
"Nós vamos caçar alguns ratos."
Fico toda empolgada com capítulos que terminam assim..
e curiosa também.
hshshshs
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