quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Capítulo 33

Capítulo 33

Confrontos


O pequeno mago caiu de costas no gramado quando o demônio flamejante surgiu diante deles.
- Quer brincar com fogo menino? Vou lhe ensinar a brincar com fogo...
Mephir golpeou na horizontal com sua gigantesca maça, e Bastos se jogou contra seu braço, desviando a trajetória e salvando a vida de Flint.
- Um Cérbero! – gargalhou o demônio – Mas muito jovem para ser um perigo para meu corpo imortal! – com um safanão, Bastos foi atirado longe.
As chamas de Mephir incendiaram o matagal seco, levantando fumaça e chamas a sua volta.
-P-pra trás! – gaguejou o Flint, lançando setas azuis de energia contra o demônio.
O monstro urrou irritado e atacou novamente. Dessa vez a maça atingiu a perna esquerda do menino, estilhaçando os ossos com a mesma facilidade que um elefante esmagaria uma caneca. Flint nem sequer berrou. A dor foi tão absurda que no segundo seguinte ele só sentiu um torpor da virilha para baixo. Seus olhos esbugalharam e ele abriu a boca de maneira cômica, como se perguntasse “onde foi parar a minha perna?”.
O cheiro do sangue do menino inundou as narinas de Mephir, que começou a gargalhar diante da presa fácil.
- Dê adeus a tua vida inútil. – falou, levantando a maça para o golpe final.
A maça nunca chegou a descer. Bastos saltou sobre ele, sua bocarra mordendo e rasgando as mãos de Mephir. – Maldito cão dos infernos, teus dentes não podem ferir-me! – e era verdade. Como demônio, a única maneira de causar dano a Mephir seria usando armar encantadas ou magia. A mão livre do monstro se fechou em volta do pescoço do atacante, trazendo-o até sua frente. – Criatura estúpida! Ainda és jovem demais para se erguer contra mim. Eu vou...

Não sabemos o que Mephir iria fazer, mas sabemos que do lado esquerdo do pescoço de Bastos houve uma explosão de energia roxa e púrpura. Mephir urrou novamente, dessa vez de dor, e largou o Cérbero no chão.
Incrédulo, a criatura flamejante olhou para sua mão e viu um grave ferimento. Algo que não acontecia há séculos. E o causador daquilo se erguia novamente, com um rosnado brutal.
Um rosnado que não saia de uma boca cheia de dentes.
Mas sim de duas.



Alex abateu um garoto de sua idade e, logo após, um soldado que o viu fazer aquilo. Ele corria procurando Cinthia, as duas espadas curtas ensangüentadas nas mãos.
“Droga, o que pode ter dado errado?” se perguntava ele repetidas vezes. “Será que alguém foi pego? Ou será que viram a nossa emboscada e armaram um contra-ataque?”. Não que isso importasse naquele momento. Importava apenas achar Cinthia e fugir.
Encontrou a menina encurralada por quatro crianças. Sem seu arco, Cinthia não era uma boa combatente. Conhecia o básico da esgrima, que não era o bastante para enfrentar tantos oponentes.
As duas espadas curtas silvaram, uma atingindo uma nuca inimiga e a outra errando por centímetros a cabeça de outro inimigo.
Os outros três oponentes se viraram para o menino antes mesmo do corpo da primeira vítima cair. Esses segundos deram a Cinthia a oportunidade de estocar com sua adaga, e um buraco vermelho se abriu em uma barriga.
Alex aparou um golpe, mas se desequilibrou e caiu no chão. Cinthia foi desarmada com um chute, e uma espada abriu um talho em seu ombro direito, fazendo o sangue escorrer generoso.
As duas crianças inimigas atacaram ao mesmo tempo. Cinthia se esquivou de um ataque que visava seu pescoço e respondeu com um chute bem dado na virilha seguido de um na cabeça. Alex desviou outra lâmina e decepou uma perna. Seu oponente ensaiou um grito de dor, mas imediatamente surgiu uma espada perfurando sua jugular e calando-o para sempre.
- Você viu? – ofegou Cinthia.
- Vi o que? – respondeu sem olhar para ela Alex. Ele procurava por mais inimigos e possíveis rotas de fuga.
- O monstro! – sussurrou ela.
- Eu vi... só de relance. Que merda era aquela? – rilhou os dentes o menino - Mas não podemos falar disso aqui. Temos que fugir! Encontrar Dawis e os outros no morro!
- Sim, vamos! – concordou a menina, muito pálida.


Dawis estava agachado entre duas barracas, olhando seus amigos deixarem furtivamente o acampamento inimigo. Recarregava a arma enquanto fazia isso.
Reparou que não havia grupos de crianças correndo por todos os lados: elas corriam sozinhas ou em pares. Nenhuma trazia uma lança. Por isso ele não podia se juntar aos amigos: três crianças chamariam atenção demais sobre si, e uma delas portando uma lança com certeza seria um grande chamariz.
Ele suspirou, olhando em volta. Já tinha reparado na torre sendo construída, e tinha reparado que havia ali material pra fazer outras tantas. Notou também que os focos de incêndio estavam quase controlados, mas que muita fumaça subia do lugar onde Flint deveria estar. O menino rezava para que o mago estivesse bem, assim como Bastos. Ele correria assim que possível para lá, mas antes precisava saber o que aconteceu com Jeff.
Sua linha de raciocínio foi interrompida por um garoto de armadura negra que usava uma espada desproporcional nas costas. Ele andava com passos decididos em direção a Cinthia e Alex. Dawis sentiu um arrepio estranho percorrendo sua espinha, um gosto amargo da boca e uma sensação de que em algum lugar alguém ria do seu destino.
O menino era idêntico a ele, exceto pelo cabelo negro e pelas feições frias.
No momento em que ele se levantou para seguir sua sósia, Dawis viu quatro soldados espancando Jeff. E uma dúvida cruel surgiu: deixar o estranho menino a cargo de Alex e Cinthia e ir salvar Jeff, ou condenar o menino a uma morte terrível e correr no encalço do inimigo?
- Merda, que se dane! – chiou Dawis.
Com sua pontaria imbatível, ele disparou. O projétil guiado por magia acertou em cheio o coração de Jeff.


Laslos estava focado nas duas crianças que tentavam fugir despercebidas do acampamento. As duas tinham matado quatro de seus soldados e ele as faria pagar por aquilo.
Mas o som retumbante de um tiro soou atrás dele, e ele se virou em um salto. Sua percepção aguçada constatou duas coisas: o refém morto e o garoto correndo em sua direção. Ele guardava rapidamente um revólver de grosso calibre e colocava a postos uma grande lança. Mas o mais impressionante era sua aparência: era muito parecido com ele mesmo, exceto pelo cabelo loiro e o olhar cheio de idealismo. Laslos sacou sua grande espada.
- Que venha. – sussurrou o líder dos Arautos da Noite, sem saber por que aquela visão fazia seu sangue correr tão depressa. – Venha e morra!


E no palácio de sonhos, o Lorde de Todos Os Sonhos e Dama Da Ultima Hora se perguntaram: a aposta terminaria naquele dia?

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Capítulo 32

Capítulo 32

Balbúrdia

Os sulcos na estrada mostraram a Dawis que muitas carroças passavam por ali, e com uma grande freqüência. As marcas eram bastantes claras, fundas em alguns pontos e rasas em outros.

Aquele padrão era conhecido do garoto. Ele lembrava bem de um sonho onde serviu de porteiro de uma cidadela mercante. As estradas eram de barro e mostravam os mesmos sulcos, as mesmas marcas.

Os sulcos mais fundos eram carroças carregadas que chegavam ao acampamento. As marcas mais rasas mostravam que essas mesmas carroças saiam dali muito mais leve. Seja lá o que elas traziam ficava no acamamento.

E ele tinha um palpite do que era. Mantimentos. Talvez madeira.

Alguém estava ajudando os soldados inimigos de Southice.

Esse alguém ia ter que pagar.

Laslos fitou o menino estranho, que desviou o olhar assim que foi encarado. Era um espião, com toda a certeza.

Laslos Hinks era o líder absoluto no bando mercenário Arautos-da-Morte e conhecia cada uma das crianças. Eram seus irmãos.

- Mephir... – chamou ele.

A presença do demônio veio até seu mestre imediatamente. O hálito quente e podre bafejou na nuca do garoto, que não tirava os olhos do espião.

- Aquele garoto não é dos meus. – explicou calmamente Laslos – É, provavelmente, um rato de Southice. Mas ratos assim nunca agem sozinhos: eles têm medo e preferem andar em grupos.

O demônio deu uma risada sarcástica. – Você sabe muito sobre ratos desse tipo, não? Afinal, você comanda um grupo deles...

Alguns soldados que ouviram a voz inumana se afastaram amedrontados. Ninguém falava sobre isso, mas todos sabiam que o líder dos Arautos muitas vezes falava com um demônio que ninguém via. Não que alguém quisesse ver, é claro.

O garoto ignorou o demônio.

- Encontre os outros ratos. Mate todos. – mandou, andando em direção ao espião.

Cinthia estava bastante confusa. As barracas estavam lotadas de mantimentos! Não poderia haver tanta comida para o exército inimigo. Eles estavam há muito tempo acampados ali, e um exército gasta horrores em comida.

A garota passou a mão sobre um pedaço de carne seca e percebeu que ainda estava fresco.

Onde eles conseguiam tantos suprimentos?

Ela não teve muito tempo para pensar na resposta. Um vento forte empurrou a lona da entrada da barraca. Um vento quente. Podre.

- O pivete tinha razão. – riu uma voz demoníaca – Há mais ratos nesse acampamento.

O estranho parecido com Dawis andou até ele, e Jeff sentiu seu coração gelar. De perto a semelhança era maior, mas também mostrava que aquele era um cara totalmente diferente.

Primeiro que os cabelos dele não eram loiros como os de Dawis. Eram negros. Segundo que os olhos dele, apesar de tão determinados quanto o do sargento, não eram bondosos. Eram olhos que não viam a bondade do mundo. Só a morte.

O estranho não disse palavra alguma quando se aproximou. Tão pouco disse algo quando com um movimento rápido chutou a virilha de Jeff, e com outro agarrou seus cabelos, puxando com violência forçando-o a continuar ereto. A dor fez lágrimas escorrerem dos olhos de Jeff, e o fez esquecer completamente de onde estava.

- Não me mata não me mata não me mata não me mata! – implorou chorando.

A resposta foi um forte murro no estômago, que fez Jeff se arcar novamente de dor.

- Quantos vocês são? – perguntou Laslos.

- S-só e-e-u, só-sózinho aqui. – disse Jeff.

O sangue esguichou do nariz dele quando Laslos acertou um vigoroso golpe ali.

- Não minta para mim, rato de Southice, ou irei arrancar seu colhões. Quantos vocês são?

- SETE! Somos sete! – gritou o menino desesperado.

Os soldados agora estavam se aproximando da cena, tentando entender porque a criança maldita estava espancando um dos seus. Algumas crianças apareceram e formaram uma roda, gritando insultos ao invasor e fazendo uma balbúrdia infernal.

Alex ouviu Jeff gritando e entendeu que ele estava perdido. Seu primeiro pensamento foi para Cinthia. Ela sabia se virar, mas ele apenas rezava que ela não tivesse a idéia tola de tentar salvar Jeff.

Seu segundo pensamento foi para a diligencia. Os soldados não estavam mais guardando-a: estavam mais interessados no garoto sendo espancado.

Ele correu até a diligência e procurou uma fresta. Encontrou uma de bom tamanho, um buraco feito por um machado e que foi mal remendado.

Olhando lá dentro Alex viu uma moça muito pálida. Era loura e vestia um vestido muito elegante. Mas obviamente estava presa há muito tempo, pois sua roupa estava imunda, seus cabelos mal cuidados e tinha olheiras fundas de quem chorou por muito tempo.

Um grito feminino rasgou o ar e Alex reconheceu ali a voz de Cinthia.

Quando Mephir se materializou na barraca, o ar ficou seco e quente. O cheiro podre se espalhou rapidamente, na mesma velocidade que o coração de Cinthia começou a bater mais forte.

Ela gritou com força, esquecendo todas as lições sobre não se desesperar em combate. Aquela coisa saída do inferno atingiu uma zona da mente da menina onde ela tinha trancafiado a experiência traumatizante com a Sarracenia Real, trazendo o horror daquela noite à tona.

- Humana irritante. Vou calar-te para todo o sempre.

A maça descomunal da besta atingiu violentamente o lugar onde um segundo atrás estava Cinthia. A menina correu para fora da barraca sem se importar com o que encontraria lá fora.

Do seu ponto de observação, Flint viu quando dois garotos começaram a brigar e ouviu quando uma menina gritou.

- Será que é... – perguntou ele a Bastos, e o cérbero latiu preocupado.

O mago anuiu e começou a proferir as palavras de um encantamento, gesticulando primeiro lentamente e depois rapidamente. Ele sentiu o poder correndo por suas veias, fazendo seus dedos formigarem e seu coração se aquecer.

Laslos não tirou o olhar do menino, nem mesmo quando uma menina gritou atrás de si. Nem quando Mephir irrompeu no meio do acampamento, fazendo todos os soldados gritarem de pavor.

- Onde eles estão? – perguntou com a voz calma.

E Jeff, que não sentia nada além da dor, contou.

- TODOS A POSTOS SEUS INÚTEIS! – berrava o comandante Narda, responsável pelo acampamento – O DEMÔNIO É NOSSO ALIADO! VOLTEM A SEUS POSTOS, SEUS CÃES SARNENTOS!

Uma barraca começou a pegar fogo subitamente.

E outra.

Soldados começaram a correr.

- Leve esse rato para a barraca. Amarre-o bem. – ordenou Laslos para um de seus arautos. –Mephir, cuide do mago.

- Pensei que queria que eu matasse alguns ratos...

- Sim. Matar. Não falei nada sobre deixar uma garota inútil fugir e criar todo esse escândalo. Vá matar o mago, ou vou tirar sua vida. – disse Laslos cuspindo no chão.

- Sim meu mestre.

- Timmy. – chamou Hinks.

- Sim meu senhor. – respondeu prontamente um rapaz ruivo.

- Reúna as outras crianças. Quero que metade de a volta na campina e pegue dois garotos que estão como mensageiros de emergência. Eles NÃO PODEM chegar vivos ao acampamento de Southice. Entendeu?

- Sim senhor. E a outra metade?

- Vão procurar os outros espiões. Vá!

Timmy correu cumprir suas ordens.

O líder dos Arautos-da-noite se virou para onde estava Narda, que continuava a gritar ordens inúteis.

“Militar estúpido” xingou mentalmente Laslos, enquanto desembainhava sua espada e andava naquela direção.

Dawis ouviu os gritos e a confusão. Sabia que seus comandos estavam em perigo. Viu Flint usando um feitiço, e pelo jeito era uma magia de incineração.

“Muito bom garoto.” Agradeceu mentalmente, enquanto corria em direção ao acampamento.

Os soldados estavam em pânico total, percebeu ele. Nenhum fez menção de atacar o menino loiro que corria com uma lança em punho.

As labaredas se espalhavam com velocidade impressionante, mas os soldados conseguiam combater o fogo. Parecia impossível encontrar alguém naquela confusão.

- Me ajude aqui com esse balde, pivete. – mandou um soldado, obviamente confundindo ele com um dos arautos da noite. Dawis respondeu com golpe preciso de sua lança na jugular do soldado.

- Ali há um deles! Gritou uma voz estridente e jovial.

Quatro crianças corriam na direção de Dawis, cada uma portando adagas, machadinhas e cimitarras. O sargento viu pelo modo como elas se moviam e pelo jeito que elas o olhavam que eram profissionais.

Lembrou-se do seu escudo na base do morro e xingou a si mesmo por não ter trazido junto. A primeira criança pulou com agilidade do seu lado, aproveitando a força do salto para dar mais força ao golpe. Dawis apoiou sua lança no chão e direcionou a ponta para o ventre do menino, que acabou por se matar.

Uma segunda criança, um rapaz mais velho do que Dawis, fez uma finta e atacou o sargento pelo flanco, aproveitando que a lança estava momentaneamente ocupada. Mas o cano de uma arma surgiu como mágica diante de seus olhos, cuspindo fogo e morte contra a cabeça desprotegida do atacante.

Os outros dois, vendo seus companheiros mortos tão facilmente, andaram obliquamente ao inimigo, um de cada lado, procurando cerca-lo.

Dawis se limitou a soltar sua lança e apontar sua arma para um deles.

A estratégia funcionou como ele queria.

O garoto, um sujeito ruivo, pulou para o lado, pois não conhecia as arma s de fogo. Se conhecesse, saberia que a arma nunca ia disparar sem ser recarregada. A outra criança, uma menina de cabelos curtos, avanço achando que a guarda do inimigo estava baixa. Mas Dawis estava pronto para ela. Ele deu uma coronhada em seu rosto, derrubando-a no chão e tirou ela de combate com um chute na cabeça.

O garoto ruivo tentou fugir, mas a lança voou em seu encalço, perfurando-o nas costas.

Flint continuava usando magia para incinerar as barracas. A magia era simples, apenas fazer um pedacinho da lona esquentar a ponto de entrar em combustão, mas o esforço repetitivo estava esgotando-o.

Um rosnado feroz tirou a sua concentração.

- O que foi Bastos?- perguntou o mago.

Foi quando Mephir se materializou na frente dos dois.

O comandante Narda estava finalmente conseguindo juntar um grupo de soldados para tentar uma contra-ofensiva a seja lá o que estava destruindo a ala norte do seu acampamento.

O acampamento era grande, e comportava centenas de soldados. O fogo já estava controlado e algumas fileiras de escudo se formavam, apesar de ninguém saber de onde vinha o ataque.

Laslos se aproximou de Narda e disse:

- Comandante, meus homens capturaram alguns espiões. Essa não é uma grande ofensiva, não há necessidade para tamanho alarde. Contenha seus homens.

- Escute aqui moleque! – vociferou o comandante – Você é apenas um mercenário, pago para fazer um serviço. Suas crianças NÃO conseguiram guardar bem o pé do morro, como você bem pode ver. Agora saia da minha frente, antes que eu acabe com você!

- São sete inimigos, Narda. – disse com desprezo Laslos. – Se seus homens covardes não tivessem debandado quando viram meu demônio, o fogo não teria se alastrado tanto. Teríamos cuidado de tudo.

- NÃO VOU ADMITIR QUE FALE ASSIM COMIGO! – gritou Narda – VOU REPORTAR SUA INEFICÁCIA AO GENERAL IMEDIATAMENTE! VOCÊ VAI...

- Não grite como uma mocinha Narda. – falou Laslos com sarcasmo – Mande seus homens concertaram os estragos enquanto eu caço os espiões.

- E porque você os caçaria?

- Porque você não iria saber diferenciar os meus Arautos desses espiões. São crianças também.

- Hunf. – ninguém nunca falou com Narda assim, mas não era saudável bater de frente com um garoto que tinha um demônio como bichinho de estimação. Narda engoliu as ofensas, pensando que mais tarde poderia se vingar. – VOCÊS OUVIRAM SEUS BASTARDOS! ARRUMEM ESSA BAGUNÇA!!!

Enquanto os soldados obedeciam, Laslos Hinks começava a sua caçada.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Capítulo 31


Espiões

Enquanto estudava cuidadosamente os movimentos dos inimigos em seu acampamento, Dawis recarregava sua arma com a habilidade e velocidade de quem já o fizera repetidas vezes. Abaixado no meio do mato, perto de seus amigos e comandos, ele limpava o cano da arma, tirando toda a pólvora queimada e substituindo por uma nova, com delicadeza. Caso colocasse de menos, a arma não iria disparar como devia, e se colocasse demais... Bom, iria correr o risco de perder alguns dedos da mão.

Ele inseriu cuidadosamente a bala de grosso calibre, travou a arma e colocou-a no coldre.

Segundo seus cálculos, a investida contra os ”ratos” levou cerca de onze minutos para ser concluída, contando desde o momento em que as crianças inimigas trocaram de posição. Ele sabia que elas se iriam fazer aquilo de meia em meia hora (ele não havia sonhado com isso?) e uma hora e meia foi o tempo que ele usou para ter certeza. O inimigo era bom em fazer tocaia, e a tática de usar crianças fora excelente, mas eles obviamente tinha se esquecido de que o outro lado também tinha suas crianças talentosas...

Assim como os adultos aliados de Dawis não tinham visto as crianças agachadas no mato alto, por causa do tamanho delas, as próprias crianças não puderam enxergar o grupo de Dawis, que tinha praticamente a mesma altura delas. O que denunciou o grupo defensor foi justamente essa troca de lugares.

- Há mais dessas crianças andando pelo acampamento. – sussurrou Cinthia perto do seu ouvido. O perfume dela tão perto deixou Dawis momentaneamente tonto, mas ele se recuperou rapidamente.

- É... elas são mais perigosas que esses adultos confiantes, é isso o que eu acho. – murmurou ele. – Estão construindo algo no centro. Esta ouvindo as marteladas?

- Sim... mas não da pra ver nada, são muitas barracas. Talvez sejam outras barracas, ou estejam consertando carroças...

Bastos estava deitado do lado dele, se achatando contra o solo para seu tamanho não chamar a atenção. Suas orelhas estavam apontadas para o acampamento, e isso significava que não havia nenhum inimigo por perto que ameaçasse o grupo.

- Cinthia, Alex e Jeff. – chamou o sargento. Jeff era um menino miúdo, como Alex e Cinthia, o que o tornava perfeito para o que ele queria - Quero que se esgueirem até lá – apontou – e descubram o que puderem. Flint, você tem energia para mais algumas magias?

O menino assentiu.

- Bom. Fique aqui e lance algumas bolas de fogo, relâmpagos ou qualquer coisa chamativa para atrair a atenção dos inimigos, caso seja necessário. Se eles correrem em sua direção, não fuja! Estaremos por perto para ajudar, e em últimos casos Bastos pode levar você para longe.

Flint empalideceu, mas assentiu novamente.

- Eu vou para lá. – mostrou uma estrada – Vou ver se descubro pelos rastros na estrada alguma informação interessante. Cliff e Ariel, vocês vão cuidar do perímetro. Avisem-nos caso algo saia dos planos e corram para longe se tudo estiver perdido. Contem tudo o que virem aqui, e terão feito bem o seu trabalho. – Dawis olhou para todos – nos vemos no morro daqui a quinze minutos. Não se atrasem.

Todos bateram continência e foram cada um seguir suas ordens. Bastos quis seguir Dawis, mas este o mandou ficar junto a Flint. Sabia que o garoto podia fraquejar se ficasse sozinho.

Enquanto corria agachado, tentando não fazer muito barulho (algo difícil com sua armadura pesada), Hinks pensou pela milésima vez que o peso da responsabilidade por seus comandos era muito maior que qualquer armadura que ele pudesse vestir...

Cinthia se ajoelhou no limiar do acampamento, ainda escondida pelo mato. Sabia que seu cabelo negro iria se destacar no mato verde e amarelo, mas torcia para que nenhum guarda fosse tão cuidadoso.

“Dawis me mandou aqui. Se ele confia em mim para fazer isso, então eu posso fazer isso.” Pensou ela, enquanto amarrava o cabelo em um coque.

As barracas formavam uma parede que obstruía a visão de qualquer pessoa que olhasse de fora, por isso a garota soldado teria que entrar.

A menina deixou o arco no chão e tirou uma adaga. Quando nenhum guarda olhava naquela direção, ela correu para o acampamento. Seus olhos pulavam de pessoa em pessoa, procurando qualquer sinal de que tinha sido vista.

Abaixou-se rente a uma barraca e esperou. Nada. Olhou para o centro do acampamento e viu os soldados muito ocupados, carregando madeira e outras coisas. Uns poucos vigias estavam de guarda, mas era mais interessante ver os outros soldados trabalhando do que olhar para uma campina vazia.

“Principalmente se acharem que seus rabos estão protegidos.” Pensou sorrindo.

Havia grandes pilhas de madeira. Homens fortes carregavam as pesadas toras para a construção. Cinthia achou que fosse uma torre. Era estranho, uma torre significava que eles iriam manter a posição, mas era o que parecia.

Ela gravou bem na sua memória as formas da construção para contar aos outros. Alex e Jeff provavelmente estavam em algum lugar, vendo o mesmo que ela, mas cada um teria uma visão diferente.

Ela tinha mais um tempinho ainda, por isso resolveu inspecionar algumas barracas...

Alex estava tentando entender porque alguém construiria uma torre em um lugar longe de qualquer cidade aliada. Northfire não tinha de onde tirar mantimentos! Como eles pretendiam se manter?

O menino baixou a cabeça quando um soldado passou por seu esconderijo, atrás de alguns barris. Ele estava carregando um prato de comida, o que deixou Alex desconfiado. Soldados comem em qualquer lugar, geralmente bem próximo de onde ganhou a comida. Eles não levavam para longe...

O soldado entrou foi até uma velha diligencia, onde (só agora Alex percebeu) havia quatro soldados de guarda. O soldado com o prato abriu a portinha, entrou, e quando saiu já não carregava mais o prato.

Curioso, Alex se esgueirou entre as tendas até chegar bem próximo. Não podia se aproximar mais, os guardas estavam de guarda baixa, mas ainda assim bem posicionados. Ele ficou escutando, esperando para ver se algo aconteceria.

E de fato aconteceu.

Jeff percebeu que havia muitas crianças naquele acampamento. Notou também que todas estavam bastante esfarrapadas, e que os adultos não lhes davam mais que um olhar rápido quando por elas passavam.

O menino esfregou terra em sua roupa e resolveu tentar andar normalmente pelo acampamento, para investigar melhor.

Seu plano parecia estar indo muito bem, obrigado. Os soldados não davam atenção às crianças e, desde que ele não falasse com nenhuma delas, poderia passar despercebido.

Ele andou por um tempo entre os soldados tentando pescar partes de conversas. Quando uma das crianças inimigas passava, ele abaixava os olhos.

Ah, se esse garoto não tivesse feito mais do que Dawis Hinks pedia. Talvez algumas das terríveis coisas que aconteceriam a partir dali jamais ocorressem.

Talvez Jeff estivesse vivo até hoje.

Mas Jeff desobedeceu a seu sargento e tentou uma manobra ousada, tentou passar despercebido como um deles.

E teria conseguido, se um rosto não tivesse chamado sua atenção. Era um rosto idêntico ao de seu líder, parecido com o de seu sargento. Sua curiosidade foi tamanha, que Jeff não desviou o olhar desse garoto: ele perdeu preciosos segundos tentando entender o que seus olhos viam.

Foi o tempo que Laslos precisou para notar que nunca tinha visto aquele garoto em sua vida...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Capítulo 30


Capítulo 30

Ratos



Com treze aos, Arthur observava a campina que se estendia ao pé do morro. Era uma área vasta, coberta de mato e com algumas árvores aqui e ali. O mato cobria a terra, alcançando facilmente a cintura de um homem adulto. Ou mesmo uma criança. O sol do fim da tarde tingia de dourado a paisagem, emprestando um tom mágico ao lugar do futuro massacre.

Sentado no meio desse matagal, o menino de cabelos castanhos era tão visível como sangue no molho de tomate. Atrás de si estava o acampamento de Northfire, onde “batedores” andavam de um lado para outro ostensivamente.

O menino riu baixinho. Era engraçado ver os adultos fingindo daquela maneira. Será que estavam se divertindo? Ele com certeza estava.

Fazer tocaia era uma coisa demorada. Exigia paciência. Mas Arthur era bom nisso, se era. Assim como muitos Arautos-da-Noite. “O chefe é muito esperto, sim senhor.” pensou a criança, enquanto seus olhos voltavam a procurar inimigos descendo o morro. “Enquanto os adultos brincam de guardar o acampamento, nós matamos os batedores safados...”

Naquele momento, um pio de coruja indicou que um dos períodos de meia hora havia passado, e que era a hora de andar.

Por toda parte, o mato ondulou como se criaturas se movessem furtivamente. Eram crianças como Arthur, se esgueirando pela campina, trocando de posição. Uma medida de segurança, que não deixava as crianças dormir em seus postos e mudava o ângulo dos vigias o tempo todo.

Arthur assumiu sua nova posição e dividiu mentalmente o terreno em sua frente em quadrados. Vigiava cada quadrado de terra por um minuto e depois vigiava o próximo.

Algo lhe chamou a atenção. Um brilho. Rápido. Arthur ficou alerta imediatamente, e sua expressão se tornou grave. Ele era uma criança, mas também era um veterano de guerra. Era um Arautos-da-Morte, e isso queria dizer que ele já lutara em mais de uma batalha.

O brilho se repetiu novamente, e Arthur não teve mais dúvidas. Era o sol batendo em uma superfície metálica. Um elmo? Uma espada? Não importava. Era um brilho metálico, e era hora de agir.

Imitou a cantoria de um pássaro. Para qualquer um aquela cantoria não seria nada, mas para as outras crianças de vigia aquilo era código Morse.

[Brilho. Metal. 25º. Frente. Verificar.]

Vários pios parecidos se elevaram no ar.

[Afirmativo. Contato.]

[Setor leste. Limpo. Oeste. Limpo.]

[Afirmativo. Avançar. Capturar. Avançar.]

Logo o mato ondulou novamente, e se a campina fosse mar com toda a certeza os Arautos seriam tubarões.

As crianças saltaram para fora do mato como um crocodilo ataca sua presa na beira de um rio. Não havia gritos, não havia amadorismo. Eram assassinos, e sua presa não iria escapar.

A adaga de Arthur foi a primeira a encontrar a carne inimiga, e foi seguida por duas, enquanto seis crianças cercavam o lugar e outras duas ficavam a distância. Também foi de Arthur a primeira boca a soltar um xingamento.

- Mas que merda é essa? – xingou o menino olhando a coisa ensangüentada que ele abatera.

Havia um coelho de bom tamanho morto a seus pés, e amarrado a seu corpo uma braçadeira de metal muito reluzente, que fora cuidadosamente lustrada.

- O que isso significa? – perguntou Elisa, uma menina que estava olhando por cima do ombro de Arthur.

- Não sei, mas é me...

Quaisquer palavras que ele tenha dito se perderam na explosão de sangue na qual sua boca se transformou quando uma bala de grosso calibre se alojou em sua cabeça.

A menina gritou. Um grito alto, mas curto, tanto quanto as ultimas palavras de Arthur, porque uma flecha atravessou seu peito com um som abafado, enquanto seus outros colegas eram rapidamente abatidos por outras flechas. Um garoto conseguiu escapar e começou a correr na direção do acampamento, mas um cão enorme, negro como a noite, correu em seu encalço e o derrubou facilmente. O corpo da criança desapareceu no mato alto, mas Elisa viu, com o que restava de sua consciência, a mandíbula vermelha da fera sair do mato enquanto o cão fitava a campina em volta, procurando obviamente por sobreviventes.

Um vulto cobriu a visão dela e a face grave de um garoto entrou em foco, enquanto o ar faltava nos pulmões da menina.

Ela fez força para se manter viva, para a escuridão não engolir sua vida, mas estava difícil. Elisa estava confusa, a face do garoto era muito parecida com a de seu chefe. Ou seria a morte lhe pregando uma peça?

- Chefe...? – balbuciou ela.

- Sinto muito. – disse o garoto com o rosto parecido com o de seu chefe, enquanto dava o golpe de misericórdia na menina.

Os soldados de Dawis se reuniram a sua volta, juntando os corpos dos inimigos e procurando qualquer sinal de que os soldados no acampamento tivessem notado algo. Não tinham, e isso por si só era um milagre, uma vez que magia de Flint para abafar os tiros de sua arma não tinha sido muito eficaz.

Estavam em sete. Dawis, Cinthia, Alex e outros alunos de Wingfield que sempre serviam sob o comando de Dawis.

- Eram crianças... – murmurou Alex.

- Como nós. – lembrou Dawis. – Mataram os batedores que vieram antes e matariam a nós se tivéssemos dado a chance. – o sargento olhou para seus comandos. – Bom trabalho soldados.

Ouvir a voz de seu sargento chamá-los de soldados fez os garotos se sentirem bem. Se tivessem morrido ali, morreriam felizes, pois seu sargento estava feliz por eles. Dawis era o sargento, era o líder. Era quase o pai.

- Vamos terminar o que fizemos aqui. – sentenciou Dawis.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Capítulo 29

Capítulo 29

Planejando

Dawis encontrou seus três comandos na cabana-cozinha. Cinthia tagarelava com Alex, enquanto Flint remexia seu prato com uma expressão desgostosa. Bastos deitou na terra e ficou observando o acampamento, enquanto o sargento sentava em uma das inúmeras toras jogadas pelo chão, que serviam de banco para os soldados.

- Podem continuar comendo. – disse Dawis – Apenas escutem o que lhes digo, e mantenham suas bocas cheias de comida. É só o que eu peço.

Os três assentiram.

- Bom. O exército está esperando um ataque de Northfire, mas este não aconteceu ainda. Não sabem o que está havendo. Segundo nossos batedores eles não estão longe. Uns dois dias de viagem, três se estiverem carregando muitos mantimentos. Mas eles estão parados no mesmo lugar há mais de quatro dias.

- E por que eles não vieram então? – perguntou Flint de boca cheia.

- Não sabemos... – suspirou Dawis, parte porque era frustrante não ter a resposta dessa pergunta, parte porque Flint o interrompeu quando não precisava. – Fato é que a posição não é vantajosa para nenhum dos lados. Nós estamos perdendo um tempo precioso aqui. – fez um gesto abrangendo o acampamento. – É claro que lutar morro acima é desvantajoso para eles, mas o que eles querem? Sitiar-nos no pé do morro? Eles não devem ter tantos mantimentos. Não há cidades próximas que sejam aliadas de Northfire, e o inverno está chegando rapidamente.

Uma corneta soou ao longe indicando a troca de turnos. Alguns soldados levantaram, pegaram suas armas e foram para seus postos de vigia.

- Nós vamos descobrir. Os batedores mandados nos dias anteriores não voltaram e os generais acham que isso indica que eles estão fazendo emboscadas. – Dawis pensou que devia ser exatamente isso que eles estavam fazendo. É muito fácil tocaiar batedores individuais. – Por isso nos escalaram para ir lá. Temos boa experiência de campo, somos um grupo de seis pessoas e temos usuários de magia entre nós. E... bom, somos perfeitos para resolver o caso.

- Tem mais alguma coisa, não? – perguntou Cinthia olhando para ele intensamente. Dawis pensou, não pela primeira vez, que ele era um livro aberto para aqueles olhos esverdeados...

- Sim. – bufou Dawis – Eles não querem mais perder soldados bons, por isso estão nos mandando. Porque somos alunos de Wingfield, descartáveis. “Se alguns morrerem sempre haverá outros para substituí-los”. Ah sim, assim pensam eles.

- Nojentos... – cuspiu Cinthia.

- Era de se esperar. – falou Alex coçando o queixo – Eles nos vêem como crianças ainda (coisa que ainda somos com orgulho). Mas esquecem que essas crianças já fizeram um bocado de coisas, é ou não é?

- Éééééé. – concordou Dawis com um sorriso – Já chutamos algumas vezes as canelas do exército de Northfire.

- E qual o plano? – perguntou Flint.

O sargento pensou com cuidado. Aquela situação lhe era familiar. Ele se recordava de um Sonho onde um exército de ratinhos estava tocaiando alguns gatos, e estes jamais voltavam ao exército felino.

No seu Sonho, Dawis liderou um grupo de gatos até o acampamento inimigo, e usando de certa estratégia ele venceu os ratos...

Mas aquele não era um Sonho, nem os inimigos eram ratos (pelo menos não no sentido literal). O garoto confiava muito em seus Sonhos (como não confiaria?), mas tinha muito medo de arriscar a vida de seus amigos. Se pudesse fazê-lo sozinho, Dawis não pensaria duas vezes, pode ter certeza.

- E então Dawis? – insistiu Cinthia.

- Vou ser sincero, tanto quanto eu puder. – disse bem devagar o garoto - Tenho uma idéia de como esses ratos estão tocaiando nossos soldados e sei como proceder se assim for. Mas...

- Mas se você estiver enganado estamos mortos, certo? – terminou por ele Alex.

- Sim. Estaremos. Chegaremos ao fim da correnteza da vida, e que a Serpente Anfah tenha uma boa indigestão.

(nota: Segunda a crença popular, a vida é um rio que deságua no Mar Rubro, o mar dos Mortos. Lá a Serpente Marinha Anfah espera por todos os mortos, onde ela come suas carcaças e cospe suas almas)

- Claro, porque não? – respondeu acidamente Flint – Vamos arriscar nossas vidas em um palpite qualquer, se morrermos tudo bem!

- Ah claro, vamos fazer uma ação padrão como os outros batedores e confiar que sua magia, ó grande mago poderoso, seja o bastante para nos salvar. – falou Cinthia sarcástica.

As faces de Flint pareciam pegar fogo quando ele se levantou berrando.

- Seguir os conselhos de um MALUCO SUÍCIDA pode ser bom para vocês, mas não PARA MIM!!!

Não houve tempo para a reação de Flint. Antes que ele pudesse sequer fechar a boca após seu histérico “MIM”, o punho de Dawis acertou seu estômago com força. O mago se dobrou em dois, e soltou um gemido surpreso.

- Não me importo de ouvir qualquer tipo de crítica sobre o modo como eu comando. – disse Dawis friamente – Mas não sou suicida e recomendo mais respeito com seu sargento. Estamos em um exército cacete, somos parceiros, mas ainda temos a droga de uma hierarquia.

Flint estava pálido, visivelmente arrependido. Dawis também se arrependeu, um pouco, pelo golpe. O garoto estava ali obrigado pelo pai, mas também não podia agir dessa maneira.

- Flint, me desculpe, mas eu não posso aceitar algumas atitudes suas como soldado.

- Certo, sargento, o que faremos? – perguntou muito sério Alex, como era natural dele.

- Nós vamos caçar alguns ratos. – respondeu simplesmente Dawis Hinks.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Capítulo 28

Capítulo 28

Acampamento II

Os cabelos negros de Cinthia ondularam sob a luz da alvorada, fazendo o coração de Dawis se encolher, não pela primeira vez. Ela tinha a mesma idade dele, e quase a mesma altura, sendo apenas um palmo mais baixa (coisa que a deixava muito desgostosa). Trajava uma armadura leve, feita de couro, que escondia seu corpo esguio e atraente.

Ela deu um largo sorriso quando o viu, caminhando lado a lado com Bastos, e bateu uma continência espalhafatosa e pomposa. A maneira como ela ergueu ligeiramente o queixo para cima e comprimiu os lábios deixou tudo mais cômico ainda, fazendo o jovem Hinks rir com vontade.

- Como um sargento pode rir assim quando um soldado lhe bate continência? – perguntou ela tentando parecer aborrecida, sem sucesso.

- Não ensinaram que devemos bater continência com humildade? – disse Dawis entre os risos.

- Mas também nos ensinaram a fazê-lo com vigor! – rebateu ela, mostrando a língua. Dawis explodiu em uma gargalhada, e logo foi acompanhada pelos risos sonoros da menina.

Quando as risadas dos dois arrefeceram, eles ficaram se olhando e sorrindo. Isso até perceberem o que estavam fazendo e ficarem com as faces rubras, é claro.

Bastos olhou de Dawis para Cinthia, e então de Cinthia para Dawis. Qualquer um que o observasse juraria de pés junto que ele rolou os olhos para cima, como quem diz “Humanos, humf”.

O momento foi interrompido por Alex, que saiu da tenta coçando o cabelo, os olhos sonolentos praticamente fechados, espreitando a luz do novo dia com franco aborrecimento.

- Dia... – resmungou ele, arrastando os pés.

Cinthia deu um cutucão na barriga do garoto. – É bom dia, senhor. Você precisa fazer uma continência para Dawis, lembra?

Alex se empertigou e bateu uma vigorosa continência, que teria sido exemplar, tirando a parte do rosto sonolento e das roupas amarrotadas. Dawis riu e olhou para Cinthia e essa também não agüentou a risada.

- Ah me deixem em paz... – suspirou divertido Alex, se dirigindo para o rio.

- Vou lavar o rosto também, devo estar com uma cara horrível! – disse Cinthia se espreguiçando. Dawis teve vontade de dizer que ela estava linda, mas se conteve.

Enquanto os dois se afastavam, o jovem sargento entrou na tenda e ficou observando o terceiro companheiro de acampamento. Era um rapaz loiro, de cabelos mais claros que o dele, e muito pálido. Flint não era um bom soldado, era apenas um menino que tivera o azar de nascer em uma família guerreira. Tinha uma inclinação para a magia, mas seu pai não via a magia com bons olhos. A maioria dos guerreiros ignorantes teme a magia como uma força maligna, e não havia nada que se pudesse fazer para convencê-los do contrário.

Mas Dawis não podia pegar leve com ele, não quando todos os outros soldados do acampamento também precisavam acordar na mesma hora.

- Acorde Flint.

- Hmmm... – fez Flint.

- Acorde soldado, já é hora de levantar.

- Que droga... – xingou Flint se esforçando para acordar – Pô Sargento, o sol nem nasceu ainda.

Dawis fez um muxoxo. – Não importa, são cinco e meia da manhã, hora de acordar. Levante e vá lavar o rosto no rio, temos muito que fazer hoje.

Enquanto o garoto saía resmungando, Dawis pegou sua armadura e começou a vesti-la.

A armadura era muito boa, considerando o salário de fome que Dawis recebia por ser um sargento. Era de cobre e aço, muito pesada, mas muito resistente. Uma armadura assim só era usada por cavaleiros, que geralmente não precisavam andar muito, apenas ficar em cima de um cavalo que carregaria todo o peso.

Mas aquela não estava completa. As únicas partes das quais Dawis se utilizava era o peitoral, uma ombreira (a do braço esquerdo, onde o menino usava seu escudo) e uma manopla (pedaço da armadura que protegia das mãos até o bíceps) que ele utilizava no braço direito (o braço da lança).

Ele também usava duas botas de batalha, coturnos grossos de couro, reforçados com placas de metal, que alcançavam até os joelhos.

Um sorriso brotou nos lábios do jovem sargento no primeiro dia em que ele envergou sua armadura há quase um ano.

Foi em uma batalha na Fronteira leste de Southice, um lugar perdido chamado Fosso-da-Tartaruga. O exército de Northfire estava lá em peso, procurando entrar fundo no reino inimigo, e o regimento de Dawis foi mandado para ajudar o exército a combatê-los.

Quando saiu de sua tenda, naquele dia, trajando sua armadura “nova”, foi recebido com olhares de deboche e risadinhas. Alguns oficiais mais graduados riram descaradamente dele. E ele descobriu que não podia culpá-los.

Imagine um garoto de doze anos, loiro, de um metro e cinqüenta e sete de altura, empertigado em uma armadura que seria usada apenas por um homem maior, dali a muitos anos. Imagine este mesmo garoto andando pesadamente, trazendo nas costas uma lança robusta e muito comprida (“uma lança de cavalaria!” gargalhou alguém) e um escudo grande e triangular.

Muitos apostaram que ele não ia durar dois minutos no campo de batalha.

Os mais otimistas apostaram que ele sobreviveria uns dez.

Mas ele não só sobreviveu, como lutou furiosamente, vencendo um inimigo atrás do outro.

Seu estilo de luta era totalmente novo, e ninguém sabia como enfrenta-lo. Ele escorara o escudo na perna esquerda, parcialmente dobrada a frente, enquanto a perna direita ficara mais atrás, pronta para agüentar qualquer empurrão que viesse. E viria, é claro, pois a guerra nada mais é que o embate entre fileiras, a temida parede de escudos, o paredão da morte. Onde homens morrem como cães e cães comem como reis.

A lança era uma haste de ferro arredondada e afiada, com dois metros e meio de comprimento, que se abria como uma tulipa para proteger a empunhadura, e assim, também a mão do guerreiro.

Quando a primeira fileira inimiga despontou no horizonte, Dawis se posicionou na frente, ladeado por Alex e um soldado chamado Carter. Encravou a lança no chão logo à sua frente e sacou seu revólver (um presente de Gabriel).

As armas de fogo eram conhecidas por todos os exércitos, mas pouco utilizadas. Eram dispendiosas, atiravam uma vez e precisavam ser recarregadas, processo que demorava vários minutos (tempo que não se tem em uma batalha) e uma bala não vencia a proteção de um escudo de aço pesado.

Por isso houve muitos murmúrios de desaprovação quando ele sacou seu revólver.

Mas assim que as fileiras inimigas se aproximaram a uma distancia de dez metros, Dawis atirou. A bala de metal varou o ar, cortando a distância com uma facilidade terrível. O soldado para o qual ela estava direcionada mal teve tempo de pensar “ainda bem que tenho escudo” quando ela atingiu a fileira com força.

Uma bala normal teria se encravado no metal e seria o fim de sua curta trajetória.

Aquela soltou um clarão vermelho intenso e varou facilmente o metal, a carne e os ossos, matando o primeiro soldado e ferindo gravemente o homem logo atrás.

Dawis guardou sua arma no coldre e empunhou novamente a lança. Levou para isso o mesmo tempo que você para respirar duas vezes enquanto lia a última frase.

- Ataquem a brecha na parede de escudos! – berrou ele para os soldados, e correu com a lança em riste, os guerreiros aliados seguindo-o logo atrás.

A lança perfurou fundo as fileiras inimigas, alargando ainda mais a brecha na parede de escudos. Labaredas de fogo crepitavam por toda sua extensão, denunciando que Dawis estava usando magia em cada golpe, o que encheu os inimigos de temor. Magos ficam atrás das fileiras, em seus mantos sombrios, usando magias complexas e morrendo como moscas quando alcançados pelo inimigo. Não lutavam na linha de frente. Não empunhavam lanças. Não gritavam em fúria, ceifando vidas com tamanha habilidade. E não tinha tão pouca idade.

Numa parede de escudos vence aquele que conseguir quebrar a linha de escudos e penetrar dentro da fileira inimiga. Isso porque o homem da esquerda protege com seu escudo o homem da direita e assim por diante. Se um cai e não é substituído logo, o homem ao seu lado fica indefeso e fatalmente irá morrer, gerando uma reação em cadeia até que todo o exército inimigo esteja derrotado.

E foi o que Dawis fez. As fileiras inimigas começaram a se desorganizar frente à fileira muito organizada do jovem sargento.

Ele foi decisivo naquela batalha, e ninguém mais riu de suas armas nem de sua armadura...

Quando estava pronto, Dawis saiu da tenda para encontrar seus amigos. Haveria luta naquele dia, exatamente como há um ano atrás, e ele estava pronto para ela.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Capítulo 27

Capítulo 27

Acampamento

Quando Dawis Hinks acordou, sentiu que o cansaço de toda uma noite de vigília tinha passado. Ele dormira não mais do que quatro horas, algo que estava ficando comum no front de combate, mas sentia-se muito bem disposto. Olhou em volta de sua barraca e ficou satisfeito em ver que seus três companheiros roncavam alto.

Ele tinha sonhado alguma coisa, mas não era um dos Sonhos. Era só um sonho comum, de quando ele matou a Sarracenia Real, seis anos atrás. Ele sorriu lembrando da cara de preocupação de Gabriel quando este o socorreu. A explosão tinha debilitado muito o corpo de Dawis, mas o que importava era que três vidas haviam sido salvas.

É claro, as broncas não tardaram muito. Eles tiverem que ouvir inúmeras vezes a mesma lengalenga sobre terem destruído um monstro raríssimo, sobre como ia ser difícil substituí-lo e tudo o mais.

Os três novos amigos de Dawis quase foram expulsos. Jordan (o menino mais velho), Alex (o mais novo) e Cinthia (a menina de cabelos negros, que mais tarde Dawis descobriu ser a irmã de Jordan). Os três passaram um bom tempo de castigo, se passaram! Mas Dawis era grato por isso, pois a maior parte dos castigos era justamente ajudar Gabriel, o que os deixou mais próximos do menino.

Uma estranha amizade rapidamente se desenvolveu entre eles. Por um lado Dawis sempre foi solitário e nunca tinha brincado com outras crianças. Por outro, o trio desenvolveu uma admiração quase cega pelo garoto, pois sem ele, teriam se transformado em lanche de Sarracenia.

Jordan era arrogante, metido a herói e muito galanteador, mas seu sorriso fácil e seu jeito tagarela atraíram Dawis sem que este pudesse recuar. Já Alex, mais tímido e introspectivo, se mostrou um grande companheiro. Suas gargalhadas cristalinas e deliciosas eram tão raras que geralmente todos paravam de fazer o que quer que estejam fazendo para ouvi-la, não sem deixar escapar um sorriso.

E Cinthia... bem, ela era impetuosa, orgulhosa e extremamente teimosa. Mas também era alegre como só ela, muito peralta e animada. A vida perto dela era muito mais divertida, sua alegria contagiante e sua amizade verdadeira. Era também dona de uma voz linda, e dizia que seu sonho não era apenas ser uma grande arqueira, mas também ser uma grande e famosa cantora. Dawis não tinha dúvida que ela conseguiria.

Afastando o tecido que fechava a tenda, Hinks saiu para o acampamento. Em suas costas pendia uma comprida e robusta lança. O escudo que a acompanhava ficou na tenda; ele só o levava durante um combate. Na sua cintura um grande revólver pendia de um coldre, parecendo muito grande para alguém com a idade dele.

Até onde sua vista alcançava, ele via soldados e alunos de Wingfield começando a acordar e andar entre as muitas tendas. Muitos o cumprimentavam respeitosamente, pois Dawis Hinks já tinha ganhado as divisas de sargento, mesmo tendo apenas 13 anos.

(Nota: Os não nobres que ingressavam ao Exército entravam como Soldados. Destes, os que se destacavam eram promovidos a Sargento (primeiro posto dos oficiais), posteriormente a Alferes, Capitão (oficiais inferiores) e Sargento-Mor (Oficial superior).

- Bom dia Bastos. – disse o garoto, abraçando o cérbero. Bastos fazia a vigília, uma vez que assim como Dawis ele não precisava de muito sono. Ele lambeu o rosto do menino, dando-lhe um belo banho. Ele já alcançava facilmente os ombros de Dawis, e era tão forte e maciço que poderia facilmente carrega-lo nas costas, coisa que já fizera em mais de uma situação.

Enquanto caminhava para o rio, onde ia lavar seu rosto, ele se perguntou pela milésima vez o porquê de terem aceitado ele como sargento. Não que não fosse capacitado, longe disso, mas não achava que pudessem aceitar um garoto dando ordens. Com efeito, quando ele se dirigia aos outros sargentos era frequentemente hostilizado. Odiava isso. Odiava os olhares petulantes, as risadas arrogantes e as piadas sobre sua idade.

Mas se sentia bem em campo. Era bom na mata, liderando seu pequeno esquadrão de seis soldados pelo meio da selva. Eles o seguiam sem pestanejar, mesmo quando ele sugeriu o ataque suicida na cidade Rhôm, mesmo lá, eles o seguiram.

Após lavar o rosto (“desamassar a cara”, como diria Jordan) foi procurar o que comer.

Dirigiu-se ao centro do acampamento, onde uma cozinha foi improvisada em uma cabana de chão de terra. A cabana provavelmente era uma estrebaria que foi “engolfada” pelo acampamento. Havia vários grandes caldeirões, onde uma sopa horrível era feita, mas pelo menos era quente. O inverno vinha sendo rigoroso e muitos prediziam neve para dali uns dias.

- Café da manhã, sargento? – perguntou alegremente o cabo responsável pelo “grude” daquela manhã.

Dawis assentiu. O certo seria o cabo ter batido continência para ele, mas o menino não queria estragar seu próprio bom humor com questões assim.

Recebeu rapidamente um prato com sopa e um pedaço de pão duro. Bastos não ganhou coisa alguma; ele era capaz de caçar um café da manhã muito melhor.

Correu os olhos pelo acampamento enquanto comia sua refeição. Estavam bem instalados ali. O exército de Northfire demoraria ainda alguns dias para chegar, mesmo que viajassem leve (coisa que Dawis duvidava muito) e o acampamento ficava em um planalto. Poderiam ver dali qualquer aproximação, e os inimigos teriam que lutar morro acima, algo não muito agradável.

Percebeu com o canto do olho um movimento em sua tenda. Parece que seus companheiros estavam afinal levantando.

- Vamos, temos um dia cheio pela frente... – falou Dawis para Bastos.